ROTEIRO

A infraestrutura silenciosa do desenvolvimento individual

Portugal cria empresas como poucos países na Europa. Pouco menos de metade chega aos três anos. Nenhuma proposta de formação de longo prazo faz a conta a isto, e devia.

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10min de leitura

Quando uma organização contrata um percurso formativo de doze meses, está a assumir, sem o formular assim, que vai existir daqui a doze meses. Quando estabelece uma parceria de qualificação a três anos, está a assumir três. E quando desenha um plano de desenvolvimento de equipa cujo efeito só aparece no ciclo seguinte, está a apostar num ciclo seguinte.

Nenhuma destas suposições é irrazoável. Todas são suposições.

Esta peça olha para a base estatística que as sustenta ou não sustenta, e é a mais desconfortável do arquivo, porque o assunto pertence a quem contrata formação tanto como a quem a vende.

O quadro, antes da leitura

Indicador Valor Ano Fonte
Taxa de natalidade de empresas, Portugal 16,8% 2023 Eurostat
Posição na União Europeia, natalidade 3.ª entre 27 2023 Eurostat
Taxa de natalidade, média da União Europeia 10,5% 2023 Eurostat
Sobrevivência a 3 anos após o nascimento 47,7% 2024 INE
Sobrevivência a 3 anos, ano anterior 48,9% 2023 INE
Sobrevivência a 1 ano após o nascimento 73,6% 2023 INE
Sociedades que cessaram atividade com 5 ou menos anos 40,5% 2024 INE
Setor com maior peso nas cessações de sociedades jovens Outros serviços, 27,6% 2024 INE
Sociedades de elevado crescimento 7 801 2024 INE

Duas linhas deste quadro puxam em sentidos opostos, e é entre elas que está o assunto.

16,8%
Natalidade de empresas em Portugal
10,5%
Média da União Europeia
47,7%
Sobrevivência aos três anos

Portugal cria empresas como poucos países da Europa

O primeiro dado é bom e quase nunca aparece nesta conversa.

Em 2023, a taxa de natalidade de empresas em Portugal foi de 16,8%, a terceira mais alta da União Europeia, atrás apenas da Lituânia, com 19,6%, e de Malta, com 17,1%. A média europeia foi de 10,5%. Em 2022 Portugal tinha sido o segundo, com 16,7%. Em 2021 foi dos quatro primeiros, com 14,4%.

Não é um acidente de um ano. É um traço estrutural: durante três anos consecutivos, Portugal esteve no topo europeu da criação de empresas, com uma taxa próxima do dobro da média da União.

Isto contraria a narrativa do país empreendedoramente tímido, e é um dado que merecia mais espaço do que tem. Mas tem uma segunda metade.

Quantas chegam aos três anos

Segundo o Instituto Nacional de Estatística, a proporção de empresas que sobrevivem três anos após o nascimento foi de 47,7% em 2024, menos 1,2 pontos do que no ano anterior. Em 2023 tinha sido 48,9%, em 2022 foi 48,5%, e em 2021 foi 49,1%.

A leitura simples
De cada duas empresas criadas em Portugal, uma não chega aos três anos.

A sobrevivência ao primeiro ano é bastante mais alta, 73,6% em 2023, o que localiza o problema com precisão. A mortalidade não se concentra no arranque, concentra-se no segundo e terceiro anos, que é exatamente o período em que um percurso formativo de médio prazo estaria a produzir efeito.

Uma nota sobre mortalidade, e por que este artigo não a usa

Há uma armadilha nesta matéria que convém desarmar antes de continuar, porque explica leituras contraditórias que circulam sobre o mesmo país.

A taxa de mortalidade de empresas em Portugal aparece publicada com valores muito diferentes consoante a fonte, e a razão é o universo. O Instituto Nacional de Estatística, quando reporta sociedades não financeiras, registou uma taxa de mortalidade de 3,1% em 2023 e de 4,1% em 2022. O Eurostat, quando reporta o conjunto da economia empresarial, que inclui empresários em nome individual e um perímetro de atividades diferente, apresenta valores europeus na ordem dos 8,5%.

A base de medição
Não são valores em conflito. São indicadores diferentes com o mesmo nome, calculados sobre populações diferentes.

Por isso este artigo trabalha com taxas de sobrevivência e não com taxas de mortalidade. A sobrevivência a três anos é um indicador menos ambíguo, é publicado pelo INE com série longa e comparável, e responde diretamente à pergunta que interessa a quem contrata: esta organização ainda cá está quando o programa terminar?

Quem quiser usar mortalidade tem de dizer qual, e de que universo. É trabalho a mais para uma frase de abertura de apresentação, e é provavelmente por isso que quase ninguém o faz.

Quem morre, e em que setor

Os dados de 2024 acrescentam um recorte que muda a leitura.

Das 15 133 sociedades não financeiras que morreram nesse ano, 40,5% tinham cinco ou menos anos de idade. No ano anterior, essa proporção tinha sido de 53,7%. A vulnerabilidade concentra-se, de forma consistente, nos primeiros anos de vida.

E entre essas sociedades jovens que morreram, a maior fatia estava nos Outros serviços, com 27,6%, seguida do Comércio, com 18,3%, e da Construção e atividades imobiliárias, com 17,1%.

Retenha-se essa primeira linha. O setor onde morrem mais empresas jovens é o dos serviços, e é nos serviços que vive a maior parte da procura de formação profissional que não é obrigatória: consultoras pequenas, agências, gabinetes técnicos, empresas de software com quinze pessoas, clínicas, estruturas de apoio a outras estruturas.

O cliente típico de um programa de desenvolvimento de equipa não é uma empresa industrial com quarenta anos e ativo fixo. É frequentemente uma organização de serviços com menos de cinco anos, que está exatamente no intervalo onde a estatística é menos generosa.

Por que isto é matéria de formação, e não de economia

Um leitor pode objetar que a demografia empresarial pertence a outra conversa. Não pertence, e o argumento tem três degraus.

Primeiro degrau
A formação profissional não é um produto que se entrega e termina. Um percurso de certificação leva meses. Um plano de desenvolvimento de competências de liderança só produz efeito observável depois de um ciclo completo. Uma parceria com uma organização para qualificar equipas leva anos a instalar-se. O tempo é a matéria-prima.
Segundo degrau
Todo o efeito da formação depende da continuidade do contexto onde é aplicada. É o resultado mais sólido da investigação sobre transferência, e vimo-lo na peça anterior desta série: o ambiente de trabalho é preditor confirmado de que a aprendizagem se mantém. Um ambiente de trabalho que desaparece não é um ambiente de trabalho pouco favorável. É outra coisa.
Terceiro degrau
Quando uma organização fecha, o investimento formativo não desaparece por inteiro, mas divide-se de forma desigual. A parte que ficou certificada acompanha a pessoa. A parte que era prática instalada em contexto perde-se com o contexto. E a parte que era plano por concluir nunca chega a acontecer.
Consequência
O horizonte de aplicação de um programa pode ser mais curto do que o horizonte do próprio programa.

O que muda no desenho

Se a organização cliente tem uma probabilidade não trivial de não existir daqui a três anos, então há quatro coisas que deixam de ser preferência e passam a ser desenho.

Certificação parcial, e cedo. Um percurso que só certifica no fim transfere todo o risco de descontinuidade para quem se forma. Um percurso que certifica por módulos entrega valor recuperável em cada etapa. Não é fragmentação pedagógica: é gestão de risco a favor de quem aprende.
O que se aprende pertence à pessoa, não ao posto. Competências desenhadas para o processo específico de uma organização evaporam-se com essa organização. Competências desenhadas para o exercício de uma função mantêm o valor no empregador seguinte. Ambas são legítimas, e a proporção entre as duas é uma decisão que raramente se toma de forma consciente.
Ciclos de retorno mais curtos. Um programa que só mostra resultado ao fim de dezoito meses tem de sobreviver a dois orçamentos, a uma eventual mudança de liderança e a um ano difícil. Um programa com pontos de verificação trimestrais dá razões para continuar antes de a razão para parar aparecer.
Portabilidade do registo. Se a organização fechar, quem se formou deve ficar com prova do que fez, em formato que sirva noutro sítio. Isto é trivial de garantir e quase nunca é garantido, porque o registo costuma viver na plataforma da entidade formadora ou na intranet do cliente.

O outro lado: as que consolidam

Uma leitura que ficasse pela sobrevivência seria parcial e injusta com o país, porque há um segmento que faz o contrário.

Em 2024 existiam em Portugal 7 801 sociedades não financeiras de elevado crescimento, mais 12,3% do que no ano anterior. Correspondem a 13,5% do total de sociedades com dez ou mais pessoas remuneradas. São empresas que, por definição estatística, aumentaram o número de pessoas de forma sustentada ao longo de três anos consecutivos.

O segmento não só existe como está a crescer. E é um cliente formativo completamente diferente do primeiro.

Uma organização que ganhou pessoas três anos seguidos tem um problema que a organização em risco não tem: gente nova a chegar mais depressa do que a prática instalada consegue absorver, funções que se criam antes de estarem descritas, e chefias que passaram a chefiar sem transição. É o terreno onde a formação tem maior retorno e onde há orçamento e horizonte para a fazer bem.

Organização jovem em consolidação incerta O valor está na certificação portável, na modularidade e nos ciclos curtos.
Organização em crescimento sustentado O valor está na estruturação: descrever funções, formar quem passou a chefiar e instalar prática antes que a improvisação se torne cultura.

A conclusão prática é que o mercado formativo português não é um mercado, são pelo menos dois, e o desenho que serve um serve mal o outro.

Vender o mesmo programa aos dois é o erro mais comum do setor, e o mais caro para quem compra.

Solidez como condição, não como consequência

Há uma inversão nesta matéria que vale a pena tornar explícita, e que dá título à Carta de Navegação que está na origem deste artigo.

A leitura comum trata a solidez financeira como consequência de fazer as coisas bem: uma organização que trabalha bem torna-se sólida com o tempo. É verdade e é insuficiente.

Na formação de longo prazo, a solidez como condição é também o que permite manter um programa em curso durante um mau trimestre, honrar um compromisso de acompanhamento que não gera receita imediata, e não interromper uma parceria porque a tesouraria apertou.

Uma entidade formadora frágil não falha de forma dramática: falha de forma discreta, deixando cair o acompanhamento pós-formação, que é justamente a parte que a investigação identifica como determinante e que ninguém audita.

Isto aplica-se aos dois lados da mesa. Vale para quem forma e vale para quem contrata, e é por isso que a pergunta sobre continuidade é legítima em qualquer das direções.

O que os dados não permitem concluir

Três limites, e são importantes.

A sobrevivência não mede sucesso. A sobrevivência a três anos mede a permanência da unidade estatística, e não o sucesso da atividade. Uma empresa pode encerrar por venda, por fusão, por reestruturação ou porque quem a criou passou a outra coisa com melhores condições. Nem toda a morte estatística é fracasso.
O setor formativo não está isolado nestes dados. Os recortes setoriais referem-se a sociedades não financeiras e às categorias de atividade do INE. A formação profissional não constitui categoria autónoma nestes recortes, pelo que a leitura sobre serviços é de enquadramento e não uma medição do setor formativo.
Os dados não demonstram causalidade. Nada nestes dados estabelece relação causal entre demografia empresarial e resultados de formação. O que se estabelece é uma condição de contexto, com base estatística, que o desenho de programas deveria considerar e habitualmente não considera. A ligação entre as duas coisas é leitura desta casa, e fica declarada como leitura.

O que isto significa, conforme quem lê

Para quem desenha programas. O horizonte de aplicação pode ser mais curto do que o do percurso, sobretudo em clientes de serviços com poucos anos. Certificar por módulos e desenhar para a função em vez de para o processo interno são decisões de desenho, não concessões.
Para quem contrata formação. A continuidade da entidade formadora é parte do que se contrata e pode perguntar-se. E a continuidade da própria organização é variável do retorno esperado, o que aconselha ciclos de verificação mais curtos do que o ciclo do programa.
Para quem define política. Financiar formação sem olhar à demografia empresarial é financiar metade do problema. Um país que cria empresas ao dobro da média europeia e vê pouco menos de metade chegar aos três anos tem, na estabilização dessas empresas, um multiplicador do efeito de tudo o resto que financia.
Leitura da casa

A leitura da casa

Portugal tem um problema que raramente é enunciado assim: não é um país que crie poucas empresas, é um país onde muitas das que se criam não duram o suficiente para acumular nada, incluindo competência.

A formação é uma das coisas que se acumula, e acumula-se devagar. Precisa de contexto que dure, de alguém que observe a aplicação, e de um ciclo seguinte onde o que se aprendeu se volte a usar. Nada disso existe numa organização que fecha ao segundo ano.

Não propomos que quem forma resolva a demografia empresarial portuguesa, o que seria absurdo. Propomos que a considere no desenho, que é o que está ao alcance, e que a nomeie na conversa com quem contrata, em vez de a deixar como pressuposto silencioso de ambos os lados.

É a isso que chamamos infraestrutura silenciosa. Não aparece em nenhuma proposta, não consta de nenhum referencial, e decide mais resultados do que a maioria das escolhas pedagógicas que se discutem em cima dela.

Fontes

Instituto Nacional de Estatística, Empresas em Portugal, Demografia das Empresas, edições relativas a 2021, 2022, 2023 e 2024, com taxas de natalidade, mortalidade e sobrevivência, e recorte por idade e setor das sociedades que cessaram atividade. Consultado a 5 de agosto de 2026.

Eurostat, Business demography statistics, com as taxas de natalidade e de mortalidade de empresas na União Europeia e nos Estados-Membros, dados de 2021 a 2023, série bd_size. Consultado a 5 de agosto de 2026.

Nota de origem

Este artigo desenvolve uma publicação da Advance Station no LinkedIn, de 5 de maio de 2026, a Carta de Navegação sobre a solidez como condição das políticas de desenvolvimento de longo prazo. O texto foi reescrito para leitura contínua e a base estatística foi refeita a partir das fontes primárias, com indicadores atualizados e com um valor da publicação original substituído por não ter sido possível confirmá-lo na fonte citada.