Categoria: Políticas Educativas

  • Diário do Capitão N.º 03 · O semestre que fecha

    Diário do Capitão N.º 03 · O semestre que fecha

    Publicado originalmente no LinkedIn a 15 de julho de 2026. Esta é a versão integral e permanente. Sete números sustentavam o balanço desse texto. Cinco não sobreviveram à verificação, e é por eles que começo.

    Escrevi em julho que o primeiro semestre de 2026 tinha fechado e que valia a pena fixar o que esses seis meses mostraram a quem trabalha em formação. Fixei sete indicadores.

    Ao preparar a passagem do nosso trabalho editorial para este domínio, fomos às fontes primárias de cada um. Dois resistiram inteiros. Cinco não.

    Refazer o balanço com os números certos é a única coisa que faz sentido publicar aqui, e é o que segue.

    O balanço, refeito

    Sobre a distância entre reconhecer e praticar.

    Escrevi que 61% consideram a formação digital imprescindível e 43% usam inteligência artificial com regularidade, e chamei aos dezoito pontos a tensão central do mercado português.

    Os 61% dizem outra coisa: são os que afirmam necessitar de mais formação para integrar a inteligência artificial no trabalho. E não se opõem aos 43%, sobrepõem-se-lhes largamente, porque quem diz precisar de formação é quem já usa a ferramenta. A subtração era entre grandezas diferentes.

    A tensão central existe e é outra. Sessenta e um por cento declaram precisar de formação. Vinte por cento receberam alguma. Quarenta e um pontos, não dezoito.

    Sobre as microcredenciais.

    Escrevi que a formação contínua mudou de morada, saindo do ensino superior clássico para os cursos não conferentes de grau, que cresceram 98% na Universidade Aberta.

    O valor é real. No mesmo período e na mesma instituição, os cursos conferentes de grau cresceram 89%. Nove pontos de diferença não sustentam uma mudança de morada. Sustentam uma instituição que quase duplicou em ambas as frentes.

    A microcredencial está a somar-se ao grau, não a substituí-lo, e a distinção decide onde se investe.

    Sobre o estudante típico.

    Escrevi que tem hoje quarenta anos, família e carreira a meio.

    Não confirmámos a origem desse valor e não o vamos repetir. O que os dados europeus mostram é que a participação em formação decresce com a idade menos do que se supõe: 56,5% entre os 25 e os 34 anos, 49,9% entre os 35 e os 44, 46,2% entre os 45 e os 54. Um declive suave ao longo de trinta anos de vida ativa, e não um perfil-tipo.

    Sobre o ensino profissional.

    Escrevi que confirma o que os seus números já diziam: 87,8% de conclusão e 83% de emprego à saída.

    Os 87,8% são a taxa de conclusão do ensino secundário num ano letivo, não a proporção de quem entra e termina. Essa é de 70%.

    E a correção devolveu o melhor dado do semestre, que eu não tinha: em 2014/15 esse valor era de 53%. Dezassete pontos de subida em oito anos. O sistema não está bom, está a melhorar, e a segunda afirmação é muito mais forte do que a primeira.

    Sobre a inteligência artificial.

    Escrevi que 80% das empresas planeiam integrar agentes de inteligência artificial em um a três anos.

    Não confirmámos a origem desse valor e ele não volta a ser usado. Em substituição, há um horizonte oficial e verificável: o Programa da Década Digital fixa, para 2030, a meta de 75% das empresas europeias a utilizar computação em nuvem, análise de dados ou inteligência artificial. Portugal está nos 11,54% em inteligência artificial.

    Os dois que ficam de pé

    28%
    Empresas portuguesas que identificam a falta de competências em IA como principal entrave à implementação
    83%
    Recém-diplomados do ensino e formação profissional empregados entre um e três anos após a conclusão
    2 / 7
    Indicadores do balanço original que resistiram inteiros à verificação

    28% das empresas portuguesas identificam a falta de competências em inteligência artificial como o principal entrave à implementação desta tecnologia. Confirmado no Employment Outlook Survey do ManpowerGroup, segundo trimestre de 2025. Uma precisão: a fonte diz entrave à implementação e eu escrevi entrave ao crescimento, que é outra afirmação.

    83% dos recém-diplomados do ensino e formação profissional, entre os 20 e os 34 anos, estão empregados entre um e três anos após a conclusão, contra 79,7% de média europeia. Confirmado no Monitor de Educação e Formação de 2023.

    Dois em sete. É o resultado de verificar seis meses de trabalho, e é o número desta edição que menos gosto de escrever.

    O que aprendi com isto

    Os cinco números que caíram tinham uma coisa em comum, e demorei a vê-la.

    A propriedade comum
    Todos eram favoráveis à tese que sustentavam.

    Os dezoito pontos davam título a um mês inteiro. Os 98% provavam uma transformação. Os 87,8% diziam oito em cada dez onde a fonte certa diz sete. Os 80% davam urgência. E os quarenta anos davam um retrato humano a uma tabela.

    Nenhum foi inventado. Todos foram escolhidos, e escolhi-os eu.

    Quando um indicador contraria o que queremos dizer, procuramos outro e verificamos os dois. Quando o confirma, seguimos em frente. Não é desonestidade, é o funcionamento normal da atenção, e não há sistema de verificação que sobreviva a isso enquanto depender de quem escreve para decidir o que merece confirmação.

    É por isso que passa a haver uma regra nova nesta casa: o portão de conformidade é aplicado por quem não escreveu a peça. Quem verifica recebe a lista de valores e fontes sem o texto, abre cada fonte na origem, e confirma três coisas: o valor, o universo a que se refere, e se a afirmação decorre do valor. Só depois lê o artigo. Uma peça sem nome de quem verificou não publica.

    Custa cerca de uma hora por peça. Custou-me sete correções para chegar aqui.

    As três frentes que anunciei para setembro

    Prometi três, e devo-lhes o ponto de situação.

    Uma série editorial sobre microcredenciais e formação modular. Mantém-se e ganhou base. O enquadramento europeu está fixado desde a recomendação do Conselho de junho de 2022, que define o que uma microcredencial tem de conter para ser reconhecível fora de quem a emite. A maior parte da oferta formativa portuguesa não cumpre esses requisitos, e a diferença não está no conteúdo nem na duração: está no que fica registado.
    Programas com componente de inteligência artificial aplicada. Mantém-se, e o desenho mudou por efeito do que verificámos. Os três usos dominantes de inteligência artificial nas empresas portuguesas são análise de linguagem escrita, geração de conteúdos e produção de texto ou código. Todos produzem um resultado cuja qualidade depende do julgamento de quem o avalia. Formar em inteligência artificial numa pequena ou média empresa não é sobretudo formação técnica: é formação em critério de aceitação, e é isso que vamos desenhar.
    O Observatório como referência metodológica. Esta é a que mais mudou. Escrevi que a queria consolidar como referência para quem trabalha com indicadores de formação. Depois descobri que ela própria publicava indicadores por confirmar.

    Não a abandono. Reformulo-a. A referência metodológica que faz falta em Portugal não é uma lista de números: é a explicação de que quase todos os conceitos relevantes da estatística educativa e da formação existem em mais do que um indicador oficial, com valores muito diferentes, e de como se escolhe entre eles. É isso que passa a ser o trabalho.

    O que muda a partir de setembro

    Três coisas, e são de processo.

    A produção começa aqui. A partir de setembro, cada peça nasce neste domínio e a publicação de rede deriva dela. Não é uma questão de preferência de canal: é que a peça do site passa pelo portão de conformidade antes de existir, e a peça de rede herda dados já verificados. A ordem inversa, que praticámos até agora, produzia o que este texto acaba de descrever.
    Todas as publicações passam por portão. Incluindo as que não têm artigo correspondente, como as peças de oferta e as de efeméride. São perto de um terço do que publicámos e, até hoje, não passavam por verificação nenhuma.
    Cada número traz consigo a base. Fonte, ano, data de consulta, e a verificação de que a afirmação decorre do conjunto de dados e não apenas do valor citado. É o ponto que apanhou dois dos cinco erros deste balanço.

    O que fica dito

    O primeiro semestre de 2026 mostrou-me duas coisas sobre o setor e uma sobre esta casa.

    Sobre o setor: o problema português não é de oferta formativa, que nunca foi tão abundante nem tão financiada, e não é de recetividade das pessoas, que adotam tecnologia acima da média europeia. É de desenho e de contexto, e resolve-se com decisões que custam pouco e que quase ninguém toma.

    Sobre esta casa: publicámos durante seis meses com pretensão de rigor e sem o processo que o rigor exige. Corrigimos, escrevemos o que encontrámos, e instalámos a regra que faltava. Não é uma história de que me orgulhe, mas é preferível a qualquer versão em que não a contasse.

    Fica publicado, com este texto, o arquivo completo do primeiro semestre. São onze artigos, cerca de vinte e sete mil palavras, e cada um traz a fonte de cada número, o ano do estudo, a base de medição usada e uma secção sobre o que os dados não permitem concluir.

    Quem chegar aqui a partir de uma pesquisa sobre participação de adultos em formação, sobre adoção de inteligência artificial nas empresas, sobre demografia empresarial ou sobre ensino profissional encontra o assunto tratado por inteiro, com o que sabemos e com o que não sabemos separados. É a única coisa que uma entidade formadora pode oferecer que não seja mais um catálogo.

    Este texto fecha o arquivo. A partir de setembro, cada peça publica no próprio dia, com a verificação feita antes e por outra pessoa.

    A quem nos lê há seis meses, o meu agradecimento, e o pedido de que continuem a ler com desconfiança. A quem chega agora, boas-vindas a bordo.

    João Dias Direção Criativa, Advance Station

    Fontes

    Boston Consulting Group, Consumer Sentiment Survey 2025, edição Portugal. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    ManpowerGroup, Employment Outlook Survey, segundo trimestre de 2025, resultados para Portugal. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, Cursos profissionais, situação três anos após ingresso, edição de 2025. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Comissão Europeia, Monitor de Educação e Formação 2023, relatório sobre Portugal, e Programa da Década Digital para 2030. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Eurostat, Adult learning statistics, série trng_aes_100, e Use of artificial intelligence in enterprises, série isoc_eb_ai. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Universidade Aberta, dados institucionais sobre estudantes em cursos conferentes e não conferentes de grau, 2018-2019 a 2023-2024. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Nota de origem

    Publicado originalmente no LinkedIn a 15 de julho de 2026, em formato reduzido. Esta é a versão integral e permanente, com as fontes completas. Cinco dos sete indicadores do texto original foram substituídos ou retirados por não terem resistido à verificação na fonte, e a substituição está descrita no corpo do artigo. Não se retrodata.

  • O ensino profissional não é plano B

    A frase erra sobre o resultado e acerta sobre o percurso. Convém dizer as duas coisas, porque quem tem quinze anos e decide precisa das duas.

    Há uma frase que circula na conversa pública portuguesa, dita em voz baixa nas reuniões de pais e em voz alta nos jantares: o ensino profissional é para quem não consegue seguir.

    Escrevemos em julho que os números a desfazem. Desfazem uma parte e confirmam outra, e a parte que confirmam é aquela sobre a qual há mais a fazer.

    O que a frase erra

    Sobre o resultado, a frase não tem sustentação.

    70%
    Conclusão dos cursos profissionais no tempo esperado
    53%
    O mesmo indicador em 2014/15
    83%
    Empregabilidade dos recém-diplomados do EFP

    A taxa de conclusão dos cursos profissionais no tempo esperado, três anos após o ingresso, é de 70%, e era de 53% em 2014/15. Dezassete pontos de subida em oito anos, num indicador que não se move com facilidade.

    E a empregabilidade dos recém-diplomados do ensino e formação profissional, entre os 20 e os 34 anos, é de 83% entre um e três anos após a conclusão, contra 79,7% de média da União Europeia. Portugal está entre os Estados-membros com melhor desempenho neste indicador.

    Quem termina um curso profissional pertence a uma coorte que melhorou substancialmente numa década e que se emprega acima da média europeia. A frase, na parte em que sugere um resultado inferior, está errada e é verificável que está.

    Há ainda um recorte que merece registo. As raparigas concluem no tempo esperado em 74% dos casos, contra 67% dos rapazes. E a área de ingresso mais frequente é a dos Serviços, com 30% dos alunos, seguida da Engenharia, Indústrias Transformadoras e Construção, com 17%, e das Ciências, Matemática e Informática, com 16%. Não é um percurso residual nem marginal: é onde está uma parte substancial de uma geração.

    O que a frase acerta

    Sobre o percurso, a frase toca num facto que os números confirmam sem margem.

    22,4%
    Cursos profissionais 28 582 concluíram em 2022. Um ano depois, 6 403 estavam inscritos no ensino superior. Percentagem resultante de cálculo próprio sobre estes dois valores absolutos.
    85%
    Cursos científico-humanísticos Cerca de 56 mil concluíram e mais de 42 mil estavam no ensino superior no ano seguinte.

    Segundo a DGEEC, 28 582 alunos concluíram um curso profissional do ensino secundário no verão de 2022. Um ano depois, 6 403 estavam inscritos numa instituição de ensino superior.

    Pouco mais de um em cada cinco prossegue estudos.

    No mesmo ano, entre os cursos científico-humanísticos, cerca de 56 mil alunos terminaram o secundário e mais de 42 mil, ou seja 85%, estavam a frequentar o ensino superior no ano seguinte.

    A distância é enorme e não é uma questão de leitura. Um percurso conduz ao ensino superior quase por defeito, o outro quase por exceção.

    Quem diz que o ensino profissional é uma via que fecha portas está a descrever mal a causa e a acertar no efeito. E quem responde citando apenas as taxas de conclusão e de empregabilidade está a responder a uma pergunta que não foi feita.

    Três números para a mesma coisa

    Antes de continuar, uma nota que já é hábito desta série e que aqui se justifica particularmente.

    Os dois valores absolutos acima, 28 582 e 6 403, foram publicados pela DGEEC na mesma tabela. A divisão de um pelo outro dá 22,4%.

    13%
    Valor publicado por vários órgãos de comunicação
    24%
    Outro valor publicado a partir da mesma fonte
    22,4%
    Divisão direta de 6 403 por 28 582

    Na semana em que esses dados foram divulgados, a imprensa portuguesa publicou dois valores diferentes para a mesma coisa. Vários órgãos escreveram que apenas 13% dos alunos de cursos profissionais seguem para o superior. Outro escreveu 24%. Ambos citaram a mesma publicação e reproduziram os mesmos dois números absolutos.

    Não sabemos qual das taxas a DGEEC publica como sua, porque isso depende do denominador que usa: quem concluiu o curso, quem terminou o secundário, ou quem se inscreveu no concurso. Sabemos que os dois valores absolutos são estes e que a divisão direta dá 22,4%, e apresentamos esse cálculo como cálculo próprio.

    Registamos isto sem ironia. O mesmo mecanismo que produziu 13% e 24% na imprensa produziu, nesta casa, sete valores que tivemos de corrigir. É o que acontece quando se cita um resumo em vez de abrir a fonte.

    Por que a passagem não acontece

    A explicação preguiçosa é a capacidade dos alunos. A DGEEC ofereceu, num estudo anterior sobre esta mesma transição, uma explicação bastante mais desconfortável: o concurso nacional de acesso ao ensino superior utiliza critérios de seleção adaptados à formação de quem frequenta a via científico-humanística, e não à de quem frequenta a via profissional.

    Por outras palavras, um aluno de um curso profissional é avaliado, no acesso, sobre matérias que não fizeram parte do seu percurso.

    Vale a pena reter o que esta explicação implica e o que não implica. Não implica que os alunos da via profissional saibam menos: implica que sabem outras coisas, e que o instrumento de seleção não as pergunta. Um exame de ingresso construído sobre um programa que a pessoa não frequentou mede a distância a esse programa, não a capacidade de fazer um curso superior.

    O que mede realmente
    Os 22,4% não medem quantos podiam prosseguir. Medem quantos prosseguiram com o desenho de acesso que existe.

    O reconhecimento disto está formalizado. O Decreto-Lei n.º 11/2020, de 2 de abril, criou um concurso especial de acesso ao ensino superior para quem concluiu o secundário por vias profissionalizantes, precisamente porque o concurso geral não servia. A porta existe e foi preciso abrir outra ao lado.

    Há ainda um dado do mesmo estudo que merece ser lido devagar. A DGEEC concluiu que o tipo de diploma do secundário explica o prosseguimento de estudos mais do que os fatores socioeconómicos. Mas entre os alunos de cursos profissionais cujas mães têm ensino superior, a percentagem dos que não prosseguem cai quase trinta pontos, de 82% para 53%.

    As duas afirmações convivem e ambas são verdadeiras. O diploma pesa mais do que a origem social, e a origem social continua a pesar trinta pontos.

    Há um teste simples para saber se a legislação de 2020 produziu efeito, e é um teste que ainda não podemos fazer com dados públicos: comparar a taxa de prosseguimento das coortes anteriores e posteriores ao concurso especial. Os dados que existem referem-se a quem concluiu em 2022, dois anos depois do decreto-lei, e não distinguem quem entrou pelo concurso geral de quem entrou pelo especial.

    Sem essa distinção, é impossível saber se a porta nova está a ser usada, se é conhecida, ou se existe apenas no papel. É a lacuna mais consequente desta matéria e resolve-se com uma tabela que já deve existir.

    Quando se prossegue, prossegue-se por outro caminho

    Quem, dos cursos profissionais, entra no ensino superior, entra maioritariamente por uma porta diferente.

    Enquanto 91% dos alunos dos cursos científico-humanísticos prosseguem para um curso que confere grau, a maior parte dos alunos dos cursos profissionais segue para Cursos Técnicos Superiores Profissionais, que não conferem grau académico.

    CTeSP → Licenciatura
    Segundo a DGEEC, 48% de quem conclui um CTeSP prossegue para uma licenciatura.

    O percurso existe, é usado por quase metade de quem o inicia, e é invisível na conversa pública. Curso profissional, CTeSP, licenciatura é um caminho real, mais longo e mais gradual do que o do concurso nacional, e ninguém o desenha como caminho: chega-se lá por acumulação de decisões separadas.

    Quem aconselha um jovem de quinze anos a evitar a via profissional para não fechar a porta do superior está a comparar um percurso de três anos com um percurso de seis. São ambos possíveis e a diferença é de ritmo, não de destino.

    Concluir e inserir são resultados distintos

    Há uma segunda distinção que se perde nesta conversa e que vale por si.

    Terminar um curso e entrar no mercado de trabalho são dois resultados diferentes. Um programa que mede apenas o primeiro declara vitória a meio.

    70%
    Concluem no tempo esperado
    83%
    Diplomados empregados um a três anos depois
    ≈58%
    Cálculo ilustrativo do percurso combinado

    No ensino profissional isto é particularmente visível, porque os dois indicadores existem separados: 70% concluem no tempo esperado e 83% dos que se diplomam estão empregados um a três anos depois. Multiplicando as duas proporções, e o cálculo é ilustrativo e não rigoroso porque as coortes não coincidem, chega-se a algo próximo de 58% de quem entra a concluir no prazo e a estar empregado três anos depois.

    É esse o número que a família procura e nenhuma estatística nacional o publica.

    O intervalo entre concluir e inserir é onde a política tem margem e onde o desenho de um percurso decide mais. E a mesma lógica aplica-se a qualquer programa formativo, não apenas ao ensino secundário: quem desenha para a conclusão desenha para o certificado, quem desenha para a inserção desenha para o que vem depois do certificado.

    O que muda no desenho

    Três consequências práticas, por ordem de quem as pode executar.

    Para uma escola profissional. O prosseguimento de estudos deixa de ser um assunto do último período do último ano e passa a ser preparado desde o início. Isso significa informação sobre o concurso especial, sobre CTeSP e sobre o percurso em duas etapas, dada às famílias no momento da escolha e não no momento da saída.
    Para uma entidade formadora. A área conta, e conta muito. Em dezanove das vinte e seis áreas com mais de cem alunos a conclusão está em 70% ou acima, com média de 73%, e a Saúde chega aos 79% entre os cursos com mais de mil alunos. Onde a saída profissional é clara, o percurso conclui-se. Onde não é, não se conclui.
    Para quem contrata. O preconceito com que o mercado lê estes percursos não tem sustentação nos indicadores de resultado, e tem custo: exclui de partida uma coorte que se emprega acima da média europeia e que melhorou dezassete pontos numa década.

    O que os dados não permitem concluir

    Os 22,4% são cálculo próprio. A taxa resulta de um cálculo sobre dois valores absolutos publicados pela DGEEC. Não é a taxa que a DGEEC publica, porque não confirmámos qual o denominador que usa, e a imprensa publicou dois valores diferentes a partir dos mesmos números.
    O prosseguimento é medido apenas no ano seguinte. Não capta quem entra no ensino superior dois, cinco ou quinze anos depois, e essa é precisamente a população que a formação de adultos serve.
    As populações das duas vias não são equivalentes. Diferem na composição socioeconómica, e a própria DGEEC identifica essa diferença ao mesmo tempo que afirma que o tipo de diploma pesa mais.
    Conclusão e empregabilidade não usam as mesmas coortes. Os dois indicadores incidem sobre coortes e janelas temporais distintas. A multiplicação apresentada é ilustrativa e não substitui um indicador de percurso, que não existe.

    O que isto significa, conforme quem lê

    Para quem desenha percursos. A porta do superior existe e é usada por menos de um quarto. Não é um problema de capacidade, é um problema de desenho de acesso, parcialmente reconhecido em legislação e ainda não resolvido em prática.
    Para uma família a decidir. A pergunta certa não é se a via profissional fecha o superior, porque não fecha. É quanto tempo demora a chegar lá por essa via, e a resposta honesta é mais tempo, com pelo menos duas etapas.
    Para quem define política. Falta um indicador que ligue o ingresso ao emprego e ao prosseguimento, num só número e por território. Existem os troços, falta o percurso, e é o percurso que a decisão de uma família precisa de ver.
    Leitura da casa

    A leitura da casa

    O ensino profissional não é plano B no resultado e é, na prática, um plano mais longo no percurso académico. As duas coisas são verdade e defender apenas a primeira é fazer campanha, não é informar.

    O que nos parece defensável dizer, com a base à vista, é isto: quem entra num curso profissional tem hoje uma probabilidade de concluir dezassete pontos maior do que tinha há oito anos, uma probabilidade de estar empregado acima da média europeia, e uma probabilidade de chegar ao ensino superior que depende menos da sua capacidade do que do desenho do concurso de acesso.

    Duas dessas três coisas melhoraram. A terceira tem legislação desde 2020 e ainda não tem resultado.

    Fontes

    Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, Cursos profissionais, situação três anos após ingresso, edição de 2025, com as taxas de conclusão no tempo esperado, a série desde 2014/15 e a desagregação por sexo, região e área de estudo. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, Transição entre o ensino secundário e o ensino superior 2021/22 e 2022/23, com os valores absolutos de conclusão e de inscrição no ensino superior. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Comissão Europeia, Monitor de Educação e Formação 2023, relatório sobre Portugal, com a taxa de empregabilidade dos recém-diplomados do ensino e formação profissional. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Decreto-Lei n.º 11/2020, de 2 de abril, que cria o concurso especial de acesso ao ensino superior para titulares de cursos de dupla certificação do ensino secundário. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Nota de origem

    Este artigo reúne e desenvolve duas publicações da Advance Station no LinkedIn, de 14 e 21 de julho de 2026. O texto foi reescrito por inteiro, um dos indicadores foi substituído por não medir o que se afirmava, e o argumento foi alargado ao prosseguimento de estudos, que as publicações originais não tratavam.

    • 14 de julho de 2026 · Lente de Descoberta, sobre o ensino profissional não ser plano B.
    • 21 de julho de 2026 · Lente de Descoberta, sobre conclusão sem inserção ser só metade do percurso.
  • O sistema formativo que funciona em silêncio

    Publicámos em julho que 87,8% de quem entra num curso profissional chega ao fim. O número existe e mede outra coisa. O que responde à pergunta é 70%, e a boa notícia verdadeira não é o nível: é a trajetória.

    Há uma tese que continuamos a defender: o sistema formativo português produz resultados que a conversa pública não regista, e publicá-los não é autocelebração, é inventário operacional para quem desenha programas, contrata pessoas ou define política.

    A tese mantém-se. Os números com que a sustentámos em julho não se mantêm todos, e o mais importante deles estava a medir uma coisa diferente daquela que dissemos.

    O quadro, antes da leitura

    Indicador Valor Ano Fonte
    Taxa de conclusão do ensino secundário em cursos profissionais 87,8% 2022/23 DGEEC
    Conclusão do curso profissional no tempo esperado, três anos após o ingresso 70% 2022/23 DGEEC
    O mesmo indicador em 2014/15 53% 2014/15 DGEEC
    Conclusão no tempo esperado nos cursos científico-humanísticos 77% 2022/23 DGEEC
    Empregabilidade de recém-diplomados do EFP, 20 aos 34 anos 83% 2022 Education and Training Monitor
    Média da União Europeia no mesmo indicador 79,7% 2022 Education and Training Monitor
    Alunos do secundário inscritos em programas de EFP 40% 2021 Education and Training Monitor

    As duas primeiras linhas parecem medir a mesma coisa e não medem.

    Quantos são, afinal

    Antes de continuar, uma terceira medição que pede o mesmo cuidado das anteriores, porque circulam três valores para a dimensão do ensino profissional em Portugal.

    40%
    Alunos do secundário em programas de educação e formação profissional
    34%
    Alunos na via de dupla certificação
    28,3%
    Alunos inscritos especificamente em cursos profissionais

    O Monitor de Educação e Formação refere que, em 2021, 40% dos alunos do ensino secundário estavam inscritos em programas de educação e formação profissional.

    A DGEEC, para o ano letivo de 2022/23, reporta que dos 394 964 alunos matriculados no ensino secundário, 134 402 optaram pela via de dupla certificação, o que corresponde a 34%.

    E, dentro desses, 111 798 estavam inscritos em cursos profissionais propriamente ditos, o que dá 28,3% do total do secundário.

    Quarenta, trinta e quatro, vinte e oito. Nenhum está errado. A categoria europeia de educação e formação profissional é mais larga do que a categoria nacional de dupla certificação, que por sua vez é mais larga do que os cursos profissionais, porque inclui também cursos de aprendizagem e cursos de educação e formação de jovens.

    Quem quiser dizer que quatro em cada dez jovens portugueses estão no ensino profissional está a usar a definição mais generosa das três. Quem quiser dizer que são menos de três em cada dez está a usar a mais estreita. Ambos podem citar fonte oficial.

    É a terceira vez que este problema aparece neste artigo, depois das duas taxas de conclusão. Não é coincidência: é a característica dominante da estatística educativa portuguesa, e quem trabalha com ela sem verificar a definição vai errar, mais cedo ou mais tarde, e vai errar convencido.

    O que 87,8% mede, exatamente

    A DGEEC publica, no relatório Educação em Números, a taxa de conclusão do ensino secundário por oferta de educação e formação. Para os cursos profissionais, no ano letivo de 2022/23, essa taxa foi de 87,8%, mais 0,7 pontos do que no ano anterior. Para os cursos tecnológicos e com planos próprios foi de 95,2%.

    É um indicador anual. Mede, entre quem estava em condições de concluir naquele ano letivo, quantos concluíram.

    Não mede quantos, de cem pessoas que entraram num curso profissional, chegaram ao fim. Essa é outra pergunta, com outro indicador, e o valor é bastante diferente.

    A correção
    Escrevemos em julho que «mais de oito em cada dez pessoas que entraram chegaram ao fim». Não foi o que a fonte disse. Foi o que quisemos que dissesse.

    O número que responde à pergunta

    A DGEEC publica também, num relatório próprio, a situação dos alunos três anos após o ingresso em cursos profissionais. É o indicador que responde diretamente à pergunta de quem entra e de quem termina.

    Conclusão no tempo esperado
    Em 2022/23, a taxa de conclusão dos cursos profissionais no tempo esperado, três anos após o ingresso, foi de 70%.

    Sete em cada dez, não mais de oito. A diferença entre os dois valores é de quase dezoito pontos, e não é uma discrepância estatística: são duas medições de coisas diferentes, ambas corretas, e nós escolhemos a mais favorável sem saber que estávamos a escolher.

    A boa notícia verdadeira não é o nível, é a trajetória

    E é aqui que o artigo muda de tom, porque o número correto conta uma história melhor do que o errado.

    53%
    2014/15 Conclusão dos cursos profissionais no tempo esperado.
    70%
    2022/23 Conclusão dos cursos profissionais no tempo esperado.
    Trajetória
    Dezassete pontos percentuais em oito anos.

    Isso é uma transformação de sistema. Não é uma flutuação, não é um ano bom, não é efeito de composição. É uma subida sustentada, ao longo de quase uma década, num indicador difícil de mover.

    E a DGEEC identifica uma associação que merece registo: a taxa é mais elevada nas regiões Norte, Centro e Alentejo, que foram apoiadas pelo Programa Operacional Capital Humano no período de programação anterior e são agora apoiadas pelo PESSOAS 2030. A associação é declarada pela fonte e não estabelece causalidade, mas é o tipo de coincidência que merece investigação e raramente a recebe.

    Dizer que o sistema funciona porque está nos 87,8% era falso e era pouco interessante. Dizer que subiu dezassete pontos em oito anos é verdadeiro e é muito mais forte, porque um nível descreve um estado e uma trajetória descreve uma capacidade.

    A comparação com os científico-humanísticos

    No mesmo ano, a taxa de conclusão no tempo esperado dos cursos científico-humanísticos foi de 77%, sete pontos acima dos cursos profissionais. E subiu de 55% em 2014/15, o que dá vinte e dois pontos de progressão, cinco a mais do que a via profissional.

    A leitura fácil seria concluir que a via profissional continua atrás e progride mais devagar. A própria DGEEC oferece a leitura difícil, e é a correta.

    A diferença explica-se em larga medida pela composição socioeconómica distinta dos alunos de cada via e, nesse contexto, pela entrada precoce dos alunos dos cursos profissionais no mercado de trabalho, antes de concluírem o percurso formativo.

    Convém deter-se nisto, porque inverte o sinal do indicador. Uma parte da não conclusão no tempo esperado nos cursos profissionais não é insucesso: é alguém que arranjou trabalho antes de terminar. Do ponto de vista da estatística de conclusão, é uma falha. Do ponto de vista da pessoa, pode ter sido a decisão certa.

    Não temos base para quantificar que parte da não conclusão é isto e que parte é abandono. Ninguém tem, porque o indicador não distingue. Mas quem usar os 70% para argumentar que a via profissional é menos eficaz está a usar um número que contém, dentro de si, exatamente o resultado que a via profissional promete.

    Há uma consequência de política que decorre daqui e que quase nunca se ouve. Se parte da não conclusão é entrada precoce no mercado, então um sistema que quisesse subir a taxa de conclusão teria duas vias: melhorar o acompanhamento de quem está em risco de desistir, que é a via difícil, ou dificultar a saída de quem tem oportunidade de emprego, que é a via absurda.

    Como o indicador não distingue os dois grupos, e como as metas se expressam em taxa de conclusão, existe um incentivo silencioso para tratar os dois da mesma maneira. Um sistema que fosse honesto com esta ambiguidade mediria separadamente a não conclusão por abandono e a não conclusão por entrada no mercado, e trataria a segunda como resultado parcial e não como falha.

    Isso exigiria cruzar dados de educação com dados de segurança social, o que é tecnicamente trivial e administrativamente raro.

    A média nacional esconde o país

    Há um recorte nos dados da DGEEC que devia mudar a conversa e não muda, porque quase nunca é citado.

    A taxa de conclusão no tempo esperado varia de forma extrema pelo território. Entre as vinte e quatro comunidades intermunicipais de Portugal continental, três ficam abaixo dos 70%:

    60%
    Península de Setúbal
    59%
    Grande Lisboa
    56%
    Algarve

    Ao nível municipal a dispersão é ainda maior. Em quatro municípios, todos os alunos concluíram no tempo esperado. Em nove, menos de metade concluiu, com o valor mais baixo a situar-se nos 14%.

    O problema da média
    Setenta por cento é uma média que quase não descreve nenhum sítio concreto. Existe um país onde nove em cada dez terminam e um país onde termina um em cada sete.

    Há também variação por área de formação. Em dezanove das vinte e seis áreas com mais de cem alunos, a taxa é igual ou superior a 70%, com média de 73%. Entre os cursos com mais de mil alunos, a área da Saúde destaca-se com 79%.

    A área importa mais do que a média sugere

    A dispersão não é só territorial. É também por área de formação, e essa é mais acionável porque depende de decisões de desenho e não de geografia.

    Em dezanove das vinte e seis áreas de educação e formação com mais de cem alunos, a taxa de conclusão no tempo esperado é igual ou superior a 70%, com uma média de 73%. Entre os cursos com mais de mil alunos, a área da Saúde destaca-se com 79%.

    Sete áreas ficam abaixo dos 70%, e o facto de a DGEEC as identificar significa que é possível saber quais e trabalhar sobre elas.

    Vale a pena pensar no que distingue uma área a 79% de uma a menos de 70%, porque a explicação mais provável não é a dificuldade do conteúdo. É provavelmente uma combinação de três coisas:

    Clareza da saída profissional. Torna visível para que serve o esforço.
    Contexto de prática real. Formação em contexto de trabalho que funcione durante o percurso.
    Densidade da rede de empregadores. A existência de tecido produtivo da área no território onde o curso existe.

    Nenhuma das três se resolve com melhores materiais pedagógicos. Todas se resolvem com trabalho de articulação entre escola e tecido produtivo local, que é lento, não é visível e não aparece em nenhum referencial.

    A empregabilidade, com a precisão que exige

    O segundo indicador do ciclo de julho resiste à verificação e ganha precisão.

    83%
    Portugal Recém-diplomados do ensino e formação profissional empregados entre um e três anos após a conclusão.
    79,7%
    União Europeia Média no mesmo indicador.

    Segundo o Monitor de Educação e Formação de 2023 da Comissão Europeia, 83% dos recém-diplomados do ensino e formação profissional, entre os 20 e os 34 anos, conseguiram emprego entre um e três anos após a conclusão da formação, em 2022. A média da União Europeia é de 79,7%.

    Portugal está acima, e está entre os Estados-membros com melhor desempenho neste indicador. O relatório regista ainda que, em 2021, 40% dos alunos do ensino secundário estavam inscritos em programas de educação e formação profissional.

    Três precisões que a nossa publicação de julho não fez e que mudam o alcance da afirmação.

    O universo. É de recém-diplomados entre os 20 e os 34 anos, não do conjunto dos diplomados.
    A janela. É de um a três anos após a conclusão, não imediata.
    O que o indicador mede. Estar empregado, não estar empregado na área, nem com vínculo estável, nem com remuneração acima de um limiar.

    Nada disto invalida o resultado, que é bom. Delimita-o, e a delimitação importa a quem o usa para decidir.

    Vale ainda o contraste com as metas que o sistema se impôs: o PESSOAS 2030 estabelece uma taxa de empregabilidade ou prosseguimento de estudos de 65% seis meses após a conclusão, para cursos profissionais e de aprendizagem. É um limiar mais baixo, numa janela mais curta e com um critério mais largo. Duas metas, dois instrumentos, e nenhuma dispensa a outra.

    O que liga a conclusão à inserção

    Postos lado a lado, os dois indicadores desenham uma sequência com uma perda no meio.

    70%
    Concluem no tempo esperado
    83%
    Empregados um a três anos depois
    ≈58%
    Cálculo ilustrativo para o percurso completo

    Setenta por cento concluem no tempo esperado. Desses, oitenta e três por cento estão empregados entre um e três anos depois. Multiplicando as duas proporções, chega-se a algo próximo de 58% de quem entra num curso profissional a concluir no tempo esperado e a estar empregado três anos depois.

    Esta multiplicação é ilustrativa e não é rigorosa, porque os dois indicadores incidem sobre coortes e universos que não coincidem exatamente. Serve para mostrar uma coisa: quando se olha para o percurso inteiro em vez de para cada troço, o resultado é bastante mais modesto do que qualquer dos dois números isolados sugere.

    E é assim que quem tem quinze anos, ou o pai de quem tem quinze anos, olha para a decisão. Não olha para a taxa de conclusão nem para a taxa de empregabilidade. Olha para a pergunta inteira: se entrar aqui, onde é que estou daqui a quatro anos?

    Nenhuma estatística nacional responde a essa pergunta de forma direta. Deviam.

    Documentar o que resulta é exigência de outro tipo

    Escrevemos em julho, e mantemos, que olhar para o que funciona não é falta de exigência. É exigência de outro tipo: a que pede que se nomeie sem inflar e que se construa a partir do que está provado.

    Esta peça é a prova de que essa exigência é real. Ao verificar os nossos próprios números, o que estava provado não coincidia com o que tínhamos publicado, e o inventário ficou mais pequeno e mais sólido.

    Quase tudo o que se publica sobre formação em Portugal é crítica, e há mérito nessa vigilância. Mas ela tem um custo discreto: quem trabalha no terreno raramente se vê reconhecido nos indicadores que produz, e quem desenha programas novos parte quase sempre do zero, sem o catálogo do que já resultou.

    A distinção
    O contrário da crítica não é o elogio. É o registo, e o registo obriga a números certos.

    Inventário não é balanço

    Reconhecer o que funciona não é um ponto de chegada. É a linha de partida para o que falta fazer, e a distinção entre as duas coisas é operacional.

    Balanço Fecha um período e destina-se a quem presta contas. Serve para julgar o que passou.
    Inventário Abre um período e destina-se a quem vai construir. Serve para saber com que material se conta.

    O que este artigo entrega é um inventário, e o material é este: uma taxa de conclusão que subiu dezassete pontos em oito anos, uma empregabilidade acima da média europeia num universo bem delimitado, uma dispersão territorial enorme que nenhuma média capta, e uma parte da não conclusão que pode ser sucesso disfarçado de falha.

    Com este material constrói-se. Com os 87,8% mal lidos não se construía nada, porque descrevia um sistema que já não tinha problema nenhum.

    O que os dados não permitem concluir

    As duas taxas de conclusão não se comparam. As taxas de conclusão anual e de conclusão no tempo esperado medem coisas diferentes. Qualquer leitura que passe de uma para a outra sem o declarar produz um erro de quase dezoito pontos, que foi exatamente o nosso.
    Não conclusão não é sinónimo de abandono. Inclui quem entrou no mercado de trabalho antes de terminar, e o indicador não separa os casos.
    Os 83% têm um universo delimitado. A empregabilidade mede a situação de emprego de recém-diplomados entre os 20 e os 34 anos numa janela de um a três anos. Não mede adequação ao percurso, qualidade do vínculo nem nível de remuneração.
    Associação não é causalidade. A associação entre as regiões apoiadas por fundos e as taxas de conclusão mais altas é registada pela fonte como associação. Não está estabelecida como relação causal e o artigo não a trata como tal.

    O que isto significa, conforme quem lê

    Para quem desenha programas. A dispersão territorial é o dado mais acionável de todos. Um programa desenhado sobre a média nacional serve mal um território a 56% e é desnecessário num a 100%. A unidade de desenho relevante não é o país, é a região.
    Para quem contrata. Quem concluiu um curso profissional no tempo esperado pertence a uma coorte cuja taxa de conclusão subiu dezassete pontos em oito anos e cuja empregabilidade está acima da média europeia. O preconceito com que o mercado lê estes percursos não tem sustentação nos indicadores.
    Para quem define política. Falta um indicador que ligue o ingresso à situação profissional quatro anos depois, num só número e por território. Existem os dois troços e não existe o percurso, e é o percurso que a família de quem tem quinze anos precisa de ver.
    Leitura da casa

    A leitura da casa

    O sistema formativo português melhorou de forma substancial e mensurável na última década, e quase ninguém o registou. Isso continua a ser verdade depois de corrigirmos os nossos números, e é a razão de ser desta peça.

    O que mudou é a nossa disposição para usar o número mais favorável. Escolhemos, em julho, o indicador que dizia oito em cada dez em vez do que dizia sete em cada dez, e escolhemo-lo sem má-fé e sem verificação, o que dá no mesmo resultado.

    Fica também uma lição de método que vale para lá desta casa. Quando um indicador confirma aquilo que já queríamos dizer, a probabilidade de o verificarmos é muito menor do que quando o indicador nos contraria. Os números que corrigimos ao longo deste arquivo tinham quase todos uma coisa em comum: eram favoráveis à tese que sustentavam. Nenhum sistema de verificação sobrevive a esse enviesamento se depender de quem escreve para decidir o que merece confirmação.

    A correção custou-nos dezoito pontos percentuais de boa notícia e devolveu-nos dezassete pontos de progresso real ao longo de oito anos. É melhor troca do que parece.

    Fontes

    Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, Educação em Números, Portugal 2024, com as taxas de conclusão do ensino secundário por oferta de educação e formação, ano letivo 2022/23. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, relatório sobre a situação dos alunos três anos após o ingresso em cursos profissionais, edição de 2025, com as taxas de conclusão no tempo esperado, a série desde 2014/15 e a desagregação por comunidade intermunicipal, município e área de educação e formação. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Comissão Europeia, Monitor de Educação e Formação 2023, relatório sobre Portugal, com a taxa de empregabilidade dos recém-diplomados do ensino e formação profissional e a comparação com a média da União Europeia. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    PESSOAS 2030, metas de empregabilidade e prosseguimento de estudos para cursos profissionais e de aprendizagem. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Nota de origem

    Este artigo reúne e desenvolve cinco publicações da Advance Station no LinkedIn, entre 2 e 30 de julho de 2026. O texto foi reescrito por inteiro, um indicador central foi substituído por não medir o que se afirmava, e dois valores das publicações originais não entram por não ter sido possível confirmá-los.

    • 2 de julho de 2026 · Observatório AS, sobre a taxa de conclusão nos cursos profissionais.
    • 3 de julho de 2026 · Carta de Navegação, sobre o sistema formativo que funciona em silêncio.
    • 24 de julho de 2026 · Diário de Bordo, sobre documentar o que resulta ser exigência de outro tipo.
    • 28 de julho de 2026 · Lente de Descoberta, sobre reconhecer não ser ponto de chegada.
    • 30 de julho de 2026 · Observatório AS, sobre a empregabilidade no ensino e formação profissional.
  • Diário do Capitão N.º 02 · Reconhecer e adotar

    Diário do Capitão N.º 02 · Reconhecer e adotar

    Esta edição foi anunciada a 5 de junho, como edição de junho, e sai hoje. Prometia observar julho e agosto. Como esses meses já passaram, vou fazer as duas coisas: dizer o que íamos observar e dizer o que encontrámos.

    O assunto anunciado era o tempo que separa reconhecer de adotar.

    Sessenta e um por cento da população portuguesa considera a formação digital imprescindível. Quarenta e três por cento utiliza tecnologias de inteligência artificial com regularidade. A distância entre os dois números não é uma taxa de conversão, e a leitura completa desses indicadores, com as ressalvas metodológicas que exigem, está no artigo que publicamos na próxima semana. Aqui trato do que faço com eles.

    Três frentes, como estava prometido.

    Primeira frente: o movimento de oferta que importou

    Se tivesse de escolher uma só transformação da oferta formativa portuguesa entre 2024 e 2025, escolheria esta: o dinheiro público mudou o que está disponível, e mudou-o depressa.

    935 M€
    Aprendizagem ao longo da vida no PESSOAS 2030
    794 M€
    Financiamento do Fundo Social Europeu Mais
    200 M€
    Centros Qualifica no Norte, Centro e Alentejo

    O Programa PESSOAS 2030 alocou cerca de 935 milhões de euros à aprendizagem ao longo da vida no período de programação em curso, dos quais 794 milhões vêm do Fundo Social Europeu Mais. Só para os Centros Qualifica nas regiões Norte, Centro e Alentejo estão alocados 200 milhões, com 170 milhões de financiamento europeu. Em paralelo, o Plano de Recuperação e Resiliência financiou a entrada em força das microcredenciais no ensino superior, através de programas como o Impulso 2025.

    Isto reconfigurou a oferta em dois anos. Apareceram percursos curtos certificáveis onde antes havia pós-graduações longas. Instituições que nunca tinham trabalhado com adultos em contexto de trabalho passaram a fazê-lo. E entidades formadoras privadas passaram a competir com oferta pública gratuita em segmentos onde antes não competiam.

    Foi um movimento de oferta, e foi grande.

    O que não foi, e é aqui que quero ser claro, é um movimento de procura. A participação de adultos em formação, medida no indicador que a meta europeia usa, estava nos 35,5% em 2024 contra uma meta de 60% para 2030. Mais oferta, financiada e gratuita, não moveu esse número na proporção do investimento.

    O que o movimento não resolveu
    Se o constrangimento fosse de disponibilidade de oferta, esta vaga de financiamento tê-lo-ia resolvido. Como não resolveu, o constrangimento é outro, e continua por tratar.

    Não escrevo isto contra o investimento, que era necessário e continua a ser. Escrevo porque a conclusão que se tira daqui condiciona o que se faz a seguir.

    Há uma parte deste movimento que me diz respeito diretamente e que seria desonesto não escrever. Uma entidade formadora privada que trabalha há trinta e três anos passou, em dois anos, a competir com oferta gratuita e certificada em segmentos onde antes não havia concorrência pública. Isso é bom para quem se forma e é desconfortável para quem forma, e as duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo.

    A resposta que me parece certa não é queixar-me da concorrência, é perguntar onde é que o gratuito não chega. E não chega em três sítios: no acompanhamento depois da formação, que nenhum financiamento por participante paga; no desenho à medida de um contexto concreto, que exige diagnóstico prévio; e na continuidade para lá do ciclo de fundos, que termina quando o programa termina. É aí que uma casa privada tem alguma coisa a acrescentar, e é aí que devemos estar.

    Segunda frente: três falhas recorrentes

    Vejo as mesmas três falhas em programas que não produzem efeito, e vejo-as em programas nossos e alheios.

    Primeira falha
    Medir no pior momento possível. A avaliação faz-se no fim da última sessão, com o conteúdo fresco, o grupo constituído e o formador na sala. É o instante em que a medição é mais generosa e menos informativa. A investigação sobre transferência mostra que a aplicação decai substancialmente ao longo do primeiro ano, e a avaliação que fazemos é feita antes de a decadência começar. Medimos o entusiasmo e chamamos-lhe resultado.
    Segunda falha
    Desenhar para quem já se inscreveria. Em Portugal, a taxa de participação em formação entre quem tem ensino superior é de 68,3%, contra 27,3% entre quem tem, no máximo, o terceiro ciclo do básico. Um programa desenhado com o formato, a linguagem e o horário que resultam bem para o primeiro grupo produz naturalmente inscrições do primeiro grupo. E depois atribui-se a ausência do segundo à falta de motivação, quando a explicação disponível é bastante mais simples: o programa não foi feito para quem não aparece.
    Terceira falha
    Terminar onde o problema começa. O preditor confirmado de que a aprendizagem se mantém é o ambiente de trabalho de apoio, e não a qualidade da sessão. É o resultado mais consistente de quarenta anos de investigação sobre transferência de formação. E é, quase sempre, a parte que a proposta não inclui, o contrato não prevê e ninguém audita. Entregamos a parte que sabemos fazer e chamamos ao resto problema do cliente.
    Um exemplo
    Um programa de competências digitais desenhado com uma sessão semanal de duas horas, às sete da tarde, com pré-trabalho em plataforma e apresentação final em grupo, é um bom programa. É também um programa que exclui quem faz turnos, quem tem transporte a uma hora de distância, quem não tem computador em casa e quem saiu do sistema de ensino há trinta anos e não vai apresentar nada a ninguém. Nenhuma destas exclusões foi decidida. Todas foram desenhadas.

    Nenhuma das três é falha de execução. São todas falhas de desenho, e por isso são todas corrigíveis sem gastar mais.

    Terceira frente: o horizonte que já passou

    Íamos observar julho e agosto. Observámos, e o que encontrámos não foi o que esperava.

    Passámos estes dois meses a preparar a passagem do nosso trabalho editorial para o nosso próprio domínio, o que obrigou a verificar, uma por uma, todas as afirmações que tínhamos publicado. Fomos às fontes primárias de cada número.

    Vários não sobreviveram.

    Um recorte por nível de escolaridade estava atribuído a uma fonte que não o continha, e os valores corretos eram consideravelmente diferentes.
    Uma distância para a meta de 2030 estava calculada entre dois indicadores com bases de medição distintas, o que a reduzia a menos de metade da distância real.
    Uma taxa de mortalidade empresarial não foi possível confirmar em nenhuma fonte.
    Um crescimento de 98% em microcredenciais, que apresentávamos como prova de uma transformação, aparecia na fonte ao lado de um crescimento de 89% nos cursos que supostamente estariam a ser substituídos.

    Nenhum destes casos foi má-fé. Todos foram a mesma coisa: um número recolhido de um documento intermédio, não confirmado na origem, e repetido depois com a confiança que a repetição dá.

    Corrigimos os quatro e a série passa a exigir, por norma, que cada número traga a fonte, o ano e a data de consulta, e que a conclusão que dele se tira seja verificada contra o conjunto de dados da fonte e não apenas contra o valor citado.

    Escrevo isto aqui porque me parece a única coisa honesta a fazer e porque a alternativa era não escrever. Uma casa que publica leituras do setor com pretensão de rigor tem de aplicar a si o critério que aplica aos outros, e a aplicação desse critério, quando é a sério, dói um bocado.

    O que passamos a observar

    O horizonte prometido já passou, e por isso fixo aqui outro, para o segundo semestre.

    A execução, e não o anúncio. O Governo apresentou em janeiro uma Agenda Nacional para a inteligência artificial com mais de 400 milhões de euros. Vamos acompanhar o que dela chega a formação de pessoas e a que pessoas chega, em vez de comentar o montante.
    O indicador que a meta usa, e não o mais favorável. A participação de adultos em formação vai continuar a ser reportada em pelo menos dois indicadores com valores muito diferentes. Vamos usar o que a meta usa, sempre, mesmo quando o outro nos favorece.
    A dimensão da empresa, e não o país. Os dados de adoção tecnológica mostram que quase todo o fosso português se produz nas pequenas e médias empresas, enquanto as grandes se comportam como as europeias. Vamos deixar de escrever sobre Portugal em bloco nesta matéria.
    E o que fica por medir. Taxas de participação e de conclusão existem e são públicas. Taxas de manutenção da aplicação, ao fim de seis meses e de um ano, não existem em nenhuma estatística nacional. É a lacuna mais consequente do setor e vamos insistir nela.

    O que fica dito

    O constrangimento da formação de adultos em Portugal não é de oferta. Há mais oferta do que houve em qualquer momento da última década, muita dela financiada e gratuita, e a participação não subiu na proporção.

    O constrangimento é de desenho e de contexto. De programas construídos para quem já participa, avaliados no momento em que a avaliação é mais favorável, e terminados no ponto onde a investigação diz que o trabalho começa.

    Há uma assimetria neste diagnóstico que convém não esconder. As três falhas são fáceis de nomear e difíceis de corrigir, e a dificuldade não é técnica. Mudar o momento da medição significa aceitar resultados piores. Mudar o destinatário do desenho significa desenhar para quem se inscreve menos, com turmas mais pequenas e custo por pessoa mais alto. E incluir o pós-formação significa vender um programa mais caro do que o do concorrente que não o inclui. As três correções custam dinheiro ou credibilidade no curto prazo, e é por isso que quase ninguém as faz.

    Nada disto se resolve com mais dinheiro. Resolve-se com decisões que custam pouco e que quase ninguém toma: mudar o momento da medição, mudar o destinatário do desenho, e incluir no programa o que acontece depois da última sessão.

    Vamos escrever sobre cada uma delas ao longo do próximo semestre, e vamos escrever com a base à vista, incluindo quando a base nos contraria.

    Até à próxima.

    João Dias Direção Criativa, Advance Station

    Fontes

    PESSOAS 2030, dados sobre o investimento na aprendizagem ao longo da vida e no apoio aos Centros Qualifica no período de programação 2021-2027, e monitorização das metas sociais europeias para Portugal. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Instituto Nacional de Estatística, Inquérito à Educação e Formação de Adultos 2022, com as taxas de participação por nível de escolaridade. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Blume, B. D., Ford, J. K., Baldwin, T. T. e Huang, J. L. (2010). «Transfer of Training: A Meta-Analytic Review». Journal of Management, 36(4), 1065-1105. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Saks, A. M. e Belcourt, M. (2006). «An investigation of training activities and transfer of training in organizations». Human Resource Management, 45(4), 629-648. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Universidade Aberta, dados institucionais sobre a evolução de estudantes em cursos conferentes e não conferentes de grau, e sobre o Projeto Impulso 2025. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Nota de origem

    Esta edição foi anunciada na página da Advance Station no LinkedIn a 5 de junho de 2026, com o tema e as três frentes de análise já fixados, e não chegou a ser publicada. Sai agora, com o tema anunciado, as três frentes cumpridas e a data real de publicação. Não se retrodata.

  • 2030 e o horizonte de planeamento

    Uma meta com prazo distante comporta-se como horizonte até ao dia em que passa a caber dentro do ciclo de planeamento em curso. Nesse dia, deixa de ser um número em apresentações e passa a ser uma linha de orçamento.

    Para as metas de 2030, esse dia já passou. Um plano trienal aprovado em 2026 termina em 2029. Um ciclo de fundos comunitários em execução vai até 2027, com derrapagem até 2029. Um percurso formativo desenhado agora tem a sua primeira coorte formada em 2027 e a segunda em 2028.

    Tudo o que se aprovar nos próximos meses já está dentro do prazo. E, no entanto, quase nenhum documento de planeamento setorial trata as metas de 2030 como matéria operacional.

    Este artigo faz o inventário dessas metas, mede a distância de Portugal a cada uma, e mostra por que a soma delas não é um número.

    As cinco metas, e onde Portugal está

    Meta para 2030 Alvo Portugal Origem
    Participação anual de adultos em formação 60% 35,5% em 2024 Plano de Ação do Pilar Europeu dos Direitos Sociais
    Empresas a usar nuvem, análise de dados ou IA 75% 11,54% em IA e 45% em nuvem Programa da Década Digital
    População dos 16 aos 74 com competências digitais básicas 80% 74% Programa da Década Digital
    PME com nível básico de intensidade digital 90% 71% Programa da Década Digital
    Taxa de emprego dos 20 aos 64 anos 78% na UE e 80% em Portugal 78,5% em 2024 Plano de Ação do Pilar Europeu dos Direitos Sociais

    A última linha é a que dá perspetiva às restantes.

    A meta que já está cumprida

    Portugal atingiu, em 2024, uma taxa de emprego de 78,5% na população dos 20 aos 64 anos. A meta europeia é de 78% e a meta nacional é de 80%. O país ultrapassou a primeira e está a um ponto e meio da segunda.

    78%
    Meta europeia
    78,5%
    Portugal em 2024
    80%
    Meta nacional

    Vale a pena deter-se aqui, porque é um resultado que a conversa pública raramente regista e porque muda a leitura das outras quatro.

    Se o problema português fosse de mobilização geral, de cultura de trabalho ou de dinamismo económico, apareceria também aqui. Não aparece. O país coloca gente a trabalhar ao nível das melhores metas europeias e falha, por larga margem, as metas que dizem respeito ao que essas pessoas sabem fazer e às ferramentas com que o fazem.

    O diagnóstico
    O défice não é de emprego. É de qualificação dentro do emprego, o que é um problema diferente, com instrumentos diferentes.

    Nenhuma se mede da mesma maneira

    Aqui está a razão por que estas cinco metas não se somam nem se comparam.

    A meta de participação em formação é monitorizada num indicador de doze meses derivado do Inquérito ao Emprego, que exclui a formação em posto de trabalho com acompanhamento. Não é o mesmo indicador que produz os 44,2% habitualmente citados a partir do Inquérito à Educação e Formação de Adultos, e a diferença entre os dois chega a ser de vinte pontos.

    A meta das empresas admite três tecnologias em alternativa: nuvem, análise de dados ou inteligência artificial. Uma empresa que use apenas serviços de nuvem conta para a meta. Por isso Portugal, que está nos 11,54% em inteligência artificial, está nos 45% em nuvem, e o valor que conta para a meta é o do conjunto e não o de cada tecnologia isolada.

    A meta das competências digitais mede a população dos 16 aos 74 anos por autoavaliação em cinco domínios, com um limiar definido. A meta das PME mede um índice de intensidade digital construído a partir de doze indicadores. E a meta de emprego mede uma taxa clássica de contas nacionais.

    Regra de leitura
    Cinco metas, cinco instrumentos, cinco universos. Quem apresentar as cinco num só gráfico está a apresentar cinco escalas diferentes no mesmo eixo.

    A meta mais próxima e a mais distante são o mesmo problema

    Feita a ressalva metodológica, resta uma leitura que sobrevive a ela.

    74% → 80%
    Competências digitais básicas Seis pontos de distância.
    35,5% → 60%
    Participação em formação Quase vinte e cinco pontos de distância.

    A meta mais próxima de ser cumprida, tirando o emprego, é a das competências digitais básicas: 74% contra 80%, seis pontos de distância. A mais distante é a da participação em formação: 35,5% contra 60%, quase vinte e cinco pontos.

    São, em boa medida, o mesmo problema visto de dois ângulos. Competências digitais básicas adquirem-se, para a maior parte da população adulta, através de utilização quotidiana e de aprendizagem informal. A participação em formação exige uma decisão consciente, tempo alocado, e frequentemente um empregador que a autorize.

    Estrutura vs. difusão
    Portugal está a conseguir o que se difunde por uso e a falhar o que exige estrutura.

    Isto tem uma consequência de política que a maior parte dos planos não retira: aproximar-se da meta de competências digitais não aproxima da meta de participação em formação. São mecanismos distintos e o primeiro pode até reduzir a pressão sobre o segundo, na medida em que produz a sensação de que o problema está a resolver-se.

    O mesmo princípio à escala do trimestre

    O que vale para 2030 vale para setembro, e à escala em que quem trabalha em formação sente todos os anos.

    Setembro não começa em setembro. Uma edição que abre na primeira semana de outubro tem de ter a captação a correr em agosto, o programa fechado em julho, os formadores confirmados em junho e a decisão de o fazer tomada em maio. Quem começa a preparar setembro em setembro está a preparar janeiro.

    Maio
    Decisão de realizar a edição
    Junho
    Equipa formadora confirmada
    Julho
    Programa fechado
    Agosto
    Página publicada e captação
    Setembro
    Inscrições fechadas
    Outubro
    Primeira sessão

    Vale a pena fazer a conta ao contrário, uma vez, com uma edição concreta. Uma turma que abre na primeira semana de outubro precisa de inscrições fechadas em meados de setembro, o que exige captação a correr desde meados de agosto, o que exige a página de oferta publicada no início de agosto, o que exige o programa fechado em julho, o que exige a equipa formadora confirmada em junho, o que exige a decisão de fazer a edição tomada em maio.

    Cinco meses entre a decisão e a primeira sessão, e nenhum deles é opcional. Quem comprime esta cadeia comprime sempre pelo mesmo sítio, que é a captação, e depois atribui a turma pequena ao mercado.

    A regra
    O prazo relevante não é a data em que a coisa acontece, é a data em que deixa de ser possível decidir sobre ela.

    Essa data é sempre muito anterior e quase nunca está marcada em lado nenhum. Vale a pena escrevê-la. Para cada objetivo com data, há um momento a partir do qual o resultado já está determinado e só falta ver acontecer. Um plano que não identifique esse momento não é um plano, é uma intenção com calendário.

    O que muda no perfil de quem se forma

    Há um terceiro horizonte, mais lento do que os outros dois, e é aquele em que o próprio destinatário da formação se transforma.

    Em junho de 2022, o Conselho da União Europeia adotou a recomendação para uma abordagem europeia às microcredenciais, definidas como certificações de percursos curtos, não conducentes a grau, com foco em competência específica e reconhecimento no espaço europeu. Foi o momento em que a formação curta e certificável deixou de ser uma prática dispersa e passou a ter enquadramento comum.

    Em Portugal, o instrumento de execução foi sobretudo o Plano de Recuperação e Resiliência, através de programas como o Impulso 2025, que financiaram microcredenciais em instituições de ensino superior. Só na Universidade Aberta, entre 2022 e 2024, passaram por estas formações 4 725 pessoas.

    56,5%
    25 aos 34 anos
    49,9%
    35 aos 44 anos
    46,2%
    45 aos 54 anos

    E a idade de quem se forma está a subir. Os dados europeus mostram que a participação em educação e formação decresce com a idade, mas menos do que se supõe: 56,5% na faixa dos 25 aos 34 anos, 49,9% entre os 35 e os 44, e 46,2% entre os 45 e os 54. Uma diferença de dez pontos ao longo de trinta anos de vida ativa não é um colapso, é um declive suave.

    Com a vida ativa a estender-se, o efeito prático é que a formação de adultos deixa de ser um assunto do início de carreira e passa a ser um assunto de todas as fases dela.

    O que conta como microcredencial

    A recomendação europeia de 2022 não se limitou a nomear a coisa. Fixou o que uma microcredencial tem de conter para ser reconhecível fora de quem a emite, e essa lista é a parte operacional que costuma passar despercebida.

    Uma microcredencial deve registar os resultados de aprendizagem efetivamente adquiridos, avaliados segundo critérios transparentes e previamente definidos.

    Resultados de aprendizagem O que foi efetivamente adquirido e avaliado.
    Identificação Quem aprendeu e quem emitiu a credencial.
    Data e volume de trabalho Quando aconteceu e qual o esforço envolvido.
    Nível e avaliação A que nível corresponde e de que forma foi avaliada.
    Garantia de qualidade A credencial deve estar abrangida por um sistema de qualidade.

    Nada disto é exigente do ponto de vista pedagógico. É exigente do ponto de vista administrativo, e é aí que a maior parte da oferta formativa portuguesa não cumpre. Uma formação curta com certificado de presença não é uma microcredencial, por mais bem desenhada que seja: falta-lhe a avaliação contra critério e a declaração de resultados de aprendizagem.

    A consequência prática para quem opera no setor é concreta. A diferença entre emitir um certificado e emitir uma microcredencial reconhecível não está no conteúdo nem na duração. Está no que fica registado, e o que fica registado é o que permite a quem se formou usar aquilo noutro sítio.

    Onde está a diferença
    É trabalho de retaguarda, não é trabalho de sala. E é a condição de a formação curta valer alguma coisa depois de terminar.

    Uma leitura que é preciso corrigir

    Circula um número sobre microcredenciais que merece cuidado, e é um número que esta casa já usou.

    Entre os anos letivos de 2018-2019 e 2023-2024, o número de estudantes em cursos não conferentes de grau da Universidade Aberta cresceu 98%. É facto, e costuma ser apresentado como prova da ascensão da formação curta.

    Só que, no mesmo período e na mesma instituição, os cursos conferentes de grau cresceram 89%.

    +98%
    Cursos não conferentes de grau 2018-2019 a 2023-2024
    +89%
    Cursos conferentes de grau No mesmo período e na mesma instituição

    A diferença entre 98% e 89% é de nove pontos, não é de uma ordem de grandeza. O que os dois números mostram, lidos em conjunto, é uma instituição que quase duplicou em ambas as frentes, provavelmente por efeito do financiamento do Plano de Recuperação e Resiliência e da procura pós-pandemia por ensino a distância.

    Não é o retrato de uma substituição do grau pela microcredencial. É o retrato de um crescimento paralelo. A microcredencial está a somar-se, não a substituir, e a diferença entre estas duas leituras é decisiva para quem decide onde investir.

    Leitura corrigida
    O primeiro número, sozinho, sustenta uma estratégia. Os dois juntos sustentam outra.

    O que os dados não permitem concluir

    As cinco metas não são comparáveis. As cinco metas têm bases de medição diferentes e este artigo apresenta-as lado a lado por conveniência de leitura, não porque sejam comparáveis. Qualquer conclusão que dependa da comparação direta entre duas delas é indevida.
    A Universidade Aberta não representa todo o sistema. Os dados da Universidade Aberta referem-se a uma instituição, a maior do país no ensino a distância, e não ao sistema de ensino superior português. A extrapolação para o conjunto não está fundamentada.
    Os dados por idade são europeus. Os valores de participação por faixa etária são europeus e de 2022. Servem para descrever a forma do declive, não para caracterizar Portugal em 2026.

    O que isto significa, conforme quem lê

    Para quem desenha programas. O calendário de produção precede sempre o calendário de oferta, e a data que importa é aquela a partir da qual já não se pode decidir. Vale a pena fixá-la por escrito em cada ciclo, porque é a única que não aparece em nenhum documento.
    Para quem contrata formação. A decisão do próximo ciclo toma-se no ciclo atual. Um plano de formação aprovado em janeiro para arrancar em janeiro arranca em abril, e a diferença raramente é atribuída à decisão tardia.
    Para quem define política. As cinco metas não se somam e progredir numa não implica progredir noutra. A que está mais perto avança por difusão e a que está mais longe exige estrutura, e é sobre a segunda que os instrumentos de política têm mais efeito e menos atenção.
    Leitura da casa

    A leitura da casa

    Portugal chegou às metas de emprego e está longe das metas de qualificação. Isto não é um paradoxo, é uma sequência: primeiro coloca-se gente a trabalhar, depois qualifica-se quem trabalha, e o país está entre as duas fases há mais tempo do que devia.

    A parte incómoda é que a segunda fase não acontece por difusão. As competências digitais básicas subiram porque as pessoas usam telemóveis e serviços públicos em linha todos os dias. A participação em formação não sobe por uso: sobe por decisão, e a decisão tem custo, tempo e alguém que a autorize.

    Faltam menos de quatro anos e meio. Não é tempo para desenhar sistemas novos, é tempo para executar os que existem, e a diferença entre chegar perto e não chegar vai depender de decisões que estão a ser tomadas agora, em documentos onde a data de 2030 nem sequer é mencionada.

    Fontes

    Comissão Europeia, Plano de Ação sobre o Pilar Europeu dos Direitos Sociais, 2021, com as metas de participação em formação e de emprego para 2030. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Comissão Europeia, Programa da Década Digital para 2030 e Relatório sobre o Estado da Década Digital, com as metas relativas a empresas, competências digitais e intensidade digital das PME. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    PESSOAS 2030, dados de monitorização das metas sociais europeias para Portugal, com os indicadores de 2024. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Eurostat, Adult learning statistics, série trng_aes_100, com a participação em educação e formação por faixa etária. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Conselho da União Europeia, recomendação sobre uma abordagem europeia às microcredenciais para a aprendizagem ao longo da vida e a empregabilidade, junho de 2022. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Universidade Aberta, dados institucionais sobre a evolução de estudantes em cursos conferentes e não conferentes de grau entre 2018-2019 e 2023-2024, e sobre o Projeto Impulso 2025. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Nota de origem

    Este artigo reúne e desenvolve três publicações da Advance Station no LinkedIn, entre 28 de abril e 18 de julho de 2026. O texto foi reescrito para leitura contínua, a base foi alargada a fontes oficiais que as publicações não citavam, e uma leitura anterior sobre microcredenciais foi corrigida.

    • 28 de abril de 2026 · Carta de Navegação, edição inaugural, com seis movimentos sobre o horizonte formativo.
    • 26 de maio de 2026 · Lente de Descoberta, sobre 2030 caber dentro do ciclo de planeamento em curso.
    • 18 de julho de 2026 · Lente de Descoberta, sobre setembro não começar em setembro.
  • Competências internas de IA: o constrangimento das PME

    Em 2025, 11,54% das empresas portuguesas com dez ou mais pessoas ao serviço utilizavam pelo menos uma tecnologia de inteligência artificial. A média da União Europeia foi de 19,95%. A distância é de 8,41 pontos percentuais e é habitualmente lida como um atraso nacional.

    É uma leitura incompleta, e a parte que falta é a que interessa a quem decide.

    O quadro, antes da leitura

    Indicador Portugal União Europeia Ano
    Empresas com 10 ou mais pessoas que usam IA 11,54% 19,95% 2025
    Variação face ao ano anterior +2,91 p.p. n.d. 2025
    Variação em 2024 +0,8 p.p. +5,5 p.p. 2024
    Adoção nas grandes empresas 49% 55,03% 2025
    Adoção nas pequenas empresas n.d. 17% 2025
    Adoção nas médias empresas n.d. 30,36% 2025
    Empresas que apontam a falta de competências em IA como principal entrave 28% n.d. 2.º trim. 2025
    Meta da Década Digital para 2030 75% 75% 2030

    A linha das grandes empresas é a que desarma a leitura habitual.

    11,54%
    Empresas portuguesas com 10 ou mais pessoas que usam IA
    19,95%
    Média da União Europeia
    8,41 p.p.
    Distância entre Portugal e a média europeia

    Não é um problema do país, é um problema de dimensão

    As grandes empresas portuguesas adotaram inteligência artificial em 49% dos casos. A média europeia para grandes empresas é de 55,03%. Seis pontos de diferença.

    As pequenas e médias empresas portuguesas estão nos 11,5%, contra uma média europeia próxima dos 20%, com 17% nas pequenas e 30,36% nas médias.

    Grandes empresas Portugal: 49%
    União Europeia: 55,03%
    PME Portugal: 11,5%
    União Europeia: cerca de 20%

    Se a explicação fosse cultural, regulamentar ou de mentalidade nacional, teria de aparecer nos dois grupos. Aparece num só. As grandes empresas portuguesas comportam-se aproximadamente como as suas congéneres europeias. São as pequenas e médias que abrem o fosso, e é aí que quase toda a distância nacional se produz.

    O que muda
    Isto não é uma nuance estatística. É a diferença entre um problema de país, que se trata com campanhas e discurso, e um problema de estrutura empresarial, que se trata com desenho.

    O mapa europeu, e o que distingue quem lidera

    A dispersão entre Estados-Membros é enorme e vale a pena olhar para os extremos.

    No topo estão a Dinamarca, com 42,03% das empresas a usar inteligência artificial, a Finlândia, com 37,82%, e a Suécia, com 35,04%. No fundo estão a Roménia, com 5,21%, a Polónia, com 8,36%, e a Bulgária, com 8,55%. Portugal, com 11,54%, ocupa a vigésima posição entre vinte e sete.

    Entre o primeiro e o último há uma diferença de oito vezes, o que é muito para um bloco com mercado único, regulação comum e acesso equivalente às mesmas ferramentas. As ferramentas são as mesmas em Lisboa e em Copenhaga, e o preço também. A diferença está noutro sítio.

    Há uma coincidência que merece ser registada com cuidado. Os três países que lideram a adoção empresarial de IA estão também entre os que registam maior participação de adultos em educação e formação na União Europeia. A Suécia, em particular, aparece no topo das duas tabelas.

    Isto é correlação e não causalidade demonstrada, e não temos base para afirmar que uma produz a outra. É perfeitamente possível que ambas resultem de uma terceira condição, como a estrutura de qualificações da população ativa ou a dimensão média das empresas.

    Hipótese de trabalho
    A capacidade de adotar tecnologia nova é função da capacidade instalada de aprender, e essa capacidade constrói-se antes de a tecnologia aparecer, não depois.

    Se a hipótese estiver certa, a política de adoção tecnológica e a política de qualificação de adultos não são duas políticas. São a mesma, com dois orçamentos.

    Por que a resposta das PME não passa pela contratação

    A saída óbvia seria contratar quem já sabe. Para a maioria das pequenas e médias empresas portuguesas, essa saída não está disponível, e há três razões documentadas.

    A escassez de talento é das mais altas do mundo. Em 2025, 84% dos empregadores em Portugal reportaram dificuldade em encontrar as competências de que precisam, valor que coloca o país na terceira posição mundial, à frente da média global de 74% e atrás apenas da Alemanha e de Israel.
    A procura concentra-se onde há capacidade de pagar. Uma organização de vinte pessoas compete pelo mesmo perfil que uma multinacional, no mesmo mercado, e perde por razões que não tem como corriger no prazo em que precisa da competência.
    E a competência de que a PME precisa não é a que o mercado vende. Os anúncios procuram quem constrói modelos. Uma empresa de serviços com trinta pessoas não precisa de construir nada: precisa de gente que decida bem sobre o que a ferramenta produz, o que é outra coisa e não se contrata, instala-se.

    Resta, portanto, o desenvolvimento interno. E as empresas já disseram onde está o travão.

    O que as próprias empresas identificam como entrave

    Segundo o Employment Outlook Survey do ManpowerGroup, relativo ao segundo trimestre de 2025, 28% das empresas portuguesas identificam a falta de competências em inteligência artificial como o principal entrave à implementação desta tecnologia.

    28% dizem competências
    Não diz custo. Não diz regulação. Não diz falta de casos de uso, nem imaturidade da tecnologia, nem infraestrutura. Diz competências.

    É uma resposta rara na sua clareza. Quando um em cada quatro empregadores identifica o mesmo travão, e esse travão é aquele que a formação existe para resolver, a conversa deixa de ser sobre se vale a pena formar e passa a ser sobre o quê, para quem e quando.

    Uma nota sobre a base de medição

    É preciso um cuidado antes de continuar, porque circulam dois números diferentes para a mesma coisa.

    O Eurostat, com dados reportados pelo Instituto Nacional de Estatística, indica 11,54% de empresas portuguesas com dez ou mais pessoas ao serviço a utilizar IA em 2025. O Relatório sobre o Estado da Década Digital, da Comissão Europeia, refere 15% de empresas portuguesas com IA.

    Não é contradição
    São recortes diferentes de universo e de momento de recolha, produzidos por duas linhas de trabalho da mesma casa estatística europeia.

    Quem citar um e comparar com o outro produz uma variação que não existe.

    Este artigo trabalha com a série do Eurostat, porque é a que permite comparação entre Estados-Membros e entre classes de dimensão, que é exatamente o corte de que este assunto precisa. Quem preferir a outra fonte deve manter-se nela do princípio ao fim.

    É a terceira vez que este cuidado aparece nesta série, e não é hábito de estilo. É a consequência prática de trabalhar com estatística oficial: quase todos os indicadores relevantes existem em mais de uma versão.

    A aritmética de 2030

    O Programa da Década Digital fixa, para 2030, a meta de pelo menos 75% das empresas da União Europeia a utilizarem computação em nuvem, análise de grandes volumes de dados ou inteligência artificial.

    Portugal está nos 11,54%. Ainda que se conte pelo indicador mais favorável, está nos 15%.

    Falta menos de meia década, e a progressão recente não sustenta a trajetória: em 2024 Portugal cresceu 0,8 pontos percentuais, um dos menores aumentos da União, e em 2025 acelerou para 2,91 pontos. É melhoria real e é insuficiente por uma ordem de grandeza.

    Portugal, 2025 11,54%
    Meta, 2030 75%

    Não escrevemos isto para produzir alarme, que não serve para nada. Escrevemos porque a distância entre a meta e a trajetória define o tipo de intervenção que faz sentido. Uma distância de dez pontos resolve-se com incentivos e comunicação. Uma distância de sessenta resolve-se, se resolver, com capacitação em escala, e capacitação em escala é uma decisão de política formativa antes de ser uma decisão tecnológica.

    O Governo apresentou em janeiro de 2026 uma Agenda Nacional para a inteligência artificial, com investimento superior a 400 milhões de euros. O montante é significativo. O que ele compra em competência instalada, e em quem, é a pergunta que ainda não tem resposta pública.

    Para que estão as empresas portuguesas a usar IA

    Os dados sobre utilização acrescentam a informação mais útil de todas para quem desenha formação.

    59,4%
    Análise de linguagem escrita
    50,9%
    Geração de conteúdos multimédia
    45,6%
    Produção de texto, voz ou código

    Entre as empresas portuguesas que usam inteligência artificial, as aplicações mais frequentes são a análise de linguagem escrita, com 59,4%, mais 11,3 pontos do que no ano anterior, a geração de conteúdos multimédia, com 50,9%, e a produção de texto, voz ou código, com 45,6%.

    Não é automação industrial. Não é visão computacional. Não é otimização logística. São três usos que têm uma coisa em comum: todos produzem um resultado cuja qualidade depende do julgamento de quem o avalia.

    Um modelo que gera um texto não sabe se o texto está certo para aquele destinatário. Um modelo que resume um contrato não sabe o que naquele contrato é decisivo. A ferramenta produz, a pessoa decide, e a decisão é onde o valor se cria ou se perde.

    Na peça anterior desta série, vimos que a investigação sobre transferência distingue competências fechadas, em que existe uma forma correta de fazer, de competências abertas, em que a aplicação depende do julgamento. Os três usos dominantes de IA nas empresas portuguesas são, todos eles, competências abertas.

    Consequência
    Formar em IA nas PME portuguesas não é sobretudo formação técnica. É formação em critério.

    O que muda no desenho de um percurso interno

    Quatro consequências, e nenhuma delas é tecnológica.

    A quem se dirige. O destinatário não é o perfil técnico, é a gestão intermédia. É quem revê o que sai, quem decide o que se envia e quem responde pelo erro. Formar apenas quem já domina a ferramenta produz uma ilha de competência que não se propaga.
    O que se treina. Não é a operação da ferramenta, que se aprende sozinha em horas. É o critério de aceitação: o que torna aceitável um texto gerado, um resumo, uma proposta de resposta a cliente. Esse critério existe na cabeça de quem já faz bem o trabalho e nunca está escrito, e explicitá-lo é metade do programa.
    Com que material. Casos do próprio trabalho, não exercícios genéricos. Uma sessão em que se rejeita e corrige um resultado real da semana passada ensina mais do que três sobre a arquitetura de modelos de linguagem.
    Com que ritmo. Ciclos curtos e repetidos, com regresso ao trabalho entre sessões. A investigação sobre transferência é clara quanto ao ponto: a aplicação decai com o tempo e o determinante da manutenção é o ambiente de trabalho. Um curso intensivo de dois dias sobre IA produz entusiasmo em maio e nada em outubro.

    Dois mercados, outra vez

    Na peça anterior desta série, a demografia empresarial mostrou que o mercado formativo português são pelo menos dois: as organizações jovens em consolidação incerta e as que crescem de forma sustentada. Os dados de adoção de IA confirmam o mesmo corte por outro caminho.

    Empresa em consolidação incerta Adota inteligência artificial por necessidade imediata e sem estrutura: alguém experimenta uma ferramenta, funciona, espalha-se por imitação, e ninguém definiu critério nenhum. O risco não é a não adoção, é a adoção sem critério, que produz erros que ninguém deteta porque não há revisão instalada.
    Empresa em crescimento sustentado Tem processo, tem revisão, tem quem responda, e por isso demora mais a adotar. Quando adota, adota melhor, e é o segmento onde os 49% das grandes empresas se aproximam da média europeia.

    Para quem desenha oferta, isto significa que o mesmo programa serve mal os dois. No primeiro caso, o que falta é critério de aceitação e alguém que reveja. No segundo, o que falta é velocidade e permissão para experimentar sem passar por três aprovações.

    Vender formação em IA como categoria única, sem este corte, é o erro que o mercado está a cometer agora, e é o mesmo erro que se cometeu com a formação em competências digitais há uma década.

    O que os dados não permitem concluir

    Três limites.

    A adoção declarada não mede qualidade nem retorno. Os indicadores de adoção do Eurostat medem utilização declarada de pelo menos uma tecnologia de IA. Não medem intensidade, não medem qualidade da utilização e não medem retorno. Uma empresa que usa uma ferramenta de geração de texto ocasionalmente conta tanto como uma que reorganizou um processo inteiro.
    O indicador do ManpowerGroup mede perceção. Mede perceção de quem responde por recursos humanos, sobre o entrave que considera principal. Não mede o défice efetivo de competências, e a resposta pode refletir tanto uma carência real como a ausência de um diagnóstico que a permita nomear de outra maneira.
    A cadeia é argumento da casa. A relação que este artigo estabelece entre a dimensão da empresa, a indisponibilidade de contratação e a necessidade de desenvolvimento interno é leitura desta casa. Os dados sustentam cada elo separadamente. A cadeia é argumento, e fica declarada como argumento.

    O que isto significa, conforme quem lê

    Para quem desenha programas. O produto que o mercado precisa não é um curso de IA. É um percurso curto e repetido, para gestão intermédia, construído sobre casos do próprio trabalho, que explicite critérios de aceitação. Quem vender formação técnica a uma PME de serviços está a vender-lhe a parte que ela consegue resolver sozinha.
    Para quem contrata formação numa PME. Não espere pela ferramenta para tratar da competência. As duas coisas instalam-se a ritmos diferentes: a ferramenta em semanas, o critério em meses. Um plano formativo que arranque depois da decisão tecnológica chega sempre tarde, e a diferença paga-se em resultados medíocres atribuídos à tecnologia.
    Para quem define política. O fosso é de dimensão empresarial e não de país, o que significa que instrumentos horizontais produzem efeito desigual. O apoio à qualificação interna em pequenas e médias empresas tem, nesta matéria, retorno superior ao apoio à adoção tecnológica, porque a tecnologia sem competência instalada produz utilização declarada e não produz efeito.
    Leitura da casa

    A leitura da casa

    Portugal tem grandes empresas que adotam IA quase como as europeias e pequenas empresas que não adotam. O país não está atrasado por inteiro: está atrasado onde estão quase todas as empresas e quase todo o emprego.

    A resposta não é comprar competência, porque não está à venda em quantidade nem a preço que a PME portuguesa possa pagar. É instalá-la, e instalá-la em quem decide, não em quem opera.

    E há uma inversão de calendário que vale a pena fixar, porque é a coisa mais simples deste artigo e a que menos se cumpre. A adoção da ferramenta não espera pelo plano de formação. O plano é que tem de chegar primeiro.

    Fontes

    Eurostat, Use of artificial intelligence in enterprises, série isoc_eb_ai, dados de 2023 a 2025, com desagregação por país e por classe de dimensão de empresa. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Instituto Nacional de Estatística, inquérito à utilização de tecnologias de informação e comunicação nas empresas, dados de 2025 reportados ao Eurostat. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    ManpowerGroup, Employment Outlook Survey, segundo trimestre de 2025, resultados para Portugal. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    ManpowerGroup, Global Talent Shortage Survey 2025, resultados para Portugal. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Comissão Europeia, Programa da Década Digital para 2030, com a meta de 75% de empresas a utilizarem computação em nuvem, análise de dados ou inteligência artificial, e Relatório sobre o Estado da Década Digital. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Nota de origem

    Este artigo reúne e desenvolve três publicações da Advance Station no LinkedIn, entre 19 de maio e 4 de agosto de 2026. O texto foi reescrito para leitura contínua e a base estatística foi alargada a fontes oficiais europeias que as publicações originais não citavam.

    • 19 de maio de 2026 · Lente de Descoberta, sobre o risco competitivo não ser a velocidade da tecnologia.
    • 21 de maio de 2026 · Observatório AS, sobre a recolocação invertida nas pequenas e médias empresas.
    • 4 de agosto de 2026 · Lente de Descoberta, sobre a adoção não esperar pelo plano de formação.
  • A participação dos adultos portugueses em formação

    A participação dos adultos portugueses em formação

    Em 2022, 44,2% da população residente em Portugal entre os 25 e os 64 anos participou, nos doze meses anteriores, em pelo menos uma atividade de educação formal ou não formal. A média da União Europeia foi de 46,6%. Portugal ficou em 18.º lugar entre os vinte e sete.

    O número vem do Inquérito à Educação e Formação de Adultos do Instituto Nacional de Estatística, divulgado a 22 de março de 2024. É o indicador mais citado quando se fala de qualificação de adultos em Portugal. É também aquele que com mais frequência aparece comparado com coisas que não mede.

    Esta é a primeira edição do Roteiro e começa devagar, de propósito. Antes de dizer o que o número significa, convém dizer o que ele é. Um indicador mal enquadrado não é um indicador fraco: é um indicador que leva quem decide para o sítio errado, com a confiança de quem tem dados.

    O quadro, antes da leitura

    Indicador Portugal União Europeia Fonte
    Participação em educação ou formação, 25-64 anos, últimos 12 meses, 2022 44,2% 46,6% INE, IEFA 2022; Eurostat, trng_aes_100
    Posição no conjunto dos 27 Estados-Membros, 2022 18.º n.d. INE, IEFA 2022
    Participação, população com ensino superior, 2022 68,3% n.d. INE, IEFA 2022
    Participação, população com o 3.º ciclo do básico no máximo, 2022 27,3% n.d. INE, IEFA 2022
    Participação, homens e mulheres, 2022 45,5% e 43,0% n.d. INE, IEFA 2022
    Participação, população empregada, 2022 50,6% n.d. INE, IEFA 2022
    Indicador de monitorização da meta de 2030, 2024 35,5% 28,1% PESSOAS 2030; Eurostat, trng_lfs_17
    Meta para 2030, europeia e nacional 60% 60% Plano de Ação do Pilar Europeu dos Direitos Sociais, 2021

    Duas linhas deste quadro medem a mesma coisa e dão valores diferentes. É por aí que se começa.

    Dois inquéritos, dois números, o mesmo conceito

    Há duas formas oficiais de medir quantos adultos participam em formação ao longo de um ano, e produzem resultados muito distantes um do outro.

    O Inquérito à Educação e Formação de Adultos, conhecido pela sigla europeia AES, tem cadência de cinco em cinco anos e pergunta sobre os últimos doze meses. Foi este que produziu os 44,2%.

    O Inquérito ao Emprego, o LFS, passou a recolher a mesma informação a partir de 2022, com desenho diferente. Para o mesmo ano e o mesmo conceito, o AES deu 46,6% de participação na União Europeia e o LFS deu 25,1%. Vinte e um pontos percentuais de distância entre dois inquéritos oficiais sobre a mesma matéria.

    A distinção que importa
    O conceito é o mesmo. A base de medição não é. Os dois valores são oficiais e não são diretamente comparáveis.

    A diferença não é erro de nenhum dos dois. Resulta do desenho de cada um: o que conta como atividade de formação, como a pergunta é formulada, quanto tempo separa o acontecimento da recolha, e se se inclui ou não a formação em posto de trabalho com acompanhamento. Um inquérito dedicado, com questionário longo e memória assistida, encontra atividades que um inquérito generalista não capta.

    O Eurostat considera o AES com a formação em posto de trabalho incluída a melhor medida da participação em aprendizagem de adultos. As metas europeias, porém, foram fixadas a partir da base que exclui essa componente. As duas coisas coexistem na mesma casa estatística e servem propósitos distintos.

    Guardar esta distinção é o que permite ler tudo o resto sem tropeçar. E é também o que separa uma leitura de setor de uma citação de circunstância.

    A meta de 2030 não se mede com este número

    O Plano de Ação sobre o Pilar Europeu dos Direitos Sociais, adotado em 2021, fixa três metas para 2030. Uma delas é que pelo menos 60% de todos os adultos participem anualmente em ações de formação. É meta europeia e é também meta nacional portuguesa.

    A tentação é imediata: 44,2% contra 60%, faltam quinze pontos e falta menos de uma década. A subtração está certa e a comparação está errada, porque os dois valores não assentam na mesma base de medição.

    Monitorização 2024
    35,5%
    Portugal
    Meta 2030
    60%
    Portugal e União Europeia

    Na base em que a meta é efetivamente monitorizada, Portugal registou 35,5% em 2024, valor 7,4 pontos acima da média da União Europeia, de acordo com o programa PESSOAS 2030. A distância real para a meta ronda os vinte e cinco pontos percentuais, e não os quinze.

    Há aqui duas notícias e convém não perder nenhuma. A primeira é que a distância é maior do que a leitura comum sugere. A segunda é que, nesta base, Portugal está acima da média europeia, o que a leitura comum também não diz. Os dois factos são verdadeiros ao mesmo tempo e nenhum deles anula o outro.

    Dizê-lo não é pessimismo nem autoelogio. É a diferença entre um plano construído sobre a distância verdadeira e um plano construído sobre uma distância confortável. Quem desenha oferta formativa a partir da segunda vai encontrar a primeira mais tarde, e em pior altura.

    O que o inquérito mede, e o que não mede

    O universo é a população residente entre os 25 e os 64 anos. O período de referência são os doze meses anteriores à recolha. A cadência é quinquenal: os dados são de 2022, foram publicados em 2024, e a edição seguinte é esperada para 2027 ou 2028. Até lá, é este o retrato disponível, e qualquer decisão tomada em 2026 assenta em fotografia com quatro anos.

    Há três coisas que o indicador não faz, e todas importam a quem o usa para decidir.
    Não mede duração. Uma pessoa que assistiu a uma sessão de duas horas conta exatamente como quem concluiu um percurso de quatrocentas. O indicador é binário: participou ou não participou.
    Não mede conclusão. Participar e terminar são registos distintos, e o inquérito regista o primeiro. Um sistema com participação alta e conclusão baixa produz exatamente o mesmo valor que um sistema com participação alta e conclusão alta.
    Não mede efeito. Nada no indicador diz se quem participou passou a fazer alguma coisa de outra maneira. Sobre isso, o número é silencioso, e quem o cita como prova de impacto está a pedir-lhe o que ele não tem.

    Isto não desvaloriza o indicador. Delimita-o. Um termómetro é um bom instrumento e não diz o que se tem.

    O que a próxima edição pode mudar

    A cadência quinquenal tem uma consequência de planeamento que raramente é considerada. A edição seguinte do inquérito, esperada para 2027 ou 2028, será a primeira a captar por inteiro o período de execução do atual ciclo de fundos europeus dedicado à qualificação de adultos, e a primeira a medir um mercado de trabalho já reorganizado em torno de ferramentas de inteligência artificial.

    Isso significa duas coisas para quem decide agora. A primeira é que o retrato disponível é anterior a boa parte do investimento em curso, e que julgar o efeito desse investimento com estes números é julgá-lo antes de tempo. A segunda é que qualquer estratégia desenhada em 2026 vai ser avaliada, mais tarde, com dados que ainda não existem e cuja metodologia pode ter mudado entretanto.

    A conclusão prática é simples: fixar agora o que se vai medir internamente, em vez de esperar pelo indicador nacional. Uma organização que saiba quem participou, com que escolaridade e com que resultado, não fica dependente de uma fotografia que chega de cinco em cinco anos e com dois anos de atraso na publicação.

    O recorte que muda a conversa

    O valor nacional agregado esconde uma assimetria que o próprio inquérito expõe, e que é bastante mais informativa do que o valor médio.

    Entre as pessoas com ensino superior, a taxa de participação foi de 68,3%. Entre as que tinham, no máximo, o 3.º ciclo do ensino básico, foi de 27,3%. Mais do dobro.
    Gráfico de barras comparando a taxa de participação em formação em Portugal por nível de escolaridade: 68,3% no ensino superior e 27,3% até ao 3.º ciclo do ensino básico
    Participação em formação por nível de escolaridade. Fonte: INE, IEFA 2022.

    O padrão repete-se nos vinte e sete países da União Europeia, e também na Noruega e na Suíça. Não é anomalia portuguesa: é regularidade estrutural europeia. Em nenhum país a formação contínua chega proporcionalmente mais a quem tem menos escolaridade.

    A consequência é desconfortável e simples de enunciar. A formação contínua, tal como está organizada, chega sobretudo a quem já acumulou capital escolar. Um instrumento pensado como universal produz efeito desigual, e a desigualdade que produz é a mesma que existia à partida, com um ano suplementar de vantagem para quem já vinha à frente.

    Convém uma cautela de leitura, e vale a pena que fique escrita. A relação entre escolaridade e procura de formação está documentada de forma consistente e repetida, mas é correlação e não causalidade demonstrada. O inquérito mostra que os dois factos andam juntos. Não prova qual deles produz o outro, nem exclui que ambos dependam de uma terceira condição, como a natureza da função exercida.

    Por que quem tem mais formação procura mais formação

    Há quatro condições que a prática do setor identifica com regularidade, e nenhuma delas é motivação.

    Familiaridade com o formato. Quem passou mais anos em contexto de aprendizagem reconhece o código de uma sala, de um programa, de uma avaliação. Sabe o que é um sumário, o que se espera numa apresentação final, como se pede ajuda sem parecer incapaz. Quem saiu cedo do sistema reencontra um ambiente que já lhe correu mal uma vez, e a memória disso é um custo real na decisão de se inscrever.
    Informação. A oferta formativa circula em redes profissionais, em intranets, em conversas de equipa e em caixas de correio institucionais. Quem está fora dessas redes não recusa a formação: não chega a saber que ela existe. A recusa e o desconhecimento produzem o mesmo registo estatístico e são problemas completamente diferentes.
    O empregador. Quem exerce funções qualificadas trabalha, com maior probabilidade, em organizações que têm plano de formação, orçamento próprio e horas atribuídas. A participação que o inquérito regista como individual é, em boa parte, uma decisão organizacional que a pessoa apenas aceita. Os 50,6% de participação entre a população empregada dizem isto mesmo.
    O custo de oportunidade. Horário rígido, turnos, deslocação e trabalho pago à hora tornam qualquer percurso mais caro para quem menos ganha, mesmo quando a formação é gratuita. A gratuitidade resolve o preço e não resolve o custo.

    Nenhuma destas quatro condições é falta de vontade. São todas condições de acesso. E é exatamente essa a distinção que interessa a quem desenha programas, porque as condições alteram-se com desenho e a vontade não se altera com nada que uma entidade formadora possa fazer.

    Dois recortes que quase nunca aparecem

    O inquérito documenta ainda duas assimetrias que raramente chegam à conversa pública portuguesa.

    Em Portugal, e ao contrário do que sucede na maioria dos países europeus, a participação dos homens foi superior à das mulheres: 45,5% contra 43,0%. Portugal está entre os seis países da União Europeia onde isso acontece, ao lado de Itália, Chipre, Chéquia, Eslováquia e Hungria. Nos restantes vinte e um, a relação inverte-se.

    E a situação perante o emprego separa ainda mais. Entre a população empregada, participaram 50,6%, valor bastante acima da média nacional de 44,2%. O contraste com quem está fora do emprego desmente uma ideia instalada: a de que a formação funciona sobretudo como instrumento de regresso ao mercado. Nos números, funciona sobretudo para quem já lá está, e reforça a posição de quem já a tem.

    O que teria de mudar no desenho

    Se o problema é de condições e não de vontade, então é resolúvel com desenho. Quatro consequências práticas, por ordem de dificuldade crescente.

    Captação não é comunicação. Anunciar melhor uma oferta desenhada para quem já se inscreve não altera quem se inscreve. Chegar a quem não está nas redes onde a oferta circula exige outros canais e, quase sempre, exige intermediários que já tenham essa relação estabelecida: autarquias, juntas de freguesia, empregadores de setores com baixa qualificação média, estruturas associativas locais. É trabalho de terreno e não de campanha.
    O formato tem de admitir entrada tardia. Percursos modulares, curtos, com certificação parcial e possibilidade de retomar depois de uma interrupção não são uma versão diluída do percurso longo. São o formato que torna possível começar a quem não consegue garantir doze meses de disponibilidade contínua. Quem desenha para o percurso ideal desenha para quem já tem condições ideais.
    O horário e o lugar decidem mais do que o conteúdo. Um programa excelente às dezanove horas no centro da cidade está fechado a quem faz turnos ou vive a quarenta minutos de transporte público. A qualidade pedagógica só começa a contar depois de a pessoa conseguir chegar, e a maior parte da desistência acontece antes da primeira sessão.
    A pergunta de desenho que vale mais do que qualquer inquérito de satisfação. Para quem é que este programa é fácil de começar? Se a resposta for «para quem já fez formação antes», o programa vai confirmar os 68,3% e não vai mexer nos 27,3%, por muito bom que seja o conteúdo e por muito alta que seja a avaliação final.

    O que isto significa, conforme quem lê

    Para quem desenha programas. Quem mais precisa é quem menos se inscreve, e isso é um problema de desenho e de captação, não de motivação de quem aprende. Um programa dirigido a escolaridade baixa não é o mesmo programa com outro preço: é outro produto, com outro formato, outro canal e outro ponto de entrada.
    Para quem contrata e decide planos internos. O plano de formação de uma organização tende a replicar a estrutura de qualificações que ela já tem. Vale a pena verificar quem participou no último ciclo, por nível de função, antes de concluir que a oferta interna é aberta a todos.
    Para quem define política. O instrumento universal produz efeito desigual, e o indicador de participação não distingue quem foi a uma sessão de quem concluiu um percurso. Uma meta expressa em participação pode ser cumprida sem que a estrutura de qualificações do país se altere.
    Leitura da casa

    A leitura da casa

    Portugal tem um indicador de participação abaixo da média europeia, mas o problema principal não está no valor agregado. Está na distribuição.

    Uma política que suba os 44,2% recrutando mais gente entre quem já participa cumpre a meta e não corrige nada. Uma política que mexa nos 27,3% é mais lenta, mais cara e mais difícil de mostrar num relatório anual, e é a única que altera a estrutura. As duas produzem a mesma linha no gráfico e não produzem o mesmo país.

    Há ainda uma consequência que atravessa toda a leitura e que vale a pena deixar dita. Um indicador com quatro anos, publicado de cinco em cinco, não serve para gerir. Serve para enquadrar. Quem gere precisa de medição própria, mais frequente e mais estreita, e quem usa o indicador nacional como substituto disso está a confundir o mapa com o instrumento de bordo.

    Esta é a coordenada de partida do Roteiro. As edições seguintes vão a outros indicadores do mesmo sistema, e todos serão apresentados como este: com a fonte, com a base de medição, e com o que o número não permite concluir.

    Fontes

    Instituto Nacional de Estatística, Inquérito à Educação e Formação de Adultos 2022, destaque de 22 de março de 2024. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Eurostat, Adult learning statistics, séries trng_aes_100 (Adult Education Survey) e trng_lfs_17 (Labour Force Survey), edição de 2026. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Comissão Europeia, Plano de Ação sobre o Pilar Europeu dos Direitos Sociais, 2021. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    PESSOAS 2030, Portugal caminha para as metas sociais europeias de 2030 com o contributo do PESSOAS 2030, 29 de maio de 2025. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Nota de origem

    Este artigo reúne e desenvolve três publicações da Advance Station no LinkedIn, entre 29 de abril e 14 de maio de 2026. O texto foi reescrito para leitura contínua, as fontes estão citadas por inteiro e dois valores foram corrigidos face às publicações originais.

    • 29 de abril de 2026 · Observatório AS, edição inaugural, sobre a participação dos adultos portugueses em formação.
    • 12 de maio de 2026 · Lente de Descoberta, sobre a formação contínua e a desigualdade de partida.
    • 14 de maio de 2026 · Observatório AS, sobre as fraturas da formação contínua.