Escrevi em julho que o primeiro semestre de 2026 tinha fechado e que valia a pena fixar o que esses seis meses mostraram a quem trabalha em formação. Fixei sete indicadores.
Ao preparar a passagem do nosso trabalho editorial para este domínio, fomos às fontes primárias de cada um. Dois resistiram inteiros. Cinco não.
Refazer o balanço com os números certos é a única coisa que faz sentido publicar aqui, e é o que segue.
O balanço, refeito
Escrevi que 61% consideram a formação digital imprescindível e 43% usam inteligência artificial com regularidade, e chamei aos dezoito pontos a tensão central do mercado português.
Os 61% dizem outra coisa: são os que afirmam necessitar de mais formação para integrar a inteligência artificial no trabalho. E não se opõem aos 43%, sobrepõem-se-lhes largamente, porque quem diz precisar de formação é quem já usa a ferramenta. A subtração era entre grandezas diferentes.
A tensão central existe e é outra. Sessenta e um por cento declaram precisar de formação. Vinte por cento receberam alguma. Quarenta e um pontos, não dezoito.
Escrevi que a formação contínua mudou de morada, saindo do ensino superior clássico para os cursos não conferentes de grau, que cresceram 98% na Universidade Aberta.
O valor é real. No mesmo período e na mesma instituição, os cursos conferentes de grau cresceram 89%. Nove pontos de diferença não sustentam uma mudança de morada. Sustentam uma instituição que quase duplicou em ambas as frentes.
A microcredencial está a somar-se ao grau, não a substituí-lo, e a distinção decide onde se investe.
Escrevi que tem hoje quarenta anos, família e carreira a meio.
Não confirmámos a origem desse valor e não o vamos repetir. O que os dados europeus mostram é que a participação em formação decresce com a idade menos do que se supõe: 56,5% entre os 25 e os 34 anos, 49,9% entre os 35 e os 44, 46,2% entre os 45 e os 54. Um declive suave ao longo de trinta anos de vida ativa, e não um perfil-tipo.
Escrevi que confirma o que os seus números já diziam: 87,8% de conclusão e 83% de emprego à saída.
Os 87,8% são a taxa de conclusão do ensino secundário num ano letivo, não a proporção de quem entra e termina. Essa é de 70%.
E a correção devolveu o melhor dado do semestre, que eu não tinha: em 2014/15 esse valor era de 53%. Dezassete pontos de subida em oito anos. O sistema não está bom, está a melhorar, e a segunda afirmação é muito mais forte do que a primeira.
Escrevi que 80% das empresas planeiam integrar agentes de inteligência artificial em um a três anos.
Não confirmámos a origem desse valor e ele não volta a ser usado. Em substituição, há um horizonte oficial e verificável: o Programa da Década Digital fixa, para 2030, a meta de 75% das empresas europeias a utilizar computação em nuvem, análise de dados ou inteligência artificial. Portugal está nos 11,54% em inteligência artificial.
Os dois que ficam de pé
28% das empresas portuguesas identificam a falta de competências em inteligência artificial como o principal entrave à implementação desta tecnologia. Confirmado no Employment Outlook Survey do ManpowerGroup, segundo trimestre de 2025. Uma precisão: a fonte diz entrave à implementação e eu escrevi entrave ao crescimento, que é outra afirmação.
83% dos recém-diplomados do ensino e formação profissional, entre os 20 e os 34 anos, estão empregados entre um e três anos após a conclusão, contra 79,7% de média europeia. Confirmado no Monitor de Educação e Formação de 2023.
Dois em sete. É o resultado de verificar seis meses de trabalho, e é o número desta edição que menos gosto de escrever.
O que aprendi com isto
Os cinco números que caíram tinham uma coisa em comum, e demorei a vê-la.
Os dezoito pontos davam título a um mês inteiro. Os 98% provavam uma transformação. Os 87,8% diziam oito em cada dez onde a fonte certa diz sete. Os 80% davam urgência. E os quarenta anos davam um retrato humano a uma tabela.
Nenhum foi inventado. Todos foram escolhidos, e escolhi-os eu.
Quando um indicador contraria o que queremos dizer, procuramos outro e verificamos os dois. Quando o confirma, seguimos em frente. Não é desonestidade, é o funcionamento normal da atenção, e não há sistema de verificação que sobreviva a isso enquanto depender de quem escreve para decidir o que merece confirmação.
É por isso que passa a haver uma regra nova nesta casa: o portão de conformidade é aplicado por quem não escreveu a peça. Quem verifica recebe a lista de valores e fontes sem o texto, abre cada fonte na origem, e confirma três coisas: o valor, o universo a que se refere, e se a afirmação decorre do valor. Só depois lê o artigo. Uma peça sem nome de quem verificou não publica.
Custa cerca de uma hora por peça. Custou-me sete correções para chegar aqui.
As três frentes que anunciei para setembro
Prometi três, e devo-lhes o ponto de situação.
Não a abandono. Reformulo-a. A referência metodológica que faz falta em Portugal não é uma lista de números: é a explicação de que quase todos os conceitos relevantes da estatística educativa e da formação existem em mais do que um indicador oficial, com valores muito diferentes, e de como se escolhe entre eles. É isso que passa a ser o trabalho.
O que muda a partir de setembro
Três coisas, e são de processo.
O que fica dito
O primeiro semestre de 2026 mostrou-me duas coisas sobre o setor e uma sobre esta casa.
Sobre o setor: o problema português não é de oferta formativa, que nunca foi tão abundante nem tão financiada, e não é de recetividade das pessoas, que adotam tecnologia acima da média europeia. É de desenho e de contexto, e resolve-se com decisões que custam pouco e que quase ninguém toma.
Sobre esta casa: publicámos durante seis meses com pretensão de rigor e sem o processo que o rigor exige. Corrigimos, escrevemos o que encontrámos, e instalámos a regra que faltava. Não é uma história de que me orgulhe, mas é preferível a qualquer versão em que não a contasse.
Fica publicado, com este texto, o arquivo completo do primeiro semestre. São onze artigos, cerca de vinte e sete mil palavras, e cada um traz a fonte de cada número, o ano do estudo, a base de medição usada e uma secção sobre o que os dados não permitem concluir.
Quem chegar aqui a partir de uma pesquisa sobre participação de adultos em formação, sobre adoção de inteligência artificial nas empresas, sobre demografia empresarial ou sobre ensino profissional encontra o assunto tratado por inteiro, com o que sabemos e com o que não sabemos separados. É a única coisa que uma entidade formadora pode oferecer que não seja mais um catálogo.
Este texto fecha o arquivo. A partir de setembro, cada peça publica no próprio dia, com a verificação feita antes e por outra pessoa.
A quem nos lê há seis meses, o meu agradecimento, e o pedido de que continuem a ler com desconfiança. A quem chega agora, boas-vindas a bordo.
Fontes
Boston Consulting Group, Consumer Sentiment Survey 2025, edição Portugal. Consultado a 5 de agosto de 2026.
ManpowerGroup, Employment Outlook Survey, segundo trimestre de 2025, resultados para Portugal. Consultado a 5 de agosto de 2026.
Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, Cursos profissionais, situação três anos após ingresso, edição de 2025. Consultado a 5 de agosto de 2026.
Comissão Europeia, Monitor de Educação e Formação 2023, relatório sobre Portugal, e Programa da Década Digital para 2030. Consultado a 5 de agosto de 2026.
Eurostat, Adult learning statistics, série trng_aes_100, e Use of artificial intelligence in enterprises, série isoc_eb_ai. Consultado a 5 de agosto de 2026.
Universidade Aberta, dados institucionais sobre estudantes em cursos conferentes e não conferentes de grau, 2018-2019 a 2023-2024. Consultado a 5 de agosto de 2026.
Nota de origem
Publicado originalmente no LinkedIn a 15 de julho de 2026, em formato reduzido. Esta é a versão integral e permanente, com as fontes completas. Cinco dos sete indicadores do texto original foram substituídos ou retirados por não terem resistido à verificação na fonte, e a substituição está descrita no corpo do artigo. Não se retrodata.