Categoria: Roteiro

  • Diário do Capitão N.º 03 · O semestre que fecha

    Diário do Capitão N.º 03 · O semestre que fecha

    Publicado originalmente no LinkedIn a 15 de julho de 2026. Esta é a versão integral e permanente. Sete números sustentavam o balanço desse texto. Cinco não sobreviveram à verificação, e é por eles que começo.

    Escrevi em julho que o primeiro semestre de 2026 tinha fechado e que valia a pena fixar o que esses seis meses mostraram a quem trabalha em formação. Fixei sete indicadores.

    Ao preparar a passagem do nosso trabalho editorial para este domínio, fomos às fontes primárias de cada um. Dois resistiram inteiros. Cinco não.

    Refazer o balanço com os números certos é a única coisa que faz sentido publicar aqui, e é o que segue.

    O balanço, refeito

    Sobre a distância entre reconhecer e praticar.

    Escrevi que 61% consideram a formação digital imprescindível e 43% usam inteligência artificial com regularidade, e chamei aos dezoito pontos a tensão central do mercado português.

    Os 61% dizem outra coisa: são os que afirmam necessitar de mais formação para integrar a inteligência artificial no trabalho. E não se opõem aos 43%, sobrepõem-se-lhes largamente, porque quem diz precisar de formação é quem já usa a ferramenta. A subtração era entre grandezas diferentes.

    A tensão central existe e é outra. Sessenta e um por cento declaram precisar de formação. Vinte por cento receberam alguma. Quarenta e um pontos, não dezoito.

    Sobre as microcredenciais.

    Escrevi que a formação contínua mudou de morada, saindo do ensino superior clássico para os cursos não conferentes de grau, que cresceram 98% na Universidade Aberta.

    O valor é real. No mesmo período e na mesma instituição, os cursos conferentes de grau cresceram 89%. Nove pontos de diferença não sustentam uma mudança de morada. Sustentam uma instituição que quase duplicou em ambas as frentes.

    A microcredencial está a somar-se ao grau, não a substituí-lo, e a distinção decide onde se investe.

    Sobre o estudante típico.

    Escrevi que tem hoje quarenta anos, família e carreira a meio.

    Não confirmámos a origem desse valor e não o vamos repetir. O que os dados europeus mostram é que a participação em formação decresce com a idade menos do que se supõe: 56,5% entre os 25 e os 34 anos, 49,9% entre os 35 e os 44, 46,2% entre os 45 e os 54. Um declive suave ao longo de trinta anos de vida ativa, e não um perfil-tipo.

    Sobre o ensino profissional.

    Escrevi que confirma o que os seus números já diziam: 87,8% de conclusão e 83% de emprego à saída.

    Os 87,8% são a taxa de conclusão do ensino secundário num ano letivo, não a proporção de quem entra e termina. Essa é de 70%.

    E a correção devolveu o melhor dado do semestre, que eu não tinha: em 2014/15 esse valor era de 53%. Dezassete pontos de subida em oito anos. O sistema não está bom, está a melhorar, e a segunda afirmação é muito mais forte do que a primeira.

    Sobre a inteligência artificial.

    Escrevi que 80% das empresas planeiam integrar agentes de inteligência artificial em um a três anos.

    Não confirmámos a origem desse valor e ele não volta a ser usado. Em substituição, há um horizonte oficial e verificável: o Programa da Década Digital fixa, para 2030, a meta de 75% das empresas europeias a utilizar computação em nuvem, análise de dados ou inteligência artificial. Portugal está nos 11,54% em inteligência artificial.

    Os dois que ficam de pé

    28%
    Empresas portuguesas que identificam a falta de competências em IA como principal entrave à implementação
    83%
    Recém-diplomados do ensino e formação profissional empregados entre um e três anos após a conclusão
    2 / 7
    Indicadores do balanço original que resistiram inteiros à verificação

    28% das empresas portuguesas identificam a falta de competências em inteligência artificial como o principal entrave à implementação desta tecnologia. Confirmado no Employment Outlook Survey do ManpowerGroup, segundo trimestre de 2025. Uma precisão: a fonte diz entrave à implementação e eu escrevi entrave ao crescimento, que é outra afirmação.

    83% dos recém-diplomados do ensino e formação profissional, entre os 20 e os 34 anos, estão empregados entre um e três anos após a conclusão, contra 79,7% de média europeia. Confirmado no Monitor de Educação e Formação de 2023.

    Dois em sete. É o resultado de verificar seis meses de trabalho, e é o número desta edição que menos gosto de escrever.

    O que aprendi com isto

    Os cinco números que caíram tinham uma coisa em comum, e demorei a vê-la.

    A propriedade comum
    Todos eram favoráveis à tese que sustentavam.

    Os dezoito pontos davam título a um mês inteiro. Os 98% provavam uma transformação. Os 87,8% diziam oito em cada dez onde a fonte certa diz sete. Os 80% davam urgência. E os quarenta anos davam um retrato humano a uma tabela.

    Nenhum foi inventado. Todos foram escolhidos, e escolhi-os eu.

    Quando um indicador contraria o que queremos dizer, procuramos outro e verificamos os dois. Quando o confirma, seguimos em frente. Não é desonestidade, é o funcionamento normal da atenção, e não há sistema de verificação que sobreviva a isso enquanto depender de quem escreve para decidir o que merece confirmação.

    É por isso que passa a haver uma regra nova nesta casa: o portão de conformidade é aplicado por quem não escreveu a peça. Quem verifica recebe a lista de valores e fontes sem o texto, abre cada fonte na origem, e confirma três coisas: o valor, o universo a que se refere, e se a afirmação decorre do valor. Só depois lê o artigo. Uma peça sem nome de quem verificou não publica.

    Custa cerca de uma hora por peça. Custou-me sete correções para chegar aqui.

    As três frentes que anunciei para setembro

    Prometi três, e devo-lhes o ponto de situação.

    Uma série editorial sobre microcredenciais e formação modular. Mantém-se e ganhou base. O enquadramento europeu está fixado desde a recomendação do Conselho de junho de 2022, que define o que uma microcredencial tem de conter para ser reconhecível fora de quem a emite. A maior parte da oferta formativa portuguesa não cumpre esses requisitos, e a diferença não está no conteúdo nem na duração: está no que fica registado.
    Programas com componente de inteligência artificial aplicada. Mantém-se, e o desenho mudou por efeito do que verificámos. Os três usos dominantes de inteligência artificial nas empresas portuguesas são análise de linguagem escrita, geração de conteúdos e produção de texto ou código. Todos produzem um resultado cuja qualidade depende do julgamento de quem o avalia. Formar em inteligência artificial numa pequena ou média empresa não é sobretudo formação técnica: é formação em critério de aceitação, e é isso que vamos desenhar.
    O Observatório como referência metodológica. Esta é a que mais mudou. Escrevi que a queria consolidar como referência para quem trabalha com indicadores de formação. Depois descobri que ela própria publicava indicadores por confirmar.

    Não a abandono. Reformulo-a. A referência metodológica que faz falta em Portugal não é uma lista de números: é a explicação de que quase todos os conceitos relevantes da estatística educativa e da formação existem em mais do que um indicador oficial, com valores muito diferentes, e de como se escolhe entre eles. É isso que passa a ser o trabalho.

    O que muda a partir de setembro

    Três coisas, e são de processo.

    A produção começa aqui. A partir de setembro, cada peça nasce neste domínio e a publicação de rede deriva dela. Não é uma questão de preferência de canal: é que a peça do site passa pelo portão de conformidade antes de existir, e a peça de rede herda dados já verificados. A ordem inversa, que praticámos até agora, produzia o que este texto acaba de descrever.
    Todas as publicações passam por portão. Incluindo as que não têm artigo correspondente, como as peças de oferta e as de efeméride. São perto de um terço do que publicámos e, até hoje, não passavam por verificação nenhuma.
    Cada número traz consigo a base. Fonte, ano, data de consulta, e a verificação de que a afirmação decorre do conjunto de dados e não apenas do valor citado. É o ponto que apanhou dois dos cinco erros deste balanço.

    O que fica dito

    O primeiro semestre de 2026 mostrou-me duas coisas sobre o setor e uma sobre esta casa.

    Sobre o setor: o problema português não é de oferta formativa, que nunca foi tão abundante nem tão financiada, e não é de recetividade das pessoas, que adotam tecnologia acima da média europeia. É de desenho e de contexto, e resolve-se com decisões que custam pouco e que quase ninguém toma.

    Sobre esta casa: publicámos durante seis meses com pretensão de rigor e sem o processo que o rigor exige. Corrigimos, escrevemos o que encontrámos, e instalámos a regra que faltava. Não é uma história de que me orgulhe, mas é preferível a qualquer versão em que não a contasse.

    Fica publicado, com este texto, o arquivo completo do primeiro semestre. São onze artigos, cerca de vinte e sete mil palavras, e cada um traz a fonte de cada número, o ano do estudo, a base de medição usada e uma secção sobre o que os dados não permitem concluir.

    Quem chegar aqui a partir de uma pesquisa sobre participação de adultos em formação, sobre adoção de inteligência artificial nas empresas, sobre demografia empresarial ou sobre ensino profissional encontra o assunto tratado por inteiro, com o que sabemos e com o que não sabemos separados. É a única coisa que uma entidade formadora pode oferecer que não seja mais um catálogo.

    Este texto fecha o arquivo. A partir de setembro, cada peça publica no próprio dia, com a verificação feita antes e por outra pessoa.

    A quem nos lê há seis meses, o meu agradecimento, e o pedido de que continuem a ler com desconfiança. A quem chega agora, boas-vindas a bordo.

    João Dias Direção Criativa, Advance Station

    Fontes

    Boston Consulting Group, Consumer Sentiment Survey 2025, edição Portugal. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    ManpowerGroup, Employment Outlook Survey, segundo trimestre de 2025, resultados para Portugal. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, Cursos profissionais, situação três anos após ingresso, edição de 2025. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Comissão Europeia, Monitor de Educação e Formação 2023, relatório sobre Portugal, e Programa da Década Digital para 2030. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Eurostat, Adult learning statistics, série trng_aes_100, e Use of artificial intelligence in enterprises, série isoc_eb_ai. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Universidade Aberta, dados institucionais sobre estudantes em cursos conferentes e não conferentes de grau, 2018-2019 a 2023-2024. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Nota de origem

    Publicado originalmente no LinkedIn a 15 de julho de 2026, em formato reduzido. Esta é a versão integral e permanente, com as fontes completas. Cinco dos sete indicadores do texto original foram substituídos ou retirados por não terem resistido à verificação na fonte, e a substituição está descrita no corpo do artigo. Não se retrodata.

  • O ensino profissional não é plano B

    A frase erra sobre o resultado e acerta sobre o percurso. Convém dizer as duas coisas, porque quem tem quinze anos e decide precisa das duas.

    Há uma frase que circula na conversa pública portuguesa, dita em voz baixa nas reuniões de pais e em voz alta nos jantares: o ensino profissional é para quem não consegue seguir.

    Escrevemos em julho que os números a desfazem. Desfazem uma parte e confirmam outra, e a parte que confirmam é aquela sobre a qual há mais a fazer.

    O que a frase erra

    Sobre o resultado, a frase não tem sustentação.

    70%
    Conclusão dos cursos profissionais no tempo esperado
    53%
    O mesmo indicador em 2014/15
    83%
    Empregabilidade dos recém-diplomados do EFP

    A taxa de conclusão dos cursos profissionais no tempo esperado, três anos após o ingresso, é de 70%, e era de 53% em 2014/15. Dezassete pontos de subida em oito anos, num indicador que não se move com facilidade.

    E a empregabilidade dos recém-diplomados do ensino e formação profissional, entre os 20 e os 34 anos, é de 83% entre um e três anos após a conclusão, contra 79,7% de média da União Europeia. Portugal está entre os Estados-membros com melhor desempenho neste indicador.

    Quem termina um curso profissional pertence a uma coorte que melhorou substancialmente numa década e que se emprega acima da média europeia. A frase, na parte em que sugere um resultado inferior, está errada e é verificável que está.

    Há ainda um recorte que merece registo. As raparigas concluem no tempo esperado em 74% dos casos, contra 67% dos rapazes. E a área de ingresso mais frequente é a dos Serviços, com 30% dos alunos, seguida da Engenharia, Indústrias Transformadoras e Construção, com 17%, e das Ciências, Matemática e Informática, com 16%. Não é um percurso residual nem marginal: é onde está uma parte substancial de uma geração.

    O que a frase acerta

    Sobre o percurso, a frase toca num facto que os números confirmam sem margem.

    22,4%
    Cursos profissionais 28 582 concluíram em 2022. Um ano depois, 6 403 estavam inscritos no ensino superior. Percentagem resultante de cálculo próprio sobre estes dois valores absolutos.
    85%
    Cursos científico-humanísticos Cerca de 56 mil concluíram e mais de 42 mil estavam no ensino superior no ano seguinte.

    Segundo a DGEEC, 28 582 alunos concluíram um curso profissional do ensino secundário no verão de 2022. Um ano depois, 6 403 estavam inscritos numa instituição de ensino superior.

    Pouco mais de um em cada cinco prossegue estudos.

    No mesmo ano, entre os cursos científico-humanísticos, cerca de 56 mil alunos terminaram o secundário e mais de 42 mil, ou seja 85%, estavam a frequentar o ensino superior no ano seguinte.

    A distância é enorme e não é uma questão de leitura. Um percurso conduz ao ensino superior quase por defeito, o outro quase por exceção.

    Quem diz que o ensino profissional é uma via que fecha portas está a descrever mal a causa e a acertar no efeito. E quem responde citando apenas as taxas de conclusão e de empregabilidade está a responder a uma pergunta que não foi feita.

    Três números para a mesma coisa

    Antes de continuar, uma nota que já é hábito desta série e que aqui se justifica particularmente.

    Os dois valores absolutos acima, 28 582 e 6 403, foram publicados pela DGEEC na mesma tabela. A divisão de um pelo outro dá 22,4%.

    13%
    Valor publicado por vários órgãos de comunicação
    24%
    Outro valor publicado a partir da mesma fonte
    22,4%
    Divisão direta de 6 403 por 28 582

    Na semana em que esses dados foram divulgados, a imprensa portuguesa publicou dois valores diferentes para a mesma coisa. Vários órgãos escreveram que apenas 13% dos alunos de cursos profissionais seguem para o superior. Outro escreveu 24%. Ambos citaram a mesma publicação e reproduziram os mesmos dois números absolutos.

    Não sabemos qual das taxas a DGEEC publica como sua, porque isso depende do denominador que usa: quem concluiu o curso, quem terminou o secundário, ou quem se inscreveu no concurso. Sabemos que os dois valores absolutos são estes e que a divisão direta dá 22,4%, e apresentamos esse cálculo como cálculo próprio.

    Registamos isto sem ironia. O mesmo mecanismo que produziu 13% e 24% na imprensa produziu, nesta casa, sete valores que tivemos de corrigir. É o que acontece quando se cita um resumo em vez de abrir a fonte.

    Por que a passagem não acontece

    A explicação preguiçosa é a capacidade dos alunos. A DGEEC ofereceu, num estudo anterior sobre esta mesma transição, uma explicação bastante mais desconfortável: o concurso nacional de acesso ao ensino superior utiliza critérios de seleção adaptados à formação de quem frequenta a via científico-humanística, e não à de quem frequenta a via profissional.

    Por outras palavras, um aluno de um curso profissional é avaliado, no acesso, sobre matérias que não fizeram parte do seu percurso.

    Vale a pena reter o que esta explicação implica e o que não implica. Não implica que os alunos da via profissional saibam menos: implica que sabem outras coisas, e que o instrumento de seleção não as pergunta. Um exame de ingresso construído sobre um programa que a pessoa não frequentou mede a distância a esse programa, não a capacidade de fazer um curso superior.

    O que mede realmente
    Os 22,4% não medem quantos podiam prosseguir. Medem quantos prosseguiram com o desenho de acesso que existe.

    O reconhecimento disto está formalizado. O Decreto-Lei n.º 11/2020, de 2 de abril, criou um concurso especial de acesso ao ensino superior para quem concluiu o secundário por vias profissionalizantes, precisamente porque o concurso geral não servia. A porta existe e foi preciso abrir outra ao lado.

    Há ainda um dado do mesmo estudo que merece ser lido devagar. A DGEEC concluiu que o tipo de diploma do secundário explica o prosseguimento de estudos mais do que os fatores socioeconómicos. Mas entre os alunos de cursos profissionais cujas mães têm ensino superior, a percentagem dos que não prosseguem cai quase trinta pontos, de 82% para 53%.

    As duas afirmações convivem e ambas são verdadeiras. O diploma pesa mais do que a origem social, e a origem social continua a pesar trinta pontos.

    Há um teste simples para saber se a legislação de 2020 produziu efeito, e é um teste que ainda não podemos fazer com dados públicos: comparar a taxa de prosseguimento das coortes anteriores e posteriores ao concurso especial. Os dados que existem referem-se a quem concluiu em 2022, dois anos depois do decreto-lei, e não distinguem quem entrou pelo concurso geral de quem entrou pelo especial.

    Sem essa distinção, é impossível saber se a porta nova está a ser usada, se é conhecida, ou se existe apenas no papel. É a lacuna mais consequente desta matéria e resolve-se com uma tabela que já deve existir.

    Quando se prossegue, prossegue-se por outro caminho

    Quem, dos cursos profissionais, entra no ensino superior, entra maioritariamente por uma porta diferente.

    Enquanto 91% dos alunos dos cursos científico-humanísticos prosseguem para um curso que confere grau, a maior parte dos alunos dos cursos profissionais segue para Cursos Técnicos Superiores Profissionais, que não conferem grau académico.

    CTeSP → Licenciatura
    Segundo a DGEEC, 48% de quem conclui um CTeSP prossegue para uma licenciatura.

    O percurso existe, é usado por quase metade de quem o inicia, e é invisível na conversa pública. Curso profissional, CTeSP, licenciatura é um caminho real, mais longo e mais gradual do que o do concurso nacional, e ninguém o desenha como caminho: chega-se lá por acumulação de decisões separadas.

    Quem aconselha um jovem de quinze anos a evitar a via profissional para não fechar a porta do superior está a comparar um percurso de três anos com um percurso de seis. São ambos possíveis e a diferença é de ritmo, não de destino.

    Concluir e inserir são resultados distintos

    Há uma segunda distinção que se perde nesta conversa e que vale por si.

    Terminar um curso e entrar no mercado de trabalho são dois resultados diferentes. Um programa que mede apenas o primeiro declara vitória a meio.

    70%
    Concluem no tempo esperado
    83%
    Diplomados empregados um a três anos depois
    ≈58%
    Cálculo ilustrativo do percurso combinado

    No ensino profissional isto é particularmente visível, porque os dois indicadores existem separados: 70% concluem no tempo esperado e 83% dos que se diplomam estão empregados um a três anos depois. Multiplicando as duas proporções, e o cálculo é ilustrativo e não rigoroso porque as coortes não coincidem, chega-se a algo próximo de 58% de quem entra a concluir no prazo e a estar empregado três anos depois.

    É esse o número que a família procura e nenhuma estatística nacional o publica.

    O intervalo entre concluir e inserir é onde a política tem margem e onde o desenho de um percurso decide mais. E a mesma lógica aplica-se a qualquer programa formativo, não apenas ao ensino secundário: quem desenha para a conclusão desenha para o certificado, quem desenha para a inserção desenha para o que vem depois do certificado.

    O que muda no desenho

    Três consequências práticas, por ordem de quem as pode executar.

    Para uma escola profissional. O prosseguimento de estudos deixa de ser um assunto do último período do último ano e passa a ser preparado desde o início. Isso significa informação sobre o concurso especial, sobre CTeSP e sobre o percurso em duas etapas, dada às famílias no momento da escolha e não no momento da saída.
    Para uma entidade formadora. A área conta, e conta muito. Em dezanove das vinte e seis áreas com mais de cem alunos a conclusão está em 70% ou acima, com média de 73%, e a Saúde chega aos 79% entre os cursos com mais de mil alunos. Onde a saída profissional é clara, o percurso conclui-se. Onde não é, não se conclui.
    Para quem contrata. O preconceito com que o mercado lê estes percursos não tem sustentação nos indicadores de resultado, e tem custo: exclui de partida uma coorte que se emprega acima da média europeia e que melhorou dezassete pontos numa década.

    O que os dados não permitem concluir

    Os 22,4% são cálculo próprio. A taxa resulta de um cálculo sobre dois valores absolutos publicados pela DGEEC. Não é a taxa que a DGEEC publica, porque não confirmámos qual o denominador que usa, e a imprensa publicou dois valores diferentes a partir dos mesmos números.
    O prosseguimento é medido apenas no ano seguinte. Não capta quem entra no ensino superior dois, cinco ou quinze anos depois, e essa é precisamente a população que a formação de adultos serve.
    As populações das duas vias não são equivalentes. Diferem na composição socioeconómica, e a própria DGEEC identifica essa diferença ao mesmo tempo que afirma que o tipo de diploma pesa mais.
    Conclusão e empregabilidade não usam as mesmas coortes. Os dois indicadores incidem sobre coortes e janelas temporais distintas. A multiplicação apresentada é ilustrativa e não substitui um indicador de percurso, que não existe.

    O que isto significa, conforme quem lê

    Para quem desenha percursos. A porta do superior existe e é usada por menos de um quarto. Não é um problema de capacidade, é um problema de desenho de acesso, parcialmente reconhecido em legislação e ainda não resolvido em prática.
    Para uma família a decidir. A pergunta certa não é se a via profissional fecha o superior, porque não fecha. É quanto tempo demora a chegar lá por essa via, e a resposta honesta é mais tempo, com pelo menos duas etapas.
    Para quem define política. Falta um indicador que ligue o ingresso ao emprego e ao prosseguimento, num só número e por território. Existem os troços, falta o percurso, e é o percurso que a decisão de uma família precisa de ver.
    Leitura da casa

    A leitura da casa

    O ensino profissional não é plano B no resultado e é, na prática, um plano mais longo no percurso académico. As duas coisas são verdade e defender apenas a primeira é fazer campanha, não é informar.

    O que nos parece defensável dizer, com a base à vista, é isto: quem entra num curso profissional tem hoje uma probabilidade de concluir dezassete pontos maior do que tinha há oito anos, uma probabilidade de estar empregado acima da média europeia, e uma probabilidade de chegar ao ensino superior que depende menos da sua capacidade do que do desenho do concurso de acesso.

    Duas dessas três coisas melhoraram. A terceira tem legislação desde 2020 e ainda não tem resultado.

    Fontes

    Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, Cursos profissionais, situação três anos após ingresso, edição de 2025, com as taxas de conclusão no tempo esperado, a série desde 2014/15 e a desagregação por sexo, região e área de estudo. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, Transição entre o ensino secundário e o ensino superior 2021/22 e 2022/23, com os valores absolutos de conclusão e de inscrição no ensino superior. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Comissão Europeia, Monitor de Educação e Formação 2023, relatório sobre Portugal, com a taxa de empregabilidade dos recém-diplomados do ensino e formação profissional. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Decreto-Lei n.º 11/2020, de 2 de abril, que cria o concurso especial de acesso ao ensino superior para titulares de cursos de dupla certificação do ensino secundário. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Nota de origem

    Este artigo reúne e desenvolve duas publicações da Advance Station no LinkedIn, de 14 e 21 de julho de 2026. O texto foi reescrito por inteiro, um dos indicadores foi substituído por não medir o que se afirmava, e o argumento foi alargado ao prosseguimento de estudos, que as publicações originais não tratavam.

    • 14 de julho de 2026 · Lente de Descoberta, sobre o ensino profissional não ser plano B.
    • 21 de julho de 2026 · Lente de Descoberta, sobre conclusão sem inserção ser só metade do percurso.
  • O sistema formativo que funciona em silêncio

    Publicámos em julho que 87,8% de quem entra num curso profissional chega ao fim. O número existe e mede outra coisa. O que responde à pergunta é 70%, e a boa notícia verdadeira não é o nível: é a trajetória.

    Há uma tese que continuamos a defender: o sistema formativo português produz resultados que a conversa pública não regista, e publicá-los não é autocelebração, é inventário operacional para quem desenha programas, contrata pessoas ou define política.

    A tese mantém-se. Os números com que a sustentámos em julho não se mantêm todos, e o mais importante deles estava a medir uma coisa diferente daquela que dissemos.

    O quadro, antes da leitura

    Indicador Valor Ano Fonte
    Taxa de conclusão do ensino secundário em cursos profissionais 87,8% 2022/23 DGEEC
    Conclusão do curso profissional no tempo esperado, três anos após o ingresso 70% 2022/23 DGEEC
    O mesmo indicador em 2014/15 53% 2014/15 DGEEC
    Conclusão no tempo esperado nos cursos científico-humanísticos 77% 2022/23 DGEEC
    Empregabilidade de recém-diplomados do EFP, 20 aos 34 anos 83% 2022 Education and Training Monitor
    Média da União Europeia no mesmo indicador 79,7% 2022 Education and Training Monitor
    Alunos do secundário inscritos em programas de EFP 40% 2021 Education and Training Monitor

    As duas primeiras linhas parecem medir a mesma coisa e não medem.

    Quantos são, afinal

    Antes de continuar, uma terceira medição que pede o mesmo cuidado das anteriores, porque circulam três valores para a dimensão do ensino profissional em Portugal.

    40%
    Alunos do secundário em programas de educação e formação profissional
    34%
    Alunos na via de dupla certificação
    28,3%
    Alunos inscritos especificamente em cursos profissionais

    O Monitor de Educação e Formação refere que, em 2021, 40% dos alunos do ensino secundário estavam inscritos em programas de educação e formação profissional.

    A DGEEC, para o ano letivo de 2022/23, reporta que dos 394 964 alunos matriculados no ensino secundário, 134 402 optaram pela via de dupla certificação, o que corresponde a 34%.

    E, dentro desses, 111 798 estavam inscritos em cursos profissionais propriamente ditos, o que dá 28,3% do total do secundário.

    Quarenta, trinta e quatro, vinte e oito. Nenhum está errado. A categoria europeia de educação e formação profissional é mais larga do que a categoria nacional de dupla certificação, que por sua vez é mais larga do que os cursos profissionais, porque inclui também cursos de aprendizagem e cursos de educação e formação de jovens.

    Quem quiser dizer que quatro em cada dez jovens portugueses estão no ensino profissional está a usar a definição mais generosa das três. Quem quiser dizer que são menos de três em cada dez está a usar a mais estreita. Ambos podem citar fonte oficial.

    É a terceira vez que este problema aparece neste artigo, depois das duas taxas de conclusão. Não é coincidência: é a característica dominante da estatística educativa portuguesa, e quem trabalha com ela sem verificar a definição vai errar, mais cedo ou mais tarde, e vai errar convencido.

    O que 87,8% mede, exatamente

    A DGEEC publica, no relatório Educação em Números, a taxa de conclusão do ensino secundário por oferta de educação e formação. Para os cursos profissionais, no ano letivo de 2022/23, essa taxa foi de 87,8%, mais 0,7 pontos do que no ano anterior. Para os cursos tecnológicos e com planos próprios foi de 95,2%.

    É um indicador anual. Mede, entre quem estava em condições de concluir naquele ano letivo, quantos concluíram.

    Não mede quantos, de cem pessoas que entraram num curso profissional, chegaram ao fim. Essa é outra pergunta, com outro indicador, e o valor é bastante diferente.

    A correção
    Escrevemos em julho que «mais de oito em cada dez pessoas que entraram chegaram ao fim». Não foi o que a fonte disse. Foi o que quisemos que dissesse.

    O número que responde à pergunta

    A DGEEC publica também, num relatório próprio, a situação dos alunos três anos após o ingresso em cursos profissionais. É o indicador que responde diretamente à pergunta de quem entra e de quem termina.

    Conclusão no tempo esperado
    Em 2022/23, a taxa de conclusão dos cursos profissionais no tempo esperado, três anos após o ingresso, foi de 70%.

    Sete em cada dez, não mais de oito. A diferença entre os dois valores é de quase dezoito pontos, e não é uma discrepância estatística: são duas medições de coisas diferentes, ambas corretas, e nós escolhemos a mais favorável sem saber que estávamos a escolher.

    A boa notícia verdadeira não é o nível, é a trajetória

    E é aqui que o artigo muda de tom, porque o número correto conta uma história melhor do que o errado.

    53%
    2014/15 Conclusão dos cursos profissionais no tempo esperado.
    70%
    2022/23 Conclusão dos cursos profissionais no tempo esperado.
    Trajetória
    Dezassete pontos percentuais em oito anos.

    Isso é uma transformação de sistema. Não é uma flutuação, não é um ano bom, não é efeito de composição. É uma subida sustentada, ao longo de quase uma década, num indicador difícil de mover.

    E a DGEEC identifica uma associação que merece registo: a taxa é mais elevada nas regiões Norte, Centro e Alentejo, que foram apoiadas pelo Programa Operacional Capital Humano no período de programação anterior e são agora apoiadas pelo PESSOAS 2030. A associação é declarada pela fonte e não estabelece causalidade, mas é o tipo de coincidência que merece investigação e raramente a recebe.

    Dizer que o sistema funciona porque está nos 87,8% era falso e era pouco interessante. Dizer que subiu dezassete pontos em oito anos é verdadeiro e é muito mais forte, porque um nível descreve um estado e uma trajetória descreve uma capacidade.

    A comparação com os científico-humanísticos

    No mesmo ano, a taxa de conclusão no tempo esperado dos cursos científico-humanísticos foi de 77%, sete pontos acima dos cursos profissionais. E subiu de 55% em 2014/15, o que dá vinte e dois pontos de progressão, cinco a mais do que a via profissional.

    A leitura fácil seria concluir que a via profissional continua atrás e progride mais devagar. A própria DGEEC oferece a leitura difícil, e é a correta.

    A diferença explica-se em larga medida pela composição socioeconómica distinta dos alunos de cada via e, nesse contexto, pela entrada precoce dos alunos dos cursos profissionais no mercado de trabalho, antes de concluírem o percurso formativo.

    Convém deter-se nisto, porque inverte o sinal do indicador. Uma parte da não conclusão no tempo esperado nos cursos profissionais não é insucesso: é alguém que arranjou trabalho antes de terminar. Do ponto de vista da estatística de conclusão, é uma falha. Do ponto de vista da pessoa, pode ter sido a decisão certa.

    Não temos base para quantificar que parte da não conclusão é isto e que parte é abandono. Ninguém tem, porque o indicador não distingue. Mas quem usar os 70% para argumentar que a via profissional é menos eficaz está a usar um número que contém, dentro de si, exatamente o resultado que a via profissional promete.

    Há uma consequência de política que decorre daqui e que quase nunca se ouve. Se parte da não conclusão é entrada precoce no mercado, então um sistema que quisesse subir a taxa de conclusão teria duas vias: melhorar o acompanhamento de quem está em risco de desistir, que é a via difícil, ou dificultar a saída de quem tem oportunidade de emprego, que é a via absurda.

    Como o indicador não distingue os dois grupos, e como as metas se expressam em taxa de conclusão, existe um incentivo silencioso para tratar os dois da mesma maneira. Um sistema que fosse honesto com esta ambiguidade mediria separadamente a não conclusão por abandono e a não conclusão por entrada no mercado, e trataria a segunda como resultado parcial e não como falha.

    Isso exigiria cruzar dados de educação com dados de segurança social, o que é tecnicamente trivial e administrativamente raro.

    A média nacional esconde o país

    Há um recorte nos dados da DGEEC que devia mudar a conversa e não muda, porque quase nunca é citado.

    A taxa de conclusão no tempo esperado varia de forma extrema pelo território. Entre as vinte e quatro comunidades intermunicipais de Portugal continental, três ficam abaixo dos 70%:

    60%
    Península de Setúbal
    59%
    Grande Lisboa
    56%
    Algarve

    Ao nível municipal a dispersão é ainda maior. Em quatro municípios, todos os alunos concluíram no tempo esperado. Em nove, menos de metade concluiu, com o valor mais baixo a situar-se nos 14%.

    O problema da média
    Setenta por cento é uma média que quase não descreve nenhum sítio concreto. Existe um país onde nove em cada dez terminam e um país onde termina um em cada sete.

    Há também variação por área de formação. Em dezanove das vinte e seis áreas com mais de cem alunos, a taxa é igual ou superior a 70%, com média de 73%. Entre os cursos com mais de mil alunos, a área da Saúde destaca-se com 79%.

    A área importa mais do que a média sugere

    A dispersão não é só territorial. É também por área de formação, e essa é mais acionável porque depende de decisões de desenho e não de geografia.

    Em dezanove das vinte e seis áreas de educação e formação com mais de cem alunos, a taxa de conclusão no tempo esperado é igual ou superior a 70%, com uma média de 73%. Entre os cursos com mais de mil alunos, a área da Saúde destaca-se com 79%.

    Sete áreas ficam abaixo dos 70%, e o facto de a DGEEC as identificar significa que é possível saber quais e trabalhar sobre elas.

    Vale a pena pensar no que distingue uma área a 79% de uma a menos de 70%, porque a explicação mais provável não é a dificuldade do conteúdo. É provavelmente uma combinação de três coisas:

    Clareza da saída profissional. Torna visível para que serve o esforço.
    Contexto de prática real. Formação em contexto de trabalho que funcione durante o percurso.
    Densidade da rede de empregadores. A existência de tecido produtivo da área no território onde o curso existe.

    Nenhuma das três se resolve com melhores materiais pedagógicos. Todas se resolvem com trabalho de articulação entre escola e tecido produtivo local, que é lento, não é visível e não aparece em nenhum referencial.

    A empregabilidade, com a precisão que exige

    O segundo indicador do ciclo de julho resiste à verificação e ganha precisão.

    83%
    Portugal Recém-diplomados do ensino e formação profissional empregados entre um e três anos após a conclusão.
    79,7%
    União Europeia Média no mesmo indicador.

    Segundo o Monitor de Educação e Formação de 2023 da Comissão Europeia, 83% dos recém-diplomados do ensino e formação profissional, entre os 20 e os 34 anos, conseguiram emprego entre um e três anos após a conclusão da formação, em 2022. A média da União Europeia é de 79,7%.

    Portugal está acima, e está entre os Estados-membros com melhor desempenho neste indicador. O relatório regista ainda que, em 2021, 40% dos alunos do ensino secundário estavam inscritos em programas de educação e formação profissional.

    Três precisões que a nossa publicação de julho não fez e que mudam o alcance da afirmação.

    O universo. É de recém-diplomados entre os 20 e os 34 anos, não do conjunto dos diplomados.
    A janela. É de um a três anos após a conclusão, não imediata.
    O que o indicador mede. Estar empregado, não estar empregado na área, nem com vínculo estável, nem com remuneração acima de um limiar.

    Nada disto invalida o resultado, que é bom. Delimita-o, e a delimitação importa a quem o usa para decidir.

    Vale ainda o contraste com as metas que o sistema se impôs: o PESSOAS 2030 estabelece uma taxa de empregabilidade ou prosseguimento de estudos de 65% seis meses após a conclusão, para cursos profissionais e de aprendizagem. É um limiar mais baixo, numa janela mais curta e com um critério mais largo. Duas metas, dois instrumentos, e nenhuma dispensa a outra.

    O que liga a conclusão à inserção

    Postos lado a lado, os dois indicadores desenham uma sequência com uma perda no meio.

    70%
    Concluem no tempo esperado
    83%
    Empregados um a três anos depois
    ≈58%
    Cálculo ilustrativo para o percurso completo

    Setenta por cento concluem no tempo esperado. Desses, oitenta e três por cento estão empregados entre um e três anos depois. Multiplicando as duas proporções, chega-se a algo próximo de 58% de quem entra num curso profissional a concluir no tempo esperado e a estar empregado três anos depois.

    Esta multiplicação é ilustrativa e não é rigorosa, porque os dois indicadores incidem sobre coortes e universos que não coincidem exatamente. Serve para mostrar uma coisa: quando se olha para o percurso inteiro em vez de para cada troço, o resultado é bastante mais modesto do que qualquer dos dois números isolados sugere.

    E é assim que quem tem quinze anos, ou o pai de quem tem quinze anos, olha para a decisão. Não olha para a taxa de conclusão nem para a taxa de empregabilidade. Olha para a pergunta inteira: se entrar aqui, onde é que estou daqui a quatro anos?

    Nenhuma estatística nacional responde a essa pergunta de forma direta. Deviam.

    Documentar o que resulta é exigência de outro tipo

    Escrevemos em julho, e mantemos, que olhar para o que funciona não é falta de exigência. É exigência de outro tipo: a que pede que se nomeie sem inflar e que se construa a partir do que está provado.

    Esta peça é a prova de que essa exigência é real. Ao verificar os nossos próprios números, o que estava provado não coincidia com o que tínhamos publicado, e o inventário ficou mais pequeno e mais sólido.

    Quase tudo o que se publica sobre formação em Portugal é crítica, e há mérito nessa vigilância. Mas ela tem um custo discreto: quem trabalha no terreno raramente se vê reconhecido nos indicadores que produz, e quem desenha programas novos parte quase sempre do zero, sem o catálogo do que já resultou.

    A distinção
    O contrário da crítica não é o elogio. É o registo, e o registo obriga a números certos.

    Inventário não é balanço

    Reconhecer o que funciona não é um ponto de chegada. É a linha de partida para o que falta fazer, e a distinção entre as duas coisas é operacional.

    Balanço Fecha um período e destina-se a quem presta contas. Serve para julgar o que passou.
    Inventário Abre um período e destina-se a quem vai construir. Serve para saber com que material se conta.

    O que este artigo entrega é um inventário, e o material é este: uma taxa de conclusão que subiu dezassete pontos em oito anos, uma empregabilidade acima da média europeia num universo bem delimitado, uma dispersão territorial enorme que nenhuma média capta, e uma parte da não conclusão que pode ser sucesso disfarçado de falha.

    Com este material constrói-se. Com os 87,8% mal lidos não se construía nada, porque descrevia um sistema que já não tinha problema nenhum.

    O que os dados não permitem concluir

    As duas taxas de conclusão não se comparam. As taxas de conclusão anual e de conclusão no tempo esperado medem coisas diferentes. Qualquer leitura que passe de uma para a outra sem o declarar produz um erro de quase dezoito pontos, que foi exatamente o nosso.
    Não conclusão não é sinónimo de abandono. Inclui quem entrou no mercado de trabalho antes de terminar, e o indicador não separa os casos.
    Os 83% têm um universo delimitado. A empregabilidade mede a situação de emprego de recém-diplomados entre os 20 e os 34 anos numa janela de um a três anos. Não mede adequação ao percurso, qualidade do vínculo nem nível de remuneração.
    Associação não é causalidade. A associação entre as regiões apoiadas por fundos e as taxas de conclusão mais altas é registada pela fonte como associação. Não está estabelecida como relação causal e o artigo não a trata como tal.

    O que isto significa, conforme quem lê

    Para quem desenha programas. A dispersão territorial é o dado mais acionável de todos. Um programa desenhado sobre a média nacional serve mal um território a 56% e é desnecessário num a 100%. A unidade de desenho relevante não é o país, é a região.
    Para quem contrata. Quem concluiu um curso profissional no tempo esperado pertence a uma coorte cuja taxa de conclusão subiu dezassete pontos em oito anos e cuja empregabilidade está acima da média europeia. O preconceito com que o mercado lê estes percursos não tem sustentação nos indicadores.
    Para quem define política. Falta um indicador que ligue o ingresso à situação profissional quatro anos depois, num só número e por território. Existem os dois troços e não existe o percurso, e é o percurso que a família de quem tem quinze anos precisa de ver.
    Leitura da casa

    A leitura da casa

    O sistema formativo português melhorou de forma substancial e mensurável na última década, e quase ninguém o registou. Isso continua a ser verdade depois de corrigirmos os nossos números, e é a razão de ser desta peça.

    O que mudou é a nossa disposição para usar o número mais favorável. Escolhemos, em julho, o indicador que dizia oito em cada dez em vez do que dizia sete em cada dez, e escolhemo-lo sem má-fé e sem verificação, o que dá no mesmo resultado.

    Fica também uma lição de método que vale para lá desta casa. Quando um indicador confirma aquilo que já queríamos dizer, a probabilidade de o verificarmos é muito menor do que quando o indicador nos contraria. Os números que corrigimos ao longo deste arquivo tinham quase todos uma coisa em comum: eram favoráveis à tese que sustentavam. Nenhum sistema de verificação sobrevive a esse enviesamento se depender de quem escreve para decidir o que merece confirmação.

    A correção custou-nos dezoito pontos percentuais de boa notícia e devolveu-nos dezassete pontos de progresso real ao longo de oito anos. É melhor troca do que parece.

    Fontes

    Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, Educação em Números, Portugal 2024, com as taxas de conclusão do ensino secundário por oferta de educação e formação, ano letivo 2022/23. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, relatório sobre a situação dos alunos três anos após o ingresso em cursos profissionais, edição de 2025, com as taxas de conclusão no tempo esperado, a série desde 2014/15 e a desagregação por comunidade intermunicipal, município e área de educação e formação. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Comissão Europeia, Monitor de Educação e Formação 2023, relatório sobre Portugal, com a taxa de empregabilidade dos recém-diplomados do ensino e formação profissional e a comparação com a média da União Europeia. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    PESSOAS 2030, metas de empregabilidade e prosseguimento de estudos para cursos profissionais e de aprendizagem. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Nota de origem

    Este artigo reúne e desenvolve cinco publicações da Advance Station no LinkedIn, entre 2 e 30 de julho de 2026. O texto foi reescrito por inteiro, um indicador central foi substituído por não medir o que se afirmava, e dois valores das publicações originais não entram por não ter sido possível confirmá-los.

    • 2 de julho de 2026 · Observatório AS, sobre a taxa de conclusão nos cursos profissionais.
    • 3 de julho de 2026 · Carta de Navegação, sobre o sistema formativo que funciona em silêncio.
    • 24 de julho de 2026 · Diário de Bordo, sobre documentar o que resulta ser exigência de outro tipo.
    • 28 de julho de 2026 · Lente de Descoberta, sobre reconhecer não ser ponto de chegada.
    • 30 de julho de 2026 · Observatório AS, sobre a empregabilidade no ensino e formação profissional.
  • Entre reconhecer e adotar

    Publicámos em junho que 61% dos portugueses reconhecem a necessidade de formação digital e 43% praticam, e chamámos aos dezoito pontos de diferença a distância entre reconhecer e adotar. Fomos à fonte. A leitura estava errada, e a correta é mais interessante.

    Comecemos pelo que o estudo diz, com precisão.

    O Consumer Sentiment Survey 2025 do Boston Consulting Group foi conduzido em agosto de 2025, sobre uma amostra de mil pessoas em Portugal continental, com quarenta e quatro perguntas. Publicou, entre outros, quatro resultados que interessam a esta conversa.

    67%
    Utilizam IA pelo menos uma vez por mês
    43%
    Utilizam IA pelo menos uma vez por semana
    61%
    Dizem precisar de mais formação para integrar IA no trabalho
    20%
    Receberam formação específica em IA

    Os 61% e os 43% não estão em oposição. Estão, em boa medida, no mesmo grupo.

    O quadro, antes da leitura

    Indicador Valor Variação face a 2024
    Utiliza IA pelo menos uma vez por mês 67% +15 p.p.
    Utiliza IA pelo menos uma vez por semana 43% +12 p.p.
    Utilização mensal entre os 18 e os 34 anos 81% +17 p.p.
    Nunca utilizou IA 17% n.d.
    Experimentou e não voltou a usar 16% -10 p.p.
    Afirma necessitar de mais formação para integrar IA no trabalho 61% n.d.
    Recebeu alguma formação específica em IA 20% +3 p.p.
    Acredita poupar menos de uma hora de trabalho por semana 51% n.d.

    As duas últimas linhas são as que a leitura de junho não tinha e são as que mudam tudo.

    O que estava errado na nossa leitura

    Escrevemos, e publicámos ao longo de um mês inteiro, que existia uma distância de dezoito pontos entre reconhecer a necessidade de formação digital e praticar. Apresentámos os 61% como reconhecimento e os 43% como prática, e construímos sobre essa diferença uma tese sobre adoção.

    Três erros, e vale a pena nomeá-los.

    O primeiro é de objeto. Os 61% não dizem respeito a formação digital em geral. Dizem respeito a formação em inteligência artificial, e à necessidade de mais formação para a integrar no trabalho. É uma pergunta mais estreita e mais concreta do que aquela que reportámos.
    O segundo é de relação. Os dois valores não medem grupos opostos. Quem responde que precisa de mais formação para integrar a inteligência artificial no trabalho é, na sua maioria, quem já a usa. Os 61% estão largamente contidos nos 67% de utilizadores mensais. Não são pessoas que reconhecem e não fazem. São pessoas que fazem e se sentem mal preparadas.
    O terceiro é de aritmética. Subtrair 61 de 43 pressupõe que os dois valores são medidos sobre a mesma dimensão, uma taxa de conversão de reconhecimento em prática. Não são. Um mede frequência de utilização e o outro mede perceção de necessidade formativa. A subtração produz um número que não corresponde a nada.

    Nenhum destes erros foi de má-fé. Todos foram a mesma coisa: um dado recolhido de um resumo, não confirmado na fonte, e usado depois com a confiança que a repetição dá.

    A leitura correta, e é mais forte

    Reordenados, os mesmos números contam uma história diferente e mais útil.

    Sessenta e sete por cento dos portugueses usam inteligência artificial pelo menos uma vez por mês. Sessenta e um por cento dizem que precisam de mais formação para a integrar no trabalho. Vinte por cento receberam alguma.

    A distância que importa
    Não é entre reconhecer e praticar. É entre a necessidade declarada de formação e a formação efetivamente recebida: quarenta e um pontos percentuais.

    Isto não é um problema de convencimento. Ninguém precisa de ser convencido: a adoção já aconteceu e continua a acelerar, com mais quinze pontos num único ano e oitenta e um por cento de utilização mensal entre os mais novos. É um problema de resposta formativa a uma procura que já está formulada, em voz alta, por seis em cada dez pessoas.

    E é uma procura que o mercado não está a servir. Vinte por cento, com um crescimento de três pontos num ano em que a utilização cresceu quinze, é uma resposta que perde terreno todos os anos.

    Quem adota, e quem desistiu

    O estudo desagrega a utilização e as duas pontas da distribuição dizem coisas diferentes.

    Entre os adultos dos 18 aos 34 anos, a utilização mensal chega aos 81%, contra 64% no ano anterior. Dezassete pontos num só ano, numa faixa que já era a mais adiantada. A adoção não está a espalhar-se lentamente pela população: está a concentrar-se e a intensificar-se onde já era alta.

    Na outra ponta, 17% nunca utilizaram qualquer ferramenta de inteligência artificial.

    E entre as duas há um grupo que costuma passar despercebido e que é, para quem trabalha em formação, o mais informativo de todos: 16% experimentaram e não voltaram a usar. Este valor caiu dez pontos face a 2024, o que significa que muitos dos que tinham desistido regressaram.

    Vale a pena separar os dois grupos, porque exigem respostas opostas. Quem nunca usou tem uma barreira de entrada, que pode ser de acesso, de língua, de confiança ou de perceção de relevância. Quem experimentou e desistiu não tem barreira de entrada nenhuma: teve uma primeira experiência que não compensou o esforço.

    O segundo grupo é mais fácil de recuperar e é quase sempre ignorado, porque não aparece nas estatísticas de não utilização e desaparece das listas de contacto. Uma pessoa que tentou uma vez, obteve um resultado medíocre e concluiu que a ferramenta não servia para o seu trabalho não precisa de ser convencida da utilidade da tecnologia. Precisa de ver, uma vez, alguém obter um resultado útil sobre uma tarefa igual à sua.

    Intervenção
    Isso é uma demonstração, não é um curso, e custa vinte minutos.

    O dado que fecha o argumento

    Há um quinto número no mesmo estudo, e é o que devíamos ter usado desde o início.

    51%
    Poupam menos de uma hora Acreditam estar a poupar menos de uma hora de trabalho por semana com inteligência artificial.
    5%
    Poupam mais de cinco horas Consideram poupar mais de cinco horas semanais.

    Duas terças partes do país usa a ferramenta. Metade não sente ganho mensurável. É a definição operacional de adoção sem efeito.

    E encaixa exatamente no que a investigação sobre transferência mostra e que tratámos noutra peça desta série: a aplicação de uma competência nova decai depressa e o seu determinante não é a qualidade da ferramenta nem a motivação de quem a usa, mas as condições em que é aplicada. Uma pessoa que abre um modelo de linguagem, escreve um pedido vago, recebe um resultado medíocre e o descarta está a usar a ferramenta e a não retirar nada dela. Conta para os 67% e conta para os 51%.

    O que separa os resultados
    O que separa quem poupa cinco horas de quem poupa menos de uma não é acesso. É critério, e o critério aprende-se.

    O sentimento, e por que interessa a quem forma

    O mesmo estudo mede a disposição com que os portugueses olham para a inteligência artificial, e o retrato é mais favorável do que a conversa pública sugere.

    54% declaram interesse ou entusiasmo, mais doze pontos do que em 2024. 37% declaram cautela ou preocupação, menos quatro pontos. E 9% mostram-se neutros.

    Sobre o efeito no próprio trabalho, 41% não acreditam que a sua função desapareça nos próximos dez anos, e 48% esperam que a inteligência artificial reduza a carga horária.

    Para quem desenha formação, estes números têm uma consequência prática que muda o guião de abertura de qualquer programa.

    A resistência não é o problema. Uma sessão que dedique a primeira meia hora a desmontar receios está a resolver um problema que a maioria da sala não tem, e a gastar o momento em que a atenção é mais alta. Cinquenta e quatro por cento chegam interessados, quarenta e oito por cento esperam ganhar tempo, e o que querem é ver como.

    Há aqui, aliás, um risco simétrico que vale a pena nomear. Quarenta e oito por cento esperam redução de carga horária e cinquenta e um por cento dizem poupar menos de uma hora por semana. A expectativa está muito à frente da experiência, e uma formação que alimente a expectativa sem entregar a experiência produz desilusão, que é bastante mais difícil de tratar do que a cautela inicial.

    As pessoas adotam mais do que as organizações

    Há um contraste que só aparece quando se cruzam duas fontes independentes, e que é dos achados mais úteis desta série.

    38,7%
    Pessoas em Portugal Utilizam ferramentas de inteligência artificial, acima da média da União Europeia de 32,7%.
    11,54%
    Empresas portuguesas Com dez ou mais pessoas ao serviço utilizam IA, contra 19,95% de média europeia.

    Segundo o Instituto Nacional de Estatística, 38,7% da população em Portugal utiliza ferramentas de inteligência artificial, valor acima da média da União Europeia, que se situa em 32,7%.

    Ao mesmo tempo, e como tratámos noutra peça, apenas 11,54% das empresas portuguesas com dez ou mais pessoas ao serviço utilizam inteligência artificial, contra 19,95% de média europeia. Bem abaixo.

    As pessoas estão à frente da Europa. As organizações estão atrás. É o mesmo país, medido nos dois lados da mesma relação de trabalho, e o resultado inverte-se.

    Isto desmonta por completo a narrativa do atraso cultural português face à tecnologia. Não há atraso cultural: há gente que adota por iniciativa própria, em casa e no telemóvel, e organizações que não incorporam essa adoção no trabalho. A pessoa que usa inteligência artificial ao domingo para organizar as férias é a mesma que não a usa à segunda-feira para preparar uma proposta, e a diferença não está nela.

    Uma nota sobre as três medições

    Neste artigo aparecem três valores para a utilização de inteligência artificial em Portugal, e é preciso dizer por que não se comparam.

    67%
    BCG Pessoas. Autorrelato de utilização pelo menos mensal, amostra de mil pessoas, agosto de 2025.
    38,7%
    INE, via Eurostat Pessoas. Inquérito oficial com definição normalizada e período de referência fixado.
    11,54%
    Eurostat Empresas com dez ou mais pessoas ao serviço. Unidade de análise diferente.

    O Boston Consulting Group reporta 67% de utilização mensal, num inquérito a mil pessoas com autorrelato sobre frequência. O Instituto Nacional de Estatística reporta 38,7% de utilização, num inquérito oficial com definição normalizada e período de referência fixado. E o Eurostat reporta 11,54% de empresas, que é outra unidade de análise por completo, porque mede organizações e não pessoas.

    Nenhum está errado. Cada um responde a uma pergunta diferente. Um estudo de sentimento com autorrelato produz sistematicamente valores mais altos do que um inquérito estatístico oficial, porque a pergunta é mais permissiva e porque quem responde a um inquérito de consumo tende a incluir experiências que não incluiria numa recolha estatística.

    Regra
    Usar uma série de cada vez, dizer qual, e não subtrair valores de fontes diferentes. Foi essa regra que faltou em junho.

    E a escolaridade, outra vez

    Falta cruzar isto com o que a primeira peça desta série estabeleceu, porque o cruzamento é desconfortável.

    Em Portugal, a participação em formação é de 68,3% entre quem tem ensino superior e de 27,3% entre quem tem, no máximo, o terceiro ciclo do básico. E o nível de escolaridade mais comum na população adulta portuguesa continua a ser inferior ao ensino secundário, situação que é rara no conjunto dos países da OCDE.

    Sobreponha-se isto aos 20% que receberam formação em inteligência artificial.

    A formação em inteligência artificial que existe está a ser distribuída, com toda a probabilidade, segundo o mesmo padrão de todas as outras: chega a quem tem escolaridade alta, em funções qualificadas, em organizações com plano de formação. E a ferramenta, essa, chega a toda a gente, porque está no telemóvel e é gratuita.

    O resultado previsível é uma população que usa inteligência artificial de forma quase universal e que a usa com preparação muito desigual. Quem tem mais escolaridade usa-a com critério e poupa tempo. Quem tem menos usa-a sem critério, obtém resultados medíocres, e ou desiste ou, pior, aceita o que a ferramenta devolve sem saber avaliá-lo.

    Este segundo caso é o que ninguém mede e é o que mais preocupa. Uma pessoa que rejeita um resultado mau está a exercer critério. Uma pessoa que o aceita não está, e o efeito disso não aparece em nenhuma estatística de adoção.

    Onde se quebra a passagem

    Se a procura formativa existe e a oferta não a serve, vale a pena perguntar onde é que a passagem se quebra. Três pontos, todos identificáveis.

    Quebra-se na definição do destinatário. A formação em inteligência artificial que existe no mercado dirige-se maioritariamente a quem já tem afinidade técnica. Os 61% que declaram precisar de mais formação não são perfis técnicos: são pessoas que usam a ferramenta no trabalho e não sabem avaliar o que ela produz.
    Quebra-se na definição do conteúdo. O que se ensina é a operação, que se aprende sozinha em horas. O que falta é o critério de aceitação, que não se aprende sozinho e que ninguém escreveu.
    Quebra-se depois da sessão. Uma pessoa que sai de uma formação de dois dias regressa a um posto de trabalho onde ninguém revê o que ela produz com a ferramenta, ninguém definiu o que é aceitável, e ninguém tem tempo alocado para o fazer. A competência que trouxe não tem onde assentar.

    Não basta abrir programas

    Escrevemos em junho, e mantemos, que não basta abrir programas: é preciso abrir contextos. É a única parte da tese original que sobrevive intacta à verificação, e sobrevive mais forte do que estava.

    Abrir um contexto tem dois gestos, e a distinção é operacional.

    O gesto operacional Dar tempo e permissão. Uma hora por semana em que se pode usar a ferramenta de forma deliberada sobre trabalho real, com o resultado a ser revisto por alguém. Custa uma hora e resolve a maior parte do problema dos 51%.
    O gesto estrutural Escrever o critério. O que torna aceitável um texto gerado, um resumo, uma proposta de resposta a cliente. Esse critério existe na cabeça de quem já faz bem o trabalho, nunca está escrito, e explicitá-lo é o trabalho formativo mais valioso e menos vendido do mercado atual.

    Há uma pergunta que costuma matar os dois gestos antes de começarem, e é melhor enfrentá-la já: quem paga a hora?

    A resposta honesta é que a hora já está a ser paga, e mal. Uma pessoa que usa a ferramenta sem critério gasta tempo a produzir resultados que não usa, a corrigir o que ela devolveu, ou a refazer manualmente o que tentou automatizar. Os 51% que dizem poupar menos de uma hora por semana estão, muitos deles, a gastar mais do que poupam. A hora de utilização deliberada com revisão não é um custo novo: é a mesma hora, organizada de outra maneira, com a diferença de que produz aprendizagem em vez de frustração.

    Nenhum dos dois gestos é tecnológico. Ambos são de desenho de trabalho, e é por isso que a entidade formadora que só entrega sessões não os consegue produzir, por muito boa que seja a sessão.

    O que os dados não permitem concluir

    O estudo mede perceções. O estudo do Boston Consulting Group é um inquérito de sentimento com autorrelato, sobre mil pessoas em Portugal continental, conduzido em agosto de 2025. Mede perceções e não comportamento observado. Quando 51% afirmam poupar menos de uma hora por semana, o que se mede é a estimativa que fazem, não o tempo efetivamente poupado.
    A sobreposição é inferência. A afirmação de que os 61% estão largamente contidos nos 67% é uma inferência razoável a partir das duas distribuições, e não um cruzamento publicado. O estudo não divulga a tabulação cruzada entre as duas respostas, pelo que a sobreposição é provável e não é demonstrada.
    INE, Eurostat e BCG não medem o mesmo. Os valores do INE e do Eurostat referem-se a universos e definições distintos dos do estudo de consumo, e o artigo apresenta-os para contraste de ordem de grandeza, não para comparação direta.
    A causalidade não está demonstrada. A ligação entre a ausência de formação e a ausência de ganho percebido é leitura desta casa. Os dados mostram que ambas existem. Não demonstram que uma produz a outra.

    O que isto significa, conforme quem lê

    Para quem desenha programas. A procura está formulada e não está a ser servida: 61% dizem precisar, 20% receberam. O produto em falta não é um curso técnico de inteligência artificial, é um percurso curto sobre critério de aceitação, dirigido a quem já usa a ferramenta e não sabe avaliar o que ela devolve.
    Para quem contrata formação. Se metade da sua equipa já usa inteligência artificial e metade dessa não sente ganho, o problema não é de adoção e não se resolve com licenças. Uma hora semanal com revisão de resultados reais produz mais efeito do que dois dias de formação sem seguimento.
    Para quem define política. O défice não está nas pessoas. Está nas organizações, e o instrumento que serve pessoas individualmente não corrige um problema que se produz no desenho do trabalho.
    Leitura da casa

    A leitura da casa

    Publicámos em junho uma tese sobre a distância entre reconhecer e adotar, e a tese assentava numa leitura que não resistiu à verificação. Este artigo corrige-a por inteiro e deixa registado o que estava errado, porque é o que uma casa que publica leituras do setor tem de fazer quando descobre que se enganou.

    O que fica no lugar é mais incómodo e mais útil.

    Os portugueses adotam inteligência artificial acima da média europeia e sentem-se despreparados a fazê-lo. Seis em cada dez dizem que precisam de mais formação e dois em cada dez receberam alguma. Metade não sente ganho de tempo nenhum.

    Não é um país que precise de ser convencido. É um país que já decidiu e está à espera que alguém lhe ensine a fazer bem aquilo que já faz.

    Isso é uma encomenda, não é um problema. E está por servir.

    Fontes

    Boston Consulting Group, Consumer Sentiment Survey 2025, edição Portugal, inquérito conduzido em agosto de 2025 sobre uma amostra de mil pessoas em Portugal continental, com quarenta e quatro perguntas. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Instituto Nacional de Estatística, dados sobre a utilização de ferramentas de inteligência artificial pela população, reportados ao Eurostat. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Eurostat, Use of artificial intelligence in enterprises, série isoc_eb_ai, dados de 2025. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Blume, B. D., Ford, J. K., Baldwin, T. T. e Huang, J. L. (2010). «Transfer of Training: A Meta-Analytic Review». Journal of Management, 36(4), 1065-1105. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Nota de origem

    Este artigo reúne e desenvolve cinco publicações da Advance Station no LinkedIn, entre 2 e 19 de junho de 2026. O texto foi reescrito por inteiro e a tese central das publicações originais foi corrigida, por não resistir à verificação na fonte.

    • 2 de junho de 2026 · Carta de Navegação, sobre o hiato digital português em seis movimentos.
    • 4 de junho de 2026 · Observatório AS, sobre o reconhecimento da necessidade de formação.
    • 9 de junho de 2026 · Lente de Descoberta, sobre saber não ser o mesmo que adotar.
    • 18 de junho de 2026 · Observatório AS, sobre a utilização regular de tecnologias de inteligência artificial.
    • 19 de junho de 2026 · Diário de Bordo, sobre não bastar abrir programas.
  • Diário do Capitão N.º 02 · Reconhecer e adotar

    Diário do Capitão N.º 02 · Reconhecer e adotar

    Esta edição foi anunciada a 5 de junho, como edição de junho, e sai hoje. Prometia observar julho e agosto. Como esses meses já passaram, vou fazer as duas coisas: dizer o que íamos observar e dizer o que encontrámos.

    O assunto anunciado era o tempo que separa reconhecer de adotar.

    Sessenta e um por cento da população portuguesa considera a formação digital imprescindível. Quarenta e três por cento utiliza tecnologias de inteligência artificial com regularidade. A distância entre os dois números não é uma taxa de conversão, e a leitura completa desses indicadores, com as ressalvas metodológicas que exigem, está no artigo que publicamos na próxima semana. Aqui trato do que faço com eles.

    Três frentes, como estava prometido.

    Primeira frente: o movimento de oferta que importou

    Se tivesse de escolher uma só transformação da oferta formativa portuguesa entre 2024 e 2025, escolheria esta: o dinheiro público mudou o que está disponível, e mudou-o depressa.

    935 M€
    Aprendizagem ao longo da vida no PESSOAS 2030
    794 M€
    Financiamento do Fundo Social Europeu Mais
    200 M€
    Centros Qualifica no Norte, Centro e Alentejo

    O Programa PESSOAS 2030 alocou cerca de 935 milhões de euros à aprendizagem ao longo da vida no período de programação em curso, dos quais 794 milhões vêm do Fundo Social Europeu Mais. Só para os Centros Qualifica nas regiões Norte, Centro e Alentejo estão alocados 200 milhões, com 170 milhões de financiamento europeu. Em paralelo, o Plano de Recuperação e Resiliência financiou a entrada em força das microcredenciais no ensino superior, através de programas como o Impulso 2025.

    Isto reconfigurou a oferta em dois anos. Apareceram percursos curtos certificáveis onde antes havia pós-graduações longas. Instituições que nunca tinham trabalhado com adultos em contexto de trabalho passaram a fazê-lo. E entidades formadoras privadas passaram a competir com oferta pública gratuita em segmentos onde antes não competiam.

    Foi um movimento de oferta, e foi grande.

    O que não foi, e é aqui que quero ser claro, é um movimento de procura. A participação de adultos em formação, medida no indicador que a meta europeia usa, estava nos 35,5% em 2024 contra uma meta de 60% para 2030. Mais oferta, financiada e gratuita, não moveu esse número na proporção do investimento.

    O que o movimento não resolveu
    Se o constrangimento fosse de disponibilidade de oferta, esta vaga de financiamento tê-lo-ia resolvido. Como não resolveu, o constrangimento é outro, e continua por tratar.

    Não escrevo isto contra o investimento, que era necessário e continua a ser. Escrevo porque a conclusão que se tira daqui condiciona o que se faz a seguir.

    Há uma parte deste movimento que me diz respeito diretamente e que seria desonesto não escrever. Uma entidade formadora privada que trabalha há trinta e três anos passou, em dois anos, a competir com oferta gratuita e certificada em segmentos onde antes não havia concorrência pública. Isso é bom para quem se forma e é desconfortável para quem forma, e as duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo.

    A resposta que me parece certa não é queixar-me da concorrência, é perguntar onde é que o gratuito não chega. E não chega em três sítios: no acompanhamento depois da formação, que nenhum financiamento por participante paga; no desenho à medida de um contexto concreto, que exige diagnóstico prévio; e na continuidade para lá do ciclo de fundos, que termina quando o programa termina. É aí que uma casa privada tem alguma coisa a acrescentar, e é aí que devemos estar.

    Segunda frente: três falhas recorrentes

    Vejo as mesmas três falhas em programas que não produzem efeito, e vejo-as em programas nossos e alheios.

    Primeira falha
    Medir no pior momento possível. A avaliação faz-se no fim da última sessão, com o conteúdo fresco, o grupo constituído e o formador na sala. É o instante em que a medição é mais generosa e menos informativa. A investigação sobre transferência mostra que a aplicação decai substancialmente ao longo do primeiro ano, e a avaliação que fazemos é feita antes de a decadência começar. Medimos o entusiasmo e chamamos-lhe resultado.
    Segunda falha
    Desenhar para quem já se inscreveria. Em Portugal, a taxa de participação em formação entre quem tem ensino superior é de 68,3%, contra 27,3% entre quem tem, no máximo, o terceiro ciclo do básico. Um programa desenhado com o formato, a linguagem e o horário que resultam bem para o primeiro grupo produz naturalmente inscrições do primeiro grupo. E depois atribui-se a ausência do segundo à falta de motivação, quando a explicação disponível é bastante mais simples: o programa não foi feito para quem não aparece.
    Terceira falha
    Terminar onde o problema começa. O preditor confirmado de que a aprendizagem se mantém é o ambiente de trabalho de apoio, e não a qualidade da sessão. É o resultado mais consistente de quarenta anos de investigação sobre transferência de formação. E é, quase sempre, a parte que a proposta não inclui, o contrato não prevê e ninguém audita. Entregamos a parte que sabemos fazer e chamamos ao resto problema do cliente.
    Um exemplo
    Um programa de competências digitais desenhado com uma sessão semanal de duas horas, às sete da tarde, com pré-trabalho em plataforma e apresentação final em grupo, é um bom programa. É também um programa que exclui quem faz turnos, quem tem transporte a uma hora de distância, quem não tem computador em casa e quem saiu do sistema de ensino há trinta anos e não vai apresentar nada a ninguém. Nenhuma destas exclusões foi decidida. Todas foram desenhadas.

    Nenhuma das três é falha de execução. São todas falhas de desenho, e por isso são todas corrigíveis sem gastar mais.

    Terceira frente: o horizonte que já passou

    Íamos observar julho e agosto. Observámos, e o que encontrámos não foi o que esperava.

    Passámos estes dois meses a preparar a passagem do nosso trabalho editorial para o nosso próprio domínio, o que obrigou a verificar, uma por uma, todas as afirmações que tínhamos publicado. Fomos às fontes primárias de cada número.

    Vários não sobreviveram.

    Um recorte por nível de escolaridade estava atribuído a uma fonte que não o continha, e os valores corretos eram consideravelmente diferentes.
    Uma distância para a meta de 2030 estava calculada entre dois indicadores com bases de medição distintas, o que a reduzia a menos de metade da distância real.
    Uma taxa de mortalidade empresarial não foi possível confirmar em nenhuma fonte.
    Um crescimento de 98% em microcredenciais, que apresentávamos como prova de uma transformação, aparecia na fonte ao lado de um crescimento de 89% nos cursos que supostamente estariam a ser substituídos.

    Nenhum destes casos foi má-fé. Todos foram a mesma coisa: um número recolhido de um documento intermédio, não confirmado na origem, e repetido depois com a confiança que a repetição dá.

    Corrigimos os quatro e a série passa a exigir, por norma, que cada número traga a fonte, o ano e a data de consulta, e que a conclusão que dele se tira seja verificada contra o conjunto de dados da fonte e não apenas contra o valor citado.

    Escrevo isto aqui porque me parece a única coisa honesta a fazer e porque a alternativa era não escrever. Uma casa que publica leituras do setor com pretensão de rigor tem de aplicar a si o critério que aplica aos outros, e a aplicação desse critério, quando é a sério, dói um bocado.

    O que passamos a observar

    O horizonte prometido já passou, e por isso fixo aqui outro, para o segundo semestre.

    A execução, e não o anúncio. O Governo apresentou em janeiro uma Agenda Nacional para a inteligência artificial com mais de 400 milhões de euros. Vamos acompanhar o que dela chega a formação de pessoas e a que pessoas chega, em vez de comentar o montante.
    O indicador que a meta usa, e não o mais favorável. A participação de adultos em formação vai continuar a ser reportada em pelo menos dois indicadores com valores muito diferentes. Vamos usar o que a meta usa, sempre, mesmo quando o outro nos favorece.
    A dimensão da empresa, e não o país. Os dados de adoção tecnológica mostram que quase todo o fosso português se produz nas pequenas e médias empresas, enquanto as grandes se comportam como as europeias. Vamos deixar de escrever sobre Portugal em bloco nesta matéria.
    E o que fica por medir. Taxas de participação e de conclusão existem e são públicas. Taxas de manutenção da aplicação, ao fim de seis meses e de um ano, não existem em nenhuma estatística nacional. É a lacuna mais consequente do setor e vamos insistir nela.

    O que fica dito

    O constrangimento da formação de adultos em Portugal não é de oferta. Há mais oferta do que houve em qualquer momento da última década, muita dela financiada e gratuita, e a participação não subiu na proporção.

    O constrangimento é de desenho e de contexto. De programas construídos para quem já participa, avaliados no momento em que a avaliação é mais favorável, e terminados no ponto onde a investigação diz que o trabalho começa.

    Há uma assimetria neste diagnóstico que convém não esconder. As três falhas são fáceis de nomear e difíceis de corrigir, e a dificuldade não é técnica. Mudar o momento da medição significa aceitar resultados piores. Mudar o destinatário do desenho significa desenhar para quem se inscreve menos, com turmas mais pequenas e custo por pessoa mais alto. E incluir o pós-formação significa vender um programa mais caro do que o do concorrente que não o inclui. As três correções custam dinheiro ou credibilidade no curto prazo, e é por isso que quase ninguém as faz.

    Nada disto se resolve com mais dinheiro. Resolve-se com decisões que custam pouco e que quase ninguém toma: mudar o momento da medição, mudar o destinatário do desenho, e incluir no programa o que acontece depois da última sessão.

    Vamos escrever sobre cada uma delas ao longo do próximo semestre, e vamos escrever com a base à vista, incluindo quando a base nos contraria.

    Até à próxima.

    João Dias Direção Criativa, Advance Station

    Fontes

    PESSOAS 2030, dados sobre o investimento na aprendizagem ao longo da vida e no apoio aos Centros Qualifica no período de programação 2021-2027, e monitorização das metas sociais europeias para Portugal. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Instituto Nacional de Estatística, Inquérito à Educação e Formação de Adultos 2022, com as taxas de participação por nível de escolaridade. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Blume, B. D., Ford, J. K., Baldwin, T. T. e Huang, J. L. (2010). «Transfer of Training: A Meta-Analytic Review». Journal of Management, 36(4), 1065-1105. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Saks, A. M. e Belcourt, M. (2006). «An investigation of training activities and transfer of training in organizations». Human Resource Management, 45(4), 629-648. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Universidade Aberta, dados institucionais sobre a evolução de estudantes em cursos conferentes e não conferentes de grau, e sobre o Projeto Impulso 2025. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Nota de origem

    Esta edição foi anunciada na página da Advance Station no LinkedIn a 5 de junho de 2026, com o tema e as três frentes de análise já fixados, e não chegou a ser publicada. Sai agora, com o tema anunciado, as três frentes cumpridas e a data real de publicação. Não se retrodata.

  • 2030 e o horizonte de planeamento

    Uma meta com prazo distante comporta-se como horizonte até ao dia em que passa a caber dentro do ciclo de planeamento em curso. Nesse dia, deixa de ser um número em apresentações e passa a ser uma linha de orçamento.

    Para as metas de 2030, esse dia já passou. Um plano trienal aprovado em 2026 termina em 2029. Um ciclo de fundos comunitários em execução vai até 2027, com derrapagem até 2029. Um percurso formativo desenhado agora tem a sua primeira coorte formada em 2027 e a segunda em 2028.

    Tudo o que se aprovar nos próximos meses já está dentro do prazo. E, no entanto, quase nenhum documento de planeamento setorial trata as metas de 2030 como matéria operacional.

    Este artigo faz o inventário dessas metas, mede a distância de Portugal a cada uma, e mostra por que a soma delas não é um número.

    As cinco metas, e onde Portugal está

    Meta para 2030 Alvo Portugal Origem
    Participação anual de adultos em formação 60% 35,5% em 2024 Plano de Ação do Pilar Europeu dos Direitos Sociais
    Empresas a usar nuvem, análise de dados ou IA 75% 11,54% em IA e 45% em nuvem Programa da Década Digital
    População dos 16 aos 74 com competências digitais básicas 80% 74% Programa da Década Digital
    PME com nível básico de intensidade digital 90% 71% Programa da Década Digital
    Taxa de emprego dos 20 aos 64 anos 78% na UE e 80% em Portugal 78,5% em 2024 Plano de Ação do Pilar Europeu dos Direitos Sociais

    A última linha é a que dá perspetiva às restantes.

    A meta que já está cumprida

    Portugal atingiu, em 2024, uma taxa de emprego de 78,5% na população dos 20 aos 64 anos. A meta europeia é de 78% e a meta nacional é de 80%. O país ultrapassou a primeira e está a um ponto e meio da segunda.

    78%
    Meta europeia
    78,5%
    Portugal em 2024
    80%
    Meta nacional

    Vale a pena deter-se aqui, porque é um resultado que a conversa pública raramente regista e porque muda a leitura das outras quatro.

    Se o problema português fosse de mobilização geral, de cultura de trabalho ou de dinamismo económico, apareceria também aqui. Não aparece. O país coloca gente a trabalhar ao nível das melhores metas europeias e falha, por larga margem, as metas que dizem respeito ao que essas pessoas sabem fazer e às ferramentas com que o fazem.

    O diagnóstico
    O défice não é de emprego. É de qualificação dentro do emprego, o que é um problema diferente, com instrumentos diferentes.

    Nenhuma se mede da mesma maneira

    Aqui está a razão por que estas cinco metas não se somam nem se comparam.

    A meta de participação em formação é monitorizada num indicador de doze meses derivado do Inquérito ao Emprego, que exclui a formação em posto de trabalho com acompanhamento. Não é o mesmo indicador que produz os 44,2% habitualmente citados a partir do Inquérito à Educação e Formação de Adultos, e a diferença entre os dois chega a ser de vinte pontos.

    A meta das empresas admite três tecnologias em alternativa: nuvem, análise de dados ou inteligência artificial. Uma empresa que use apenas serviços de nuvem conta para a meta. Por isso Portugal, que está nos 11,54% em inteligência artificial, está nos 45% em nuvem, e o valor que conta para a meta é o do conjunto e não o de cada tecnologia isolada.

    A meta das competências digitais mede a população dos 16 aos 74 anos por autoavaliação em cinco domínios, com um limiar definido. A meta das PME mede um índice de intensidade digital construído a partir de doze indicadores. E a meta de emprego mede uma taxa clássica de contas nacionais.

    Regra de leitura
    Cinco metas, cinco instrumentos, cinco universos. Quem apresentar as cinco num só gráfico está a apresentar cinco escalas diferentes no mesmo eixo.

    A meta mais próxima e a mais distante são o mesmo problema

    Feita a ressalva metodológica, resta uma leitura que sobrevive a ela.

    74% → 80%
    Competências digitais básicas Seis pontos de distância.
    35,5% → 60%
    Participação em formação Quase vinte e cinco pontos de distância.

    A meta mais próxima de ser cumprida, tirando o emprego, é a das competências digitais básicas: 74% contra 80%, seis pontos de distância. A mais distante é a da participação em formação: 35,5% contra 60%, quase vinte e cinco pontos.

    São, em boa medida, o mesmo problema visto de dois ângulos. Competências digitais básicas adquirem-se, para a maior parte da população adulta, através de utilização quotidiana e de aprendizagem informal. A participação em formação exige uma decisão consciente, tempo alocado, e frequentemente um empregador que a autorize.

    Estrutura vs. difusão
    Portugal está a conseguir o que se difunde por uso e a falhar o que exige estrutura.

    Isto tem uma consequência de política que a maior parte dos planos não retira: aproximar-se da meta de competências digitais não aproxima da meta de participação em formação. São mecanismos distintos e o primeiro pode até reduzir a pressão sobre o segundo, na medida em que produz a sensação de que o problema está a resolver-se.

    O mesmo princípio à escala do trimestre

    O que vale para 2030 vale para setembro, e à escala em que quem trabalha em formação sente todos os anos.

    Setembro não começa em setembro. Uma edição que abre na primeira semana de outubro tem de ter a captação a correr em agosto, o programa fechado em julho, os formadores confirmados em junho e a decisão de o fazer tomada em maio. Quem começa a preparar setembro em setembro está a preparar janeiro.

    Maio
    Decisão de realizar a edição
    Junho
    Equipa formadora confirmada
    Julho
    Programa fechado
    Agosto
    Página publicada e captação
    Setembro
    Inscrições fechadas
    Outubro
    Primeira sessão

    Vale a pena fazer a conta ao contrário, uma vez, com uma edição concreta. Uma turma que abre na primeira semana de outubro precisa de inscrições fechadas em meados de setembro, o que exige captação a correr desde meados de agosto, o que exige a página de oferta publicada no início de agosto, o que exige o programa fechado em julho, o que exige a equipa formadora confirmada em junho, o que exige a decisão de fazer a edição tomada em maio.

    Cinco meses entre a decisão e a primeira sessão, e nenhum deles é opcional. Quem comprime esta cadeia comprime sempre pelo mesmo sítio, que é a captação, e depois atribui a turma pequena ao mercado.

    A regra
    O prazo relevante não é a data em que a coisa acontece, é a data em que deixa de ser possível decidir sobre ela.

    Essa data é sempre muito anterior e quase nunca está marcada em lado nenhum. Vale a pena escrevê-la. Para cada objetivo com data, há um momento a partir do qual o resultado já está determinado e só falta ver acontecer. Um plano que não identifique esse momento não é um plano, é uma intenção com calendário.

    O que muda no perfil de quem se forma

    Há um terceiro horizonte, mais lento do que os outros dois, e é aquele em que o próprio destinatário da formação se transforma.

    Em junho de 2022, o Conselho da União Europeia adotou a recomendação para uma abordagem europeia às microcredenciais, definidas como certificações de percursos curtos, não conducentes a grau, com foco em competência específica e reconhecimento no espaço europeu. Foi o momento em que a formação curta e certificável deixou de ser uma prática dispersa e passou a ter enquadramento comum.

    Em Portugal, o instrumento de execução foi sobretudo o Plano de Recuperação e Resiliência, através de programas como o Impulso 2025, que financiaram microcredenciais em instituições de ensino superior. Só na Universidade Aberta, entre 2022 e 2024, passaram por estas formações 4 725 pessoas.

    56,5%
    25 aos 34 anos
    49,9%
    35 aos 44 anos
    46,2%
    45 aos 54 anos

    E a idade de quem se forma está a subir. Os dados europeus mostram que a participação em educação e formação decresce com a idade, mas menos do que se supõe: 56,5% na faixa dos 25 aos 34 anos, 49,9% entre os 35 e os 44, e 46,2% entre os 45 e os 54. Uma diferença de dez pontos ao longo de trinta anos de vida ativa não é um colapso, é um declive suave.

    Com a vida ativa a estender-se, o efeito prático é que a formação de adultos deixa de ser um assunto do início de carreira e passa a ser um assunto de todas as fases dela.

    O que conta como microcredencial

    A recomendação europeia de 2022 não se limitou a nomear a coisa. Fixou o que uma microcredencial tem de conter para ser reconhecível fora de quem a emite, e essa lista é a parte operacional que costuma passar despercebida.

    Uma microcredencial deve registar os resultados de aprendizagem efetivamente adquiridos, avaliados segundo critérios transparentes e previamente definidos.

    Resultados de aprendizagem O que foi efetivamente adquirido e avaliado.
    Identificação Quem aprendeu e quem emitiu a credencial.
    Data e volume de trabalho Quando aconteceu e qual o esforço envolvido.
    Nível e avaliação A que nível corresponde e de que forma foi avaliada.
    Garantia de qualidade A credencial deve estar abrangida por um sistema de qualidade.

    Nada disto é exigente do ponto de vista pedagógico. É exigente do ponto de vista administrativo, e é aí que a maior parte da oferta formativa portuguesa não cumpre. Uma formação curta com certificado de presença não é uma microcredencial, por mais bem desenhada que seja: falta-lhe a avaliação contra critério e a declaração de resultados de aprendizagem.

    A consequência prática para quem opera no setor é concreta. A diferença entre emitir um certificado e emitir uma microcredencial reconhecível não está no conteúdo nem na duração. Está no que fica registado, e o que fica registado é o que permite a quem se formou usar aquilo noutro sítio.

    Onde está a diferença
    É trabalho de retaguarda, não é trabalho de sala. E é a condição de a formação curta valer alguma coisa depois de terminar.

    Uma leitura que é preciso corrigir

    Circula um número sobre microcredenciais que merece cuidado, e é um número que esta casa já usou.

    Entre os anos letivos de 2018-2019 e 2023-2024, o número de estudantes em cursos não conferentes de grau da Universidade Aberta cresceu 98%. É facto, e costuma ser apresentado como prova da ascensão da formação curta.

    Só que, no mesmo período e na mesma instituição, os cursos conferentes de grau cresceram 89%.

    +98%
    Cursos não conferentes de grau 2018-2019 a 2023-2024
    +89%
    Cursos conferentes de grau No mesmo período e na mesma instituição

    A diferença entre 98% e 89% é de nove pontos, não é de uma ordem de grandeza. O que os dois números mostram, lidos em conjunto, é uma instituição que quase duplicou em ambas as frentes, provavelmente por efeito do financiamento do Plano de Recuperação e Resiliência e da procura pós-pandemia por ensino a distância.

    Não é o retrato de uma substituição do grau pela microcredencial. É o retrato de um crescimento paralelo. A microcredencial está a somar-se, não a substituir, e a diferença entre estas duas leituras é decisiva para quem decide onde investir.

    Leitura corrigida
    O primeiro número, sozinho, sustenta uma estratégia. Os dois juntos sustentam outra.

    O que os dados não permitem concluir

    As cinco metas não são comparáveis. As cinco metas têm bases de medição diferentes e este artigo apresenta-as lado a lado por conveniência de leitura, não porque sejam comparáveis. Qualquer conclusão que dependa da comparação direta entre duas delas é indevida.
    A Universidade Aberta não representa todo o sistema. Os dados da Universidade Aberta referem-se a uma instituição, a maior do país no ensino a distância, e não ao sistema de ensino superior português. A extrapolação para o conjunto não está fundamentada.
    Os dados por idade são europeus. Os valores de participação por faixa etária são europeus e de 2022. Servem para descrever a forma do declive, não para caracterizar Portugal em 2026.

    O que isto significa, conforme quem lê

    Para quem desenha programas. O calendário de produção precede sempre o calendário de oferta, e a data que importa é aquela a partir da qual já não se pode decidir. Vale a pena fixá-la por escrito em cada ciclo, porque é a única que não aparece em nenhum documento.
    Para quem contrata formação. A decisão do próximo ciclo toma-se no ciclo atual. Um plano de formação aprovado em janeiro para arrancar em janeiro arranca em abril, e a diferença raramente é atribuída à decisão tardia.
    Para quem define política. As cinco metas não se somam e progredir numa não implica progredir noutra. A que está mais perto avança por difusão e a que está mais longe exige estrutura, e é sobre a segunda que os instrumentos de política têm mais efeito e menos atenção.
    Leitura da casa

    A leitura da casa

    Portugal chegou às metas de emprego e está longe das metas de qualificação. Isto não é um paradoxo, é uma sequência: primeiro coloca-se gente a trabalhar, depois qualifica-se quem trabalha, e o país está entre as duas fases há mais tempo do que devia.

    A parte incómoda é que a segunda fase não acontece por difusão. As competências digitais básicas subiram porque as pessoas usam telemóveis e serviços públicos em linha todos os dias. A participação em formação não sobe por uso: sobe por decisão, e a decisão tem custo, tempo e alguém que a autorize.

    Faltam menos de quatro anos e meio. Não é tempo para desenhar sistemas novos, é tempo para executar os que existem, e a diferença entre chegar perto e não chegar vai depender de decisões que estão a ser tomadas agora, em documentos onde a data de 2030 nem sequer é mencionada.

    Fontes

    Comissão Europeia, Plano de Ação sobre o Pilar Europeu dos Direitos Sociais, 2021, com as metas de participação em formação e de emprego para 2030. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Comissão Europeia, Programa da Década Digital para 2030 e Relatório sobre o Estado da Década Digital, com as metas relativas a empresas, competências digitais e intensidade digital das PME. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    PESSOAS 2030, dados de monitorização das metas sociais europeias para Portugal, com os indicadores de 2024. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Eurostat, Adult learning statistics, série trng_aes_100, com a participação em educação e formação por faixa etária. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Conselho da União Europeia, recomendação sobre uma abordagem europeia às microcredenciais para a aprendizagem ao longo da vida e a empregabilidade, junho de 2022. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Universidade Aberta, dados institucionais sobre a evolução de estudantes em cursos conferentes e não conferentes de grau entre 2018-2019 e 2023-2024, e sobre o Projeto Impulso 2025. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Nota de origem

    Este artigo reúne e desenvolve três publicações da Advance Station no LinkedIn, entre 28 de abril e 18 de julho de 2026. O texto foi reescrito para leitura contínua, a base foi alargada a fontes oficiais que as publicações não citavam, e uma leitura anterior sobre microcredenciais foi corrigida.

    • 28 de abril de 2026 · Carta de Navegação, edição inaugural, com seis movimentos sobre o horizonte formativo.
    • 26 de maio de 2026 · Lente de Descoberta, sobre 2030 caber dentro do ciclo de planeamento em curso.
    • 18 de julho de 2026 · Lente de Descoberta, sobre setembro não começar em setembro.
  • Competências internas de IA: o constrangimento das PME

    Em 2025, 11,54% das empresas portuguesas com dez ou mais pessoas ao serviço utilizavam pelo menos uma tecnologia de inteligência artificial. A média da União Europeia foi de 19,95%. A distância é de 8,41 pontos percentuais e é habitualmente lida como um atraso nacional.

    É uma leitura incompleta, e a parte que falta é a que interessa a quem decide.

    O quadro, antes da leitura

    Indicador Portugal União Europeia Ano
    Empresas com 10 ou mais pessoas que usam IA 11,54% 19,95% 2025
    Variação face ao ano anterior +2,91 p.p. n.d. 2025
    Variação em 2024 +0,8 p.p. +5,5 p.p. 2024
    Adoção nas grandes empresas 49% 55,03% 2025
    Adoção nas pequenas empresas n.d. 17% 2025
    Adoção nas médias empresas n.d. 30,36% 2025
    Empresas que apontam a falta de competências em IA como principal entrave 28% n.d. 2.º trim. 2025
    Meta da Década Digital para 2030 75% 75% 2030

    A linha das grandes empresas é a que desarma a leitura habitual.

    11,54%
    Empresas portuguesas com 10 ou mais pessoas que usam IA
    19,95%
    Média da União Europeia
    8,41 p.p.
    Distância entre Portugal e a média europeia

    Não é um problema do país, é um problema de dimensão

    As grandes empresas portuguesas adotaram inteligência artificial em 49% dos casos. A média europeia para grandes empresas é de 55,03%. Seis pontos de diferença.

    As pequenas e médias empresas portuguesas estão nos 11,5%, contra uma média europeia próxima dos 20%, com 17% nas pequenas e 30,36% nas médias.

    Grandes empresas Portugal: 49%
    União Europeia: 55,03%
    PME Portugal: 11,5%
    União Europeia: cerca de 20%

    Se a explicação fosse cultural, regulamentar ou de mentalidade nacional, teria de aparecer nos dois grupos. Aparece num só. As grandes empresas portuguesas comportam-se aproximadamente como as suas congéneres europeias. São as pequenas e médias que abrem o fosso, e é aí que quase toda a distância nacional se produz.

    O que muda
    Isto não é uma nuance estatística. É a diferença entre um problema de país, que se trata com campanhas e discurso, e um problema de estrutura empresarial, que se trata com desenho.

    O mapa europeu, e o que distingue quem lidera

    A dispersão entre Estados-Membros é enorme e vale a pena olhar para os extremos.

    No topo estão a Dinamarca, com 42,03% das empresas a usar inteligência artificial, a Finlândia, com 37,82%, e a Suécia, com 35,04%. No fundo estão a Roménia, com 5,21%, a Polónia, com 8,36%, e a Bulgária, com 8,55%. Portugal, com 11,54%, ocupa a vigésima posição entre vinte e sete.

    Entre o primeiro e o último há uma diferença de oito vezes, o que é muito para um bloco com mercado único, regulação comum e acesso equivalente às mesmas ferramentas. As ferramentas são as mesmas em Lisboa e em Copenhaga, e o preço também. A diferença está noutro sítio.

    Há uma coincidência que merece ser registada com cuidado. Os três países que lideram a adoção empresarial de IA estão também entre os que registam maior participação de adultos em educação e formação na União Europeia. A Suécia, em particular, aparece no topo das duas tabelas.

    Isto é correlação e não causalidade demonstrada, e não temos base para afirmar que uma produz a outra. É perfeitamente possível que ambas resultem de uma terceira condição, como a estrutura de qualificações da população ativa ou a dimensão média das empresas.

    Hipótese de trabalho
    A capacidade de adotar tecnologia nova é função da capacidade instalada de aprender, e essa capacidade constrói-se antes de a tecnologia aparecer, não depois.

    Se a hipótese estiver certa, a política de adoção tecnológica e a política de qualificação de adultos não são duas políticas. São a mesma, com dois orçamentos.

    Por que a resposta das PME não passa pela contratação

    A saída óbvia seria contratar quem já sabe. Para a maioria das pequenas e médias empresas portuguesas, essa saída não está disponível, e há três razões documentadas.

    A escassez de talento é das mais altas do mundo. Em 2025, 84% dos empregadores em Portugal reportaram dificuldade em encontrar as competências de que precisam, valor que coloca o país na terceira posição mundial, à frente da média global de 74% e atrás apenas da Alemanha e de Israel.
    A procura concentra-se onde há capacidade de pagar. Uma organização de vinte pessoas compete pelo mesmo perfil que uma multinacional, no mesmo mercado, e perde por razões que não tem como corriger no prazo em que precisa da competência.
    E a competência de que a PME precisa não é a que o mercado vende. Os anúncios procuram quem constrói modelos. Uma empresa de serviços com trinta pessoas não precisa de construir nada: precisa de gente que decida bem sobre o que a ferramenta produz, o que é outra coisa e não se contrata, instala-se.

    Resta, portanto, o desenvolvimento interno. E as empresas já disseram onde está o travão.

    O que as próprias empresas identificam como entrave

    Segundo o Employment Outlook Survey do ManpowerGroup, relativo ao segundo trimestre de 2025, 28% das empresas portuguesas identificam a falta de competências em inteligência artificial como o principal entrave à implementação desta tecnologia.

    28% dizem competências
    Não diz custo. Não diz regulação. Não diz falta de casos de uso, nem imaturidade da tecnologia, nem infraestrutura. Diz competências.

    É uma resposta rara na sua clareza. Quando um em cada quatro empregadores identifica o mesmo travão, e esse travão é aquele que a formação existe para resolver, a conversa deixa de ser sobre se vale a pena formar e passa a ser sobre o quê, para quem e quando.

    Uma nota sobre a base de medição

    É preciso um cuidado antes de continuar, porque circulam dois números diferentes para a mesma coisa.

    O Eurostat, com dados reportados pelo Instituto Nacional de Estatística, indica 11,54% de empresas portuguesas com dez ou mais pessoas ao serviço a utilizar IA em 2025. O Relatório sobre o Estado da Década Digital, da Comissão Europeia, refere 15% de empresas portuguesas com IA.

    Não é contradição
    São recortes diferentes de universo e de momento de recolha, produzidos por duas linhas de trabalho da mesma casa estatística europeia.

    Quem citar um e comparar com o outro produz uma variação que não existe.

    Este artigo trabalha com a série do Eurostat, porque é a que permite comparação entre Estados-Membros e entre classes de dimensão, que é exatamente o corte de que este assunto precisa. Quem preferir a outra fonte deve manter-se nela do princípio ao fim.

    É a terceira vez que este cuidado aparece nesta série, e não é hábito de estilo. É a consequência prática de trabalhar com estatística oficial: quase todos os indicadores relevantes existem em mais de uma versão.

    A aritmética de 2030

    O Programa da Década Digital fixa, para 2030, a meta de pelo menos 75% das empresas da União Europeia a utilizarem computação em nuvem, análise de grandes volumes de dados ou inteligência artificial.

    Portugal está nos 11,54%. Ainda que se conte pelo indicador mais favorável, está nos 15%.

    Falta menos de meia década, e a progressão recente não sustenta a trajetória: em 2024 Portugal cresceu 0,8 pontos percentuais, um dos menores aumentos da União, e em 2025 acelerou para 2,91 pontos. É melhoria real e é insuficiente por uma ordem de grandeza.

    Portugal, 2025 11,54%
    Meta, 2030 75%

    Não escrevemos isto para produzir alarme, que não serve para nada. Escrevemos porque a distância entre a meta e a trajetória define o tipo de intervenção que faz sentido. Uma distância de dez pontos resolve-se com incentivos e comunicação. Uma distância de sessenta resolve-se, se resolver, com capacitação em escala, e capacitação em escala é uma decisão de política formativa antes de ser uma decisão tecnológica.

    O Governo apresentou em janeiro de 2026 uma Agenda Nacional para a inteligência artificial, com investimento superior a 400 milhões de euros. O montante é significativo. O que ele compra em competência instalada, e em quem, é a pergunta que ainda não tem resposta pública.

    Para que estão as empresas portuguesas a usar IA

    Os dados sobre utilização acrescentam a informação mais útil de todas para quem desenha formação.

    59,4%
    Análise de linguagem escrita
    50,9%
    Geração de conteúdos multimédia
    45,6%
    Produção de texto, voz ou código

    Entre as empresas portuguesas que usam inteligência artificial, as aplicações mais frequentes são a análise de linguagem escrita, com 59,4%, mais 11,3 pontos do que no ano anterior, a geração de conteúdos multimédia, com 50,9%, e a produção de texto, voz ou código, com 45,6%.

    Não é automação industrial. Não é visão computacional. Não é otimização logística. São três usos que têm uma coisa em comum: todos produzem um resultado cuja qualidade depende do julgamento de quem o avalia.

    Um modelo que gera um texto não sabe se o texto está certo para aquele destinatário. Um modelo que resume um contrato não sabe o que naquele contrato é decisivo. A ferramenta produz, a pessoa decide, e a decisão é onde o valor se cria ou se perde.

    Na peça anterior desta série, vimos que a investigação sobre transferência distingue competências fechadas, em que existe uma forma correta de fazer, de competências abertas, em que a aplicação depende do julgamento. Os três usos dominantes de IA nas empresas portuguesas são, todos eles, competências abertas.

    Consequência
    Formar em IA nas PME portuguesas não é sobretudo formação técnica. É formação em critério.

    O que muda no desenho de um percurso interno

    Quatro consequências, e nenhuma delas é tecnológica.

    A quem se dirige. O destinatário não é o perfil técnico, é a gestão intermédia. É quem revê o que sai, quem decide o que se envia e quem responde pelo erro. Formar apenas quem já domina a ferramenta produz uma ilha de competência que não se propaga.
    O que se treina. Não é a operação da ferramenta, que se aprende sozinha em horas. É o critério de aceitação: o que torna aceitável um texto gerado, um resumo, uma proposta de resposta a cliente. Esse critério existe na cabeça de quem já faz bem o trabalho e nunca está escrito, e explicitá-lo é metade do programa.
    Com que material. Casos do próprio trabalho, não exercícios genéricos. Uma sessão em que se rejeita e corrige um resultado real da semana passada ensina mais do que três sobre a arquitetura de modelos de linguagem.
    Com que ritmo. Ciclos curtos e repetidos, com regresso ao trabalho entre sessões. A investigação sobre transferência é clara quanto ao ponto: a aplicação decai com o tempo e o determinante da manutenção é o ambiente de trabalho. Um curso intensivo de dois dias sobre IA produz entusiasmo em maio e nada em outubro.

    Dois mercados, outra vez

    Na peça anterior desta série, a demografia empresarial mostrou que o mercado formativo português são pelo menos dois: as organizações jovens em consolidação incerta e as que crescem de forma sustentada. Os dados de adoção de IA confirmam o mesmo corte por outro caminho.

    Empresa em consolidação incerta Adota inteligência artificial por necessidade imediata e sem estrutura: alguém experimenta uma ferramenta, funciona, espalha-se por imitação, e ninguém definiu critério nenhum. O risco não é a não adoção, é a adoção sem critério, que produz erros que ninguém deteta porque não há revisão instalada.
    Empresa em crescimento sustentado Tem processo, tem revisão, tem quem responda, e por isso demora mais a adotar. Quando adota, adota melhor, e é o segmento onde os 49% das grandes empresas se aproximam da média europeia.

    Para quem desenha oferta, isto significa que o mesmo programa serve mal os dois. No primeiro caso, o que falta é critério de aceitação e alguém que reveja. No segundo, o que falta é velocidade e permissão para experimentar sem passar por três aprovações.

    Vender formação em IA como categoria única, sem este corte, é o erro que o mercado está a cometer agora, e é o mesmo erro que se cometeu com a formação em competências digitais há uma década.

    O que os dados não permitem concluir

    Três limites.

    A adoção declarada não mede qualidade nem retorno. Os indicadores de adoção do Eurostat medem utilização declarada de pelo menos uma tecnologia de IA. Não medem intensidade, não medem qualidade da utilização e não medem retorno. Uma empresa que usa uma ferramenta de geração de texto ocasionalmente conta tanto como uma que reorganizou um processo inteiro.
    O indicador do ManpowerGroup mede perceção. Mede perceção de quem responde por recursos humanos, sobre o entrave que considera principal. Não mede o défice efetivo de competências, e a resposta pode refletir tanto uma carência real como a ausência de um diagnóstico que a permita nomear de outra maneira.
    A cadeia é argumento da casa. A relação que este artigo estabelece entre a dimensão da empresa, a indisponibilidade de contratação e a necessidade de desenvolvimento interno é leitura desta casa. Os dados sustentam cada elo separadamente. A cadeia é argumento, e fica declarada como argumento.

    O que isto significa, conforme quem lê

    Para quem desenha programas. O produto que o mercado precisa não é um curso de IA. É um percurso curto e repetido, para gestão intermédia, construído sobre casos do próprio trabalho, que explicite critérios de aceitação. Quem vender formação técnica a uma PME de serviços está a vender-lhe a parte que ela consegue resolver sozinha.
    Para quem contrata formação numa PME. Não espere pela ferramenta para tratar da competência. As duas coisas instalam-se a ritmos diferentes: a ferramenta em semanas, o critério em meses. Um plano formativo que arranque depois da decisão tecnológica chega sempre tarde, e a diferença paga-se em resultados medíocres atribuídos à tecnologia.
    Para quem define política. O fosso é de dimensão empresarial e não de país, o que significa que instrumentos horizontais produzem efeito desigual. O apoio à qualificação interna em pequenas e médias empresas tem, nesta matéria, retorno superior ao apoio à adoção tecnológica, porque a tecnologia sem competência instalada produz utilização declarada e não produz efeito.
    Leitura da casa

    A leitura da casa

    Portugal tem grandes empresas que adotam IA quase como as europeias e pequenas empresas que não adotam. O país não está atrasado por inteiro: está atrasado onde estão quase todas as empresas e quase todo o emprego.

    A resposta não é comprar competência, porque não está à venda em quantidade nem a preço que a PME portuguesa possa pagar. É instalá-la, e instalá-la em quem decide, não em quem opera.

    E há uma inversão de calendário que vale a pena fixar, porque é a coisa mais simples deste artigo e a que menos se cumpre. A adoção da ferramenta não espera pelo plano de formação. O plano é que tem de chegar primeiro.

    Fontes

    Eurostat, Use of artificial intelligence in enterprises, série isoc_eb_ai, dados de 2023 a 2025, com desagregação por país e por classe de dimensão de empresa. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Instituto Nacional de Estatística, inquérito à utilização de tecnologias de informação e comunicação nas empresas, dados de 2025 reportados ao Eurostat. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    ManpowerGroup, Employment Outlook Survey, segundo trimestre de 2025, resultados para Portugal. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    ManpowerGroup, Global Talent Shortage Survey 2025, resultados para Portugal. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Comissão Europeia, Programa da Década Digital para 2030, com a meta de 75% de empresas a utilizarem computação em nuvem, análise de dados ou inteligência artificial, e Relatório sobre o Estado da Década Digital. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Nota de origem

    Este artigo reúne e desenvolve três publicações da Advance Station no LinkedIn, entre 19 de maio e 4 de agosto de 2026. O texto foi reescrito para leitura contínua e a base estatística foi alargada a fontes oficiais europeias que as publicações originais não citavam.

    • 19 de maio de 2026 · Lente de Descoberta, sobre o risco competitivo não ser a velocidade da tecnologia.
    • 21 de maio de 2026 · Observatório AS, sobre a recolocação invertida nas pequenas e médias empresas.
    • 4 de agosto de 2026 · Lente de Descoberta, sobre a adoção não esperar pelo plano de formação.
  • A infraestrutura silenciosa do desenvolvimento individual

    A infraestrutura silenciosa do desenvolvimento individual

    Quando uma organização contrata um percurso formativo de doze meses, está a assumir, sem o formular assim, que vai existir daqui a doze meses. Quando estabelece uma parceria de qualificação a três anos, está a assumir três. E quando desenha um plano de desenvolvimento de equipa cujo efeito só aparece no ciclo seguinte, está a apostar num ciclo seguinte.

    Nenhuma destas suposições é irrazoável. Todas são suposições.

    Esta peça olha para a base estatística que as sustenta ou não sustenta, e é a mais desconfortável do arquivo, porque o assunto pertence a quem contrata formação tanto como a quem a vende.

    O quadro, antes da leitura

    Indicador Valor Ano Fonte
    Taxa de natalidade de empresas, Portugal 16,8% 2023 Eurostat
    Posição na União Europeia, natalidade 3.ª entre 27 2023 Eurostat
    Taxa de natalidade, média da União Europeia 10,5% 2023 Eurostat
    Sobrevivência a 3 anos após o nascimento 47,7% 2024 INE
    Sobrevivência a 3 anos, ano anterior 48,9% 2023 INE
    Sobrevivência a 1 ano após o nascimento 73,6% 2023 INE
    Sociedades que cessaram atividade com 5 ou menos anos 40,5% 2024 INE
    Setor com maior peso nas cessações de sociedades jovens Outros serviços, 27,6% 2024 INE
    Sociedades de elevado crescimento 7 801 2024 INE

    Duas linhas deste quadro puxam em sentidos opostos, e é entre elas que está o assunto.

    16,8%
    Natalidade de empresas em Portugal
    10,5%
    Média da União Europeia
    47,7%
    Sobrevivência aos três anos

    Portugal cria empresas como poucos países da Europa

    O primeiro dado é bom e quase nunca aparece nesta conversa.

    Em 2023, a taxa de natalidade de empresas em Portugal foi de 16,8%, a terceira mais alta da União Europeia, atrás apenas da Lituânia, com 19,6%, e de Malta, com 17,1%. A média europeia foi de 10,5%. Em 2022 Portugal tinha sido o segundo, com 16,7%. Em 2021 foi dos quatro primeiros, com 14,4%.

    Não é um acidente de um ano. É um traço estrutural: durante três anos consecutivos, Portugal esteve no topo europeu da criação de empresas, com uma taxa próxima do dobro da média da União.

    Isto contraria a narrativa do país empreendedoramente tímido, e é um dado que merecia mais espaço do que tem. Mas tem uma segunda metade.

    Quantas chegam aos três anos

    Segundo o Instituto Nacional de Estatística, a proporção de empresas que sobrevivem três anos após o nascimento foi de 47,7% em 2024, menos 1,2 pontos do que no ano anterior. Em 2023 tinha sido 48,9%, em 2022 foi 48,5%, e em 2021 foi 49,1%.

    A leitura simples
    De cada duas empresas criadas em Portugal, uma não chega aos três anos.

    A sobrevivência ao primeiro ano é bastante mais alta, 73,6% em 2023, o que localiza o problema com precisão. A mortalidade não se concentra no arranque, concentra-se no segundo e terceiro anos, que é exatamente o período em que um percurso formativo de médio prazo estaria a produzir efeito.

    Uma nota sobre mortalidade, e por que este artigo não a usa

    Há uma armadilha nesta matéria que convém desarmar antes de continuar, porque explica leituras contraditórias que circulam sobre o mesmo país.

    A taxa de mortalidade de empresas em Portugal aparece publicada com valores muito diferentes consoante a fonte, e a razão é o universo. O Instituto Nacional de Estatística, quando reporta sociedades não financeiras, registou uma taxa de mortalidade de 3,1% em 2023 e de 4,1% em 2022. O Eurostat, quando reporta o conjunto da economia empresarial, que inclui empresários em nome individual e um perímetro de atividades diferente, apresenta valores europeus na ordem dos 8,5%.

    A base de medição
    Não são valores em conflito. São indicadores diferentes com o mesmo nome, calculados sobre populações diferentes.

    Por isso este artigo trabalha com taxas de sobrevivência e não com taxas de mortalidade. A sobrevivência a três anos é um indicador menos ambíguo, é publicado pelo INE com série longa e comparável, e responde diretamente à pergunta que interessa a quem contrata: esta organização ainda cá está quando o programa terminar?

    Quem quiser usar mortalidade tem de dizer qual, e de que universo. É trabalho a mais para uma frase de abertura de apresentação, e é provavelmente por isso que quase ninguém o faz.

    Quem morre, e em que setor

    Os dados de 2024 acrescentam um recorte que muda a leitura.

    Das 15 133 sociedades não financeiras que morreram nesse ano, 40,5% tinham cinco ou menos anos de idade. No ano anterior, essa proporção tinha sido de 53,7%. A vulnerabilidade concentra-se, de forma consistente, nos primeiros anos de vida.

    E entre essas sociedades jovens que morreram, a maior fatia estava nos Outros serviços, com 27,6%, seguida do Comércio, com 18,3%, e da Construção e atividades imobiliárias, com 17,1%.

    Retenha-se essa primeira linha. O setor onde morrem mais empresas jovens é o dos serviços, e é nos serviços que vive a maior parte da procura de formação profissional que não é obrigatória: consultoras pequenas, agências, gabinetes técnicos, empresas de software com quinze pessoas, clínicas, estruturas de apoio a outras estruturas.

    O cliente típico de um programa de desenvolvimento de equipa não é uma empresa industrial com quarenta anos e ativo fixo. É frequentemente uma organização de serviços com menos de cinco anos, que está exatamente no intervalo onde a estatística é menos generosa.

    Por que isto é matéria de formação, e não de economia

    Um leitor pode objetar que a demografia empresarial pertence a outra conversa. Não pertence, e o argumento tem três degraus.

    Primeiro degrau
    A formação profissional não é um produto que se entrega e termina. Um percurso de certificação leva meses. Um plano de desenvolvimento de competências de liderança só produz efeito observável depois de um ciclo completo. Uma parceria com uma organização para qualificar equipas leva anos a instalar-se. O tempo é a matéria-prima.
    Segundo degrau
    Todo o efeito da formação depende da continuidade do contexto onde é aplicada. É o resultado mais sólido da investigação sobre transferência, e vimo-lo na peça anterior desta série: o ambiente de trabalho é preditor confirmado de que a aprendizagem se mantém. Um ambiente de trabalho que desaparece não é um ambiente de trabalho pouco favorável. É outra coisa.
    Terceiro degrau
    Quando uma organização fecha, o investimento formativo não desaparece por inteiro, mas divide-se de forma desigual. A parte que ficou certificada acompanha a pessoa. A parte que era prática instalada em contexto perde-se com o contexto. E a parte que era plano por concluir nunca chega a acontecer.
    Consequência
    O horizonte de aplicação de um programa pode ser mais curto do que o horizonte do próprio programa.

    O que muda no desenho

    Se a organização cliente tem uma probabilidade não trivial de não existir daqui a três anos, então há quatro coisas que deixam de ser preferência e passam a ser desenho.

    Certificação parcial, e cedo. Um percurso que só certifica no fim transfere todo o risco de descontinuidade para quem se forma. Um percurso que certifica por módulos entrega valor recuperável em cada etapa. Não é fragmentação pedagógica: é gestão de risco a favor de quem aprende.
    O que se aprende pertence à pessoa, não ao posto. Competências desenhadas para o processo específico de uma organização evaporam-se com essa organização. Competências desenhadas para o exercício de uma função mantêm o valor no empregador seguinte. Ambas são legítimas, e a proporção entre as duas é uma decisão que raramente se toma de forma consciente.
    Ciclos de retorno mais curtos. Um programa que só mostra resultado ao fim de dezoito meses tem de sobreviver a dois orçamentos, a uma eventual mudança de liderança e a um ano difícil. Um programa com pontos de verificação trimestrais dá razões para continuar antes de a razão para parar aparecer.
    Portabilidade do registo. Se a organização fechar, quem se formou deve ficar com prova do que fez, em formato que sirva noutro sítio. Isto é trivial de garantir e quase nunca é garantido, porque o registo costuma viver na plataforma da entidade formadora ou na intranet do cliente.

    O outro lado: as que consolidam

    Uma leitura que ficasse pela sobrevivência seria parcial e injusta com o país, porque há um segmento que faz o contrário.

    Em 2024 existiam em Portugal 7 801 sociedades não financeiras de elevado crescimento, mais 12,3% do que no ano anterior. Correspondem a 13,5% do total de sociedades com dez ou mais pessoas remuneradas. São empresas que, por definição estatística, aumentaram o número de pessoas de forma sustentada ao longo de três anos consecutivos.

    O segmento não só existe como está a crescer. E é um cliente formativo completamente diferente do primeiro.

    Uma organização que ganhou pessoas três anos seguidos tem um problema que a organização em risco não tem: gente nova a chegar mais depressa do que a prática instalada consegue absorver, funções que se criam antes de estarem descritas, e chefias que passaram a chefiar sem transição. É o terreno onde a formação tem maior retorno e onde há orçamento e horizonte para a fazer bem.

    Organização jovem em consolidação incerta O valor está na certificação portável, na modularidade e nos ciclos curtos.
    Organização em crescimento sustentado O valor está na estruturação: descrever funções, formar quem passou a chefiar e instalar prática antes que a improvisação se torne cultura.

    A conclusão prática é que o mercado formativo português não é um mercado, são pelo menos dois, e o desenho que serve um serve mal o outro.

    Vender o mesmo programa aos dois é o erro mais comum do setor, e o mais caro para quem compra.

    Solidez como condição, não como consequência

    Há uma inversão nesta matéria que vale a pena tornar explícita, e que dá título à Carta de Navegação que está na origem deste artigo.

    A leitura comum trata a solidez financeira como consequência de fazer as coisas bem: uma organização que trabalha bem torna-se sólida com o tempo. É verdade e é insuficiente.

    Na formação de longo prazo, a solidez como condição é também o que permite manter um programa em curso durante um mau trimestre, honrar um compromisso de acompanhamento que não gera receita imediata, e não interromper uma parceria porque a tesouraria apertou.

    Uma entidade formadora frágil não falha de forma dramática: falha de forma discreta, deixando cair o acompanhamento pós-formação, que é justamente a parte que a investigação identifica como determinante e que ninguém audita.

    Isto aplica-se aos dois lados da mesa. Vale para quem forma e vale para quem contrata, e é por isso que a pergunta sobre continuidade é legítima em qualquer das direções.

    O que os dados não permitem concluir

    Três limites, e são importantes.

    A sobrevivência não mede sucesso. A sobrevivência a três anos mede a permanência da unidade estatística, e não o sucesso da atividade. Uma empresa pode encerrar por venda, por fusão, por reestruturação ou porque quem a criou passou a outra coisa com melhores condições. Nem toda a morte estatística é fracasso.
    O setor formativo não está isolado nestes dados. Os recortes setoriais referem-se a sociedades não financeiras e às categorias de atividade do INE. A formação profissional não constitui categoria autónoma nestes recortes, pelo que a leitura sobre serviços é de enquadramento e não uma medição do setor formativo.
    Os dados não demonstram causalidade. Nada nestes dados estabelece relação causal entre demografia empresarial e resultados de formação. O que se estabelece é uma condição de contexto, com base estatística, que o desenho de programas deveria considerar e habitualmente não considera. A ligação entre as duas coisas é leitura desta casa, e fica declarada como leitura.

    O que isto significa, conforme quem lê

    Para quem desenha programas. O horizonte de aplicação pode ser mais curto do que o do percurso, sobretudo em clientes de serviços com poucos anos. Certificar por módulos e desenhar para a função em vez de para o processo interno são decisões de desenho, não concessões.
    Para quem contrata formação. A continuidade da entidade formadora é parte do que se contrata e pode perguntar-se. E a continuidade da própria organização é variável do retorno esperado, o que aconselha ciclos de verificação mais curtos do que o ciclo do programa.
    Para quem define política. Financiar formação sem olhar à demografia empresarial é financiar metade do problema. Um país que cria empresas ao dobro da média europeia e vê pouco menos de metade chegar aos três anos tem, na estabilização dessas empresas, um multiplicador do efeito de tudo o resto que financia.
    Leitura da casa

    A leitura da casa

    Portugal tem um problema que raramente é enunciado assim: não é um país que crie poucas empresas, é um país onde muitas das que se criam não duram o suficiente para acumular nada, incluindo competência.

    A formação é uma das coisas que se acumula, e acumula-se devagar. Precisa de contexto que dure, de alguém que observe a aplicação, e de um ciclo seguinte onde o que se aprendeu se volte a usar. Nada disso existe numa organização que fecha ao segundo ano.

    Não propomos que quem forma resolva a demografia empresarial portuguesa, o que seria absurdo. Propomos que a considere no desenho, que é o que está ao alcance, e que a nomeie na conversa com quem contrata, em vez de a deixar como pressuposto silencioso de ambos os lados.

    É a isso que chamamos infraestrutura silenciosa. Não aparece em nenhuma proposta, não consta de nenhum referencial, e decide mais resultados do que a maioria das escolhas pedagógicas que se discutem em cima dela.

    Fontes

    Instituto Nacional de Estatística, Empresas em Portugal, Demografia das Empresas, edições relativas a 2021, 2022, 2023 e 2024, com taxas de natalidade, mortalidade e sobrevivência, e recorte por idade e setor das sociedades que cessaram atividade. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Eurostat, Business demography statistics, com as taxas de natalidade e de mortalidade de empresas na União Europeia e nos Estados-Membros, dados de 2021 a 2023, série bd_size. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Nota de origem

    Este artigo desenvolve uma publicação da Advance Station no LinkedIn, de 5 de maio de 2026, a Carta de Navegação sobre a solidez como condição das políticas de desenvolvimento de longo prazo. O texto foi reescrito para leitura contínua e a base estatística foi refeita a partir das fontes primárias, com indicadores atualizados e com um valor da publicação original substituído por não ter sido possível confirmá-lo na fonte citada.

  • Diário do Capitão N.º 01 · Solidez

    Diário do Capitão N.º 01 · Solidez

    Esta edição foi anunciada a 8 de maio e sai hoje. A demora é minha e fica registada. Vamos ao assunto.

    A Advance Station foi distinguida pelo IAPMEI com o Estatuto PME Líder 2025. Escrevo sobre isso não pelo que a distinção diz de nós, que é pouco e é previsível, mas pelo que a mecânica dela diz sobre uma palavra que andou fora de moda durante uma década e voltou a ser estratégica.

    A palavra
    A palavra é solidez.

    O que este selo é, e quem o atribui

    Convém começar pela mecânica, porque é aí que está o que interessa.

    O Estatuto PME Líder não se conquista com uma candidatura em que a empresa conta a sua própria história. Funciona ao contrário. São os bancos parceiros que identificam as empresas que cumprem os critérios e as propõem ao IAPMEI, com base nas notações de rating e nos indicadores económico-financeiros de que dispõem. Treze bancos a operar em Portugal, mais as sociedades de garantia mútua, mais o Grupo Banco Português de Fomento, mais o Turismo de Portugal quando o setor é esse.

    Aos critérios de acesso somam-se condições que não admitem interpretação: ter certificação de PME, situação regularizada perante a Autoridade Tributária, a Segurança Social e a Central de Responsabilidades de Crédito do Banco de Portugal, e não estar em processo de reestruturação financeira nem de insolvência.

    Em linguagem simples
    O que isto significa em linguagem simples é que a avaliação foi feita por quem empresta dinheiro e perde dinheiro se se enganar. Não é um prémio de reputação atribuído por júri, é uma leitura de risco feita por quem tem exposição ao resultado dessa leitura. É uma categoria de prova diferente, e é mais dura.

    Catorze mil cento e trinta e três

    O IAPMEI atribuiu o Estatuto PME Líder 2025 a 14 133 empresas. Somadas, tiveram um volume de negócios superior a 63 mil milhões de euros, exportações acima de 10 mil milhões, e são responsáveis por mais de 445 mil postos de trabalho.

    14 133
    empresas distinguidas
    +63 mil M€
    volume de negócios
    +445 mil
    postos de trabalho

    Escrevo o número por extenso na primeira vez de propósito, porque ele corrige a tentação natural de quem recebe uma distinção. Ser uma entre catorze mil e cento e trinta e três não é excecional. É estar dentro de um conjunto, e o conjunto é grande.

    Isso não desvaloriza nada. Muda a pergunta. A pergunta deixa de ser «o que é que isto diz de nós» e passa a ser «o que é que este conjunto tem em comum», que é uma pergunta com resposta pública e verificável.

    O conjunto é composto sobretudo por pequenas empresas, 72,5% do total, com 21,7% de médias e 5,8% de microempresas. Distribui-se pelo Comércio, com 30,4%, pela Indústria, com 24,4%, pela Construção e imobiliário, pelos Serviços e pelo Turismo. Está concentrado em Lisboa, com 20,3%, e no Porto, com 18,5%.

    Vale a pena reter uma linha desta distribuição. Os Serviços representam 12,9% do conjunto, o que os coloca atrás do Comércio, da Indústria e da Construção. A formação vive dentro dessa fatia, e é uma fatia pequena de um universo onde o critério de avaliação foi construído a pensar sobretudo em quem tem existências, ativo fixo e ciclo de tesouraria clássico. Cumprir o critério com um balanço de serviços, onde o principal ativo sai porta fora todos os dias às seis da tarde, é um exercício diferente.

    E tem um indicador que interessa mais do que todos os outros.

    O número que interessa

    60,4%
    Autonomia financeira média das PME Líder 2025
    Autonomia financeira é a proporção do ativo que é financiada por capitais próprios em vez de dívida. Sessenta por cento significa que, em média, estas empresas suportam mais de metade do que têm com o que é seu.

    É o número mais aborrecido do apuramento e é o único que descreve solidez em sentido próprio. As vendas cresceram 5,9%, as exportações 5,7%, o EBITDA passou dos 8,8 mil milhões. Todos esses indicadores dizem que o ano correu bem. A autonomia financeira diz outra coisa: diz o que acontece quando o ano corre mal.

    Uma empresa com autonomia financeira baixa e crescimento alto é uma empresa que depende de tudo continuar a correr como está. Uma empresa com autonomia financeira alta e crescimento moderado atravessa um mau ano sem ter de decidir entre pagar salários e pagar juros.

    Durante quase uma década, entre a saída da crise e a subida das taxas, a conversa empresarial portuguesa privilegiou o crescimento e tratou a solidez como conservadorismo, quase como falta de ambição. A subida do custo do dinheiro devolveu à palavra o seu significado antigo, que é aguentar.

    Há uma consequência prática desta mudança que ainda não chegou à conversa pública com a clareza devida. Quando o dinheiro era barato, uma estrutura financeira frágil custava pouco e o crescimento comprava tempo. Quando o dinheiro encarece, a mesma estrutura passa a custar decisões: adia-se investimento, corta-se onde é mais fácil cortar, e a formação está quase sempre onde é mais fácil cortar. A fragilidade financeira de um fornecedor de formação não se manifesta como falência, manifesta-se como um programa que perde acompanhamento a meio e ninguém explica porquê.

    Por que isto pertence a esta publicação

    Um leitor razoável pode perguntar o que faz uma conversa sobre autonomia financeira numa publicação sobre formação e desenvolvimento individual.

    Faz o seguinte.

    Um programa formativo é um compromisso que se estende no tempo. Um percurso de certificação leva meses. Uma parceria com uma escola ou com um município leva anos. Um plano de desenvolvimento de equipa só produz efeito depois de o ciclo fechar. Nada disto é um serviço que se entrega e termina.

    Quem confia um compromisso desses a uma instituição está, sem o formular assim, a fazer uma aposta na continuidade dessa instituição. E a continuidade não se prova com testemunhos nem com anos de casa: prova-se com a estrutura que permite atravessar um mau ano sem interromper o que está em curso.

    Em Portugal, isto não é uma preocupação abstrata. Apenas cerca de metade das empresas portuguesas chega aos três anos de atividade, e a demografia empresarial é a condição silenciosa de que quase nunca se fala quando se discute formação. Vamos voltar a este ponto com dados próprios numa das próximas peças do Roteiro.

    Trinta e três anos de atividade, certificação DGERT e um perfil de risco avaliado por terceiros não são argumentos de venda. São a resposta a uma pergunta que quem contrata formação de longo prazo tem o direito de fazer e raramente faz em voz alta.

    Três perguntas que quem contrata formação devia fazer

    Se a continuidade da instituição é parte do que se contrata, então há três perguntas que pertencem à conversa e quase nunca aparecem nela. Deixo-as escritas, e deixo-as sabendo que se aplicam a esta casa tanto como às outras.

    01
    Há quanto tempo existe, e com que forma jurídica? Não pela nostalgia dos anos de casa, mas porque a duração é a única evidência disponível de que a estrutura já atravessou pelo menos um ciclo mau. Uma entidade constituída depois de 2021 nunca operou com dinheiro caro.
    02
    Quem avaliou os seus indicadores, além dela própria? Certificações setoriais dizem o que a entidade cumpre. Avaliações financeiras de terceiros dizem o que a entidade aguenta. São coisas diferentes e ambas se podem pedir.
    03
    O que acontece ao programa se a pessoa que o coordena sair? É a pergunta mais desconfortável das três e é a que separa uma instituição de um conjunto de pessoas com um nome comum. A resposta honesta envolve documentação, substituição prevista e alguém que assine pela continuidade, e não envolve garantias.

    Nenhuma destas perguntas se responde com um selo. O selo é apenas o sinal de que a segunda tem resposta.

    O que a distinção não prova

    Devo dizer o que este selo não diz, porque a regra desta casa aplica-se também quando o dado nos favorece.

    Não diz nada sobre a qualidade pedagógica do que fazemos. Os critérios são económico-financeiros e de conformidade, e não avaliam uma sessão, um programa ou o resultado de quem se forma. Uma empresa pode ter uma autonomia financeira exemplar e formação medíocre.
    Não é uma comparação entre pares do setor. As 14 133 empresas atravessam todos os setores e a maioria não tem nada que ver com formação.
    E não é um estado permanente. O estatuto tem ciclo anual e renova-se ou não se renova consoante os indicadores do ano. Escrever sobre ele em 2026 como se fosse um atributo da casa seria exatamente o tipo de leitura que esta publicação existe para não fazer.

    A prova pedagógica é outra e faz-se noutro sítio. Faz-se publicando resultados de avaliação, taxas de conclusão e o que ficou abaixo do previsto, que é trabalho que corre em paralelo noutra frente do grupo e não neste texto.

    O que esta publicação vai ser

    Uma vez por mês, na primeira sexta-feira útil. Texto curto, voz pessoal, sem ornamento, como ficou dito em maio.

    Cada edição vai cumprir quatro coordenadas. Uma síntese do que aconteceu de relevante no setor. Um movimento que importou e que merece mais espaço do que cabe num post. A leitura da casa, declarada como leitura e não como facto. E o horizonte, ou seja, o que estamos a observar para o mês seguinte.

    O que esta publicação não vai ser: um boletim de novidades da empresa, um espaço de autoelogio, ou um sítio onde se afirma sem mostrar a base. Se um mês não tiver nada que justifique mil e quinhentas palavras, o texto será mais curto, e se não tiver nada mesmo, não sai.

    Prefiro uma edição em falta a uma edição vazia. Depois de três meses de atraso nesta primeira, é uma frase que fica sob observação, e assim deve ser.

    Até à próxima.

    João Dias Direção Criativa, Advance Station

    Fontes

    IAPMEI, Conheça as PME Líder’25, com o apuramento de 14 133 empresas distinguidas, distribuição setorial, dimensão, geografia e indicadores económico-financeiros. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    IAPMEI, Regulamento dos Estatutos PME Líder e PME Excelência 2025, com os critérios de acesso, as condições de conformidade e a lista de bancos parceiros. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Nota de origem

    Esta edição foi anunciada na página da Advance Station no LinkedIn a 8 de maio de 2026, com o tema e a cadência já fixados, e não chegou a ser publicada. Sai agora, com o tema anunciado e a data real de publicação. Não se retrodata.

  • Transmitir e desenvolver não são a mesma coisa

    Transmitir e desenvolver não são a mesma coisa

    Há um momento que distingue a formação que importa da formação que apenas acontece. É o momento em que o curso acaba.

    Quando o último módulo termina e o certificado é assinado, boa parte das entidades formadoras considera o trabalho feito. A leitura desta casa é diferente, e começa exatamente aí: a formação que importa não termina quando o curso acaba, começa quando quem se formou regressa ao trabalho e toma uma decisão de outra maneira.

    Isto lê-se facilmente como declaração de intenções, do género que qualquer entidade formadora assina sem esforço. Não é. É uma afirmação sobre um fenómeno que tem quarenta anos de investigação, um nome próprio e resultados suficientemente consistentes para orientar decisões concretas de desenho. Chama-se transferência da formação, e vale a pena olhar para o que se sabe sobre ela antes de continuar.

    O número mais citado do setor não tem estudo por trás

    Quem trabalha em formação já ouviu, provavelmente mais do que uma vez, que apenas 10% do que se aprende em sala se traduz em mudança de comportamento no trabalho. É um número com uma carreira notável: aparece em apresentações, em propostas comerciais, em artigos de opinião e em programas de conferência.

    Seguindo as referências até à raiz, chega-se sempre ao mesmo sítio: um artigo de David Georgenson publicado em 1982 na Training and Development Journal. E aí encontra-se o seguinte. O autor não estava a apresentar resultados de estudo nenhum. Estava a formular, em discurso direto e entre aspas, o que ouvia dizer aos responsáveis de formação, e a acrescentar uma estimativa pessoal. O artigo não cita investigação, porque não havia investigação a citar. O autor era, à data, responsável de desenvolvimento de produto numa empresa de sistemas de aprendizagem.

    O rastreio desta origem foi feito e publicado por vários autores, entre os quais Fitzpatrick e Thalheimer. Quatro décadas depois, o número continua em circulação, e continua a ser aquilo que sempre foi: uma estimativa de circunstância, transformada em facto por repetição.

    Um dado conveniente continua a precisar de base
    Escrevemos isto com algum incómodo, porque é um número que serve a argumentação de quem vende formação diferente, e portanto serve-nos. Um argumento que assenta num dado sem base não é um argumento melhor por ser conveniente.

    O que a investigação diz mesmo

    A medição séria da transferência existe e dá outro retrato.

    O estudo de referência é de Alan Saks e Monica Belcourt, publicado em 2006 na Human Resource Management. Recolheu dados junto de profissionais de formação de 150 organizações, e reporta três valores em vez de um: 62% de aplicação no trabalho imediatamente após a formação, 44% ao fim de seis meses, 34% ao fim de um ano.

    62%
    Imediatamente após a formação
    44%
    Ao fim de seis meses
    34%
    Ao fim de um ano
    Fonte: Saks e Belcourt, Human Resource Management, 2006. Estimativa de profissionais de formação de 150 organizações.
    O número que interessa
    O número que interessa não é o 62%. É a curva.

    Mais de seis em cada dez pessoas aplicam o que aprenderam, o que desmente por completo a ideia de que a formação não chega ao trabalho. Mas quase metade dessa aplicação desaparece em doze meses, sem que nada tenha acontecido a não ser a passagem do tempo e o regresso à rotina. O problema não é de aquisição. É de manutenção.

    Isto muda o sítio onde é preciso intervir. Se a falha estivesse na aquisição, a resposta seria melhorar a sala: melhores formadores, melhores materiais, melhor avaliação final. Como a falha está na manutenção, a resposta está no que acontece depois, e o depois quase nunca faz parte do programa.

    Convém dizer o que este estudo não é. Os valores resultam de estimativa de profissionais de formação sobre as suas próprias organizações, e não de observação direta de comportamento. É autorrelato de quem tem interesse profissional no resultado, com todas as cautelas que isso exige. E é um estudo canadiano de 2006. Serve para mostrar a forma da curva, não para fixar o valor exato em Portugal em 2026.

    Onde está o determinante, e não é onde se procura

    A pergunta seguinte é o que faz a diferença entre quem mantém a aplicação e quem a perde.

    A resposta mais sólida vem de uma meta-análise de Brian Blume, Kevin Ford, Timothy Baldwin e Jason Huang, publicada em 2010 no Journal of Management, que reuniu 89 estudos empíricos sobre transferência. Os resultados confirmam relação positiva entre transferência e quatro grupos de fatores: capacidade cognitiva, conscienciosidade, motivação, e um ambiente de trabalho de apoio.

    O quarto é o que interessa a quem desenha, porque é o único que uma entidade formadora pode ajudar a construir e é o único que quase nunca aparece na proposta.

    A arrumação clássica destes fatores é anterior e vem de Baldwin e Ford, em 1988: as condições da transferência dividem-se em características de quem aprende, desenho da formação, e ambiente de trabalho. Três grupos. A prática do setor concentra-se quase inteiramente no segundo, avalia sobretudo o primeiro, e trata o terceiro como problema do cliente.

    O contexto europeu e português

    A investigação sobre transferência é internacional e sobretudo anglo-saxónica. Vale a pena olhar para o que os dados europeus dizem sobre o terreno onde ela se aplicaria.

    O Inquérito à Formação Profissional Contínua nas Empresas, o CVTS do Eurostat, tem cadência quinquenal e a edição mais recente reporta-se a 2020. Nesse ano, 67,4% das empresas da União Europeia com dez ou mais pessoas ao serviço proporcionaram formação profissional contínua ao seu pessoal, valor abaixo dos 70,5% de 2015. Entre 2015 e 2020, apenas em dois países aumentou a proporção de empresas que financiam formação: Itália, com mais 8,7 pontos, e Portugal, com mais 0,6.

    Convém enquadrar antes de celebrar. O ano de referência é 2020, marcado pela pandemia e pelos confinamentos, e a queda europeia é em boa parte explicada por isso. Que Portugal tenha subido num ano em que quase toda a Europa desceu é facto, e é facto sobre resiliência da oferta e não sobre a sua qualidade.

    Há uma segunda linha destes dados que interessa mais à questão da transferência. Em 2020, participaram em cursos financiados pelo empregador 42,4% das pessoas ao serviço no conjunto das empresas europeias, mas apenas 27,5% nas pequenas empresas, com dez a quarenta e nove pessoas. E a proporção de empresas que proporcionam formação varia de 92,8% nas grandes para 63,5% nas pequenas.

    Isto liga-se diretamente ao que a meta-análise identificou. Se o determinante da manutenção é o ambiente de trabalho de apoio, e se a pequena empresa é onde há menos estrutura formal de acompanhamento, então o défice não está apenas no acesso à formação. Está também na condição que faz a formação durar depois de acontecer. Uma organização de doze pessoas não tem departamento de formação, não tem plano de acompanhamento e não tem quem observe a aplicação. Tem, quase sempre, quem chefia, e é aí que a intervenção tem de ser desenhada.

    A distinção que a meta-análise acrescenta

    Há um resultado nesta meta-análise que raramente é citado e que sustenta, com evidência, aquilo que esta casa vinha a dizer por convicção.

    Os fatores preditores da transferência, incluindo a motivação e o ambiente de trabalho, têm relação mais forte com a transferência quando a formação incide sobre competências abertas do que quando incide sobre competências fechadas.

    Competência fechada Existe uma forma correta de fazer: operar um equipamento, aplicar um procedimento, preencher um formulário.
    Competência aberta A aplicação depende do julgamento de quem a exerce: conduzir uma reunião difícil, decidir uma prioridade, dar uma notícia má a uma equipa.

    Para as competências fechadas, um bom curso quase basta. Para as competências abertas, o curso é a parte pequena, e o contexto de aplicação é a parte grande. É por isso que programas de liderança avaliados com nota máxima produzem tão pouca mudança visível: não é o programa que falha, é o desenho que termina onde o problema começa.

    E é exatamente aqui que a distinção entre transmitir e desenvolver deixa de ser uma preferência de vocabulário.

    Ensino e desenvolvimento, com definição

    O ensino transmite. O desenvolvimento prepara.
    O ensino entrega conteúdo. O desenvolvimento muda o que a pessoa consegue fazer no dia seguinte.
    O ensino mede-se em horas frequentadas. O desenvolvimento mede-se em decisões diferentes.

    Ambos são necessários e nenhum é superior ao outro em abstrato. Uma competência fechada aprende-se por transmissão, e é assim que deve ser: ninguém quer que a operação de um equipamento de segurança dependa do julgamento pessoal de quem o opera. O que não funciona é aplicar o desenho da transmissão a uma competência aberta, e depois medir o resultado com o instrumento da transmissão.

    A decisão observável como unidade de medida

    Se o desenvolvimento se mede em decisões diferentes, então é preciso saber, antes de desenhar, qual é a decisão.

    Uma decisão observável tem três propriedades.

    Acontece fora da sala. Num momento identificável do trabalho de quem se formou.
    É reconhecível por terceiros. Alguém que não esteve na formação consegue notar que foi tomada de outra maneira.
    É repetível. Volta a apresentar-se com frequência suficiente para que a mudança tenha consequência.
    A diferença prática
    «Compreender os princípios da delegação» não é uma decisão observável. «Distribuir o trabalho da equipa na reunião de segunda-feira» é.

    A diferença não é de redação. Quem desenha a partir da primeira formulação constrói uma sessão sobre princípios de delegação e avalia com um questionário. Quem desenha a partir da segunda tem de saber como corre a reunião de segunda-feira, o que impede hoje a distribuição de correr melhor, e o que teria de mudar no contexto para que a nova forma resistisse ao terceiro mês. São dois programas diferentes, com o mesmo título.

    O que isto não é

    Não é a avaliação de reação. Perguntar no fim se as pessoas gostaram mede satisfação, que é informação útil sobre a experiência e não é informação nenhuma sobre a aplicação.
    Não é a avaliação de conhecimento. Um teste no fim da última sessão mede o que ficou retido naquele momento, com o conteúdo ainda fresco e o contexto ainda presente. É o pior momento possível para prever o que acontece ao fim de seis meses, que é precisamente quando a curva de Saks e Belcourt já perdeu um terço.
    E não é uma promessa de resultado. Nada nisto garante que um programa mude comportamento. Garante apenas que um programa desenhado a partir da decisão tem uma hipótese, e um programa desenhado a partir do conteúdo não a tem.

    Um objetivo reescrito

    Vale a pena ver a diferença aplicada.

    Formulação de conteúdo
    «No final do módulo, os participantes conhecerão as principais técnicas de feedback construtivo.»
    Formulação de decisão
    «No final do módulo, quem participa conduz a primeira conversa de feedback difícil que tiver pendente, dentro de duas semanas, e traz o registo do que correu bem e mal para a sessão de acompanhamento.»

    A segunda formulação obriga a três coisas que a primeira dispensa. Obriga a saber que existe uma conversa pendente, o que exige diagnóstico antes de desenhar. Obriga a prever uma sessão de acompanhamento, o que altera a estrutura e o custo do programa. E obriga a envolver quem chefia, porque a conversa acontece dentro da organização e não dentro da sala.

    É mais trabalho. É também a diferença entre os 62% e os 34%.

    O que isto significa, conforme quem lê

    Para quem desenha programas. O ambiente de trabalho é preditor confirmado da transferência e quase nunca entra no desenho. Um programa sobre competências abertas que não inclua acompanhamento pós-formação e envolvimento de quem chefia está a entregar a parte pequena do problema.
    Para quem contrata formação. A pergunta a fazer a uma proposta não é o que o programa contém, é o que acontece nas doze semanas seguintes ao fim das sessões. Se a resposta for «um inquérito de satisfação», a proposta está a medir a parte que decai menos e a ignorar a que decai mais.
    Para quem define política. Os indicadores de participação e de conclusão não captam manutenção. Um sistema pode subir os dois e não mexer no terceiro, e o terceiro é o que produz efeito económico.
    Posição da casa

    A posição da casa

    Isto é a posição de uma entidade formadora sobre o seu próprio trabalho, e fica declarada como posição e não como resultado.

    O trabalho real do desenvolvimento individual não é a transmissão, é a transformação. Não é o evento, é o trajeto. Foi por isso que escolhemos o nome Advance Station, com Individual Development por baixo, e trinta anos depois continua a ser por isso.

    A consequência prática desta posição é desconfortável para quem a assume, e é justo dizê-lo. Significa que um programa não termina quando a sala se esvazia, que o desenho tem de incluir o que a entidade formadora não controla, e que a medição honesta vai revelar, mais vezes do que agrada, que a curva desceu. Uma casa que decide medir o que acontece depois vai encontrar números piores do que a casa que decide medir a satisfação no fim.

    Preferimos os piores. São os únicos que dizem alguma coisa.

    Fontes

    Georgenson, D. L. (1982). «The problem of transfer calls for partnership». Training and Development Journal, 36(10). Origem da estimativa de 10%, apresentada pelo autor como estimativa pessoal e sem investigação citada. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Saks, A. M. e Belcourt, M. (2006). «An investigation of training activities and transfer of training in organizations». Human Resource Management, 45(4), 629-648. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Blume, B. D., Ford, J. K., Baldwin, T. T. e Huang, J. L. (2010). «Transfer of Training: A Meta-Analytic Review». Journal of Management, 36(4), 1065-1105. Meta-análise de 89 estudos empíricos. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Eurostat, Statistics on continuing vocational training in enterprises, Inquérito à Formação Profissional Contínua nas Empresas (CVTS), dados de 2020. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Cedefop, indicadores sobre formação profissional contínua nas empresas, com base no CVTS do Eurostat. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Baldwin, T. T. e Ford, J. K. (1988). «Transfer of training: A review and directions for future research». Personnel Psychology, 41(1), 63-105. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Nota de origem

    Este artigo reúne e desenvolve três publicações da Advance Station no LinkedIn, entre 30 de abril e 23 de junho de 2026. O texto foi reescrito para leitura contínua e a base empírica é nova: as peças originais apresentavam a distinção como posição editorial, sem fonte.

    • 30 de abril de 2026 · Diário de Bordo, edição inaugural, sobre o momento em que o curso acaba.
    • 1 de maio de 2026 · Lente de Descoberta, edição inaugural, sobre o que distingue ensino de desenvolvimento.
    • 23 de junho de 2026 · Lente de Descoberta, sobre a formação que muda o que se faz a seguir.