Categoria: Diário do Capitão

  • Diário do Capitão N.º 03 · O semestre que fecha

    Diário do Capitão N.º 03 · O semestre que fecha

    Publicado originalmente no LinkedIn a 15 de julho de 2026. Esta é a versão integral e permanente. Sete números sustentavam o balanço desse texto. Cinco não sobreviveram à verificação, e é por eles que começo.

    Escrevi em julho que o primeiro semestre de 2026 tinha fechado e que valia a pena fixar o que esses seis meses mostraram a quem trabalha em formação. Fixei sete indicadores.

    Ao preparar a passagem do nosso trabalho editorial para este domínio, fomos às fontes primárias de cada um. Dois resistiram inteiros. Cinco não.

    Refazer o balanço com os números certos é a única coisa que faz sentido publicar aqui, e é o que segue.

    O balanço, refeito

    Sobre a distância entre reconhecer e praticar.

    Escrevi que 61% consideram a formação digital imprescindível e 43% usam inteligência artificial com regularidade, e chamei aos dezoito pontos a tensão central do mercado português.

    Os 61% dizem outra coisa: são os que afirmam necessitar de mais formação para integrar a inteligência artificial no trabalho. E não se opõem aos 43%, sobrepõem-se-lhes largamente, porque quem diz precisar de formação é quem já usa a ferramenta. A subtração era entre grandezas diferentes.

    A tensão central existe e é outra. Sessenta e um por cento declaram precisar de formação. Vinte por cento receberam alguma. Quarenta e um pontos, não dezoito.

    Sobre as microcredenciais.

    Escrevi que a formação contínua mudou de morada, saindo do ensino superior clássico para os cursos não conferentes de grau, que cresceram 98% na Universidade Aberta.

    O valor é real. No mesmo período e na mesma instituição, os cursos conferentes de grau cresceram 89%. Nove pontos de diferença não sustentam uma mudança de morada. Sustentam uma instituição que quase duplicou em ambas as frentes.

    A microcredencial está a somar-se ao grau, não a substituí-lo, e a distinção decide onde se investe.

    Sobre o estudante típico.

    Escrevi que tem hoje quarenta anos, família e carreira a meio.

    Não confirmámos a origem desse valor e não o vamos repetir. O que os dados europeus mostram é que a participação em formação decresce com a idade menos do que se supõe: 56,5% entre os 25 e os 34 anos, 49,9% entre os 35 e os 44, 46,2% entre os 45 e os 54. Um declive suave ao longo de trinta anos de vida ativa, e não um perfil-tipo.

    Sobre o ensino profissional.

    Escrevi que confirma o que os seus números já diziam: 87,8% de conclusão e 83% de emprego à saída.

    Os 87,8% são a taxa de conclusão do ensino secundário num ano letivo, não a proporção de quem entra e termina. Essa é de 70%.

    E a correção devolveu o melhor dado do semestre, que eu não tinha: em 2014/15 esse valor era de 53%. Dezassete pontos de subida em oito anos. O sistema não está bom, está a melhorar, e a segunda afirmação é muito mais forte do que a primeira.

    Sobre a inteligência artificial.

    Escrevi que 80% das empresas planeiam integrar agentes de inteligência artificial em um a três anos.

    Não confirmámos a origem desse valor e ele não volta a ser usado. Em substituição, há um horizonte oficial e verificável: o Programa da Década Digital fixa, para 2030, a meta de 75% das empresas europeias a utilizar computação em nuvem, análise de dados ou inteligência artificial. Portugal está nos 11,54% em inteligência artificial.

    Os dois que ficam de pé

    28%
    Empresas portuguesas que identificam a falta de competências em IA como principal entrave à implementação
    83%
    Recém-diplomados do ensino e formação profissional empregados entre um e três anos após a conclusão
    2 / 7
    Indicadores do balanço original que resistiram inteiros à verificação

    28% das empresas portuguesas identificam a falta de competências em inteligência artificial como o principal entrave à implementação desta tecnologia. Confirmado no Employment Outlook Survey do ManpowerGroup, segundo trimestre de 2025. Uma precisão: a fonte diz entrave à implementação e eu escrevi entrave ao crescimento, que é outra afirmação.

    83% dos recém-diplomados do ensino e formação profissional, entre os 20 e os 34 anos, estão empregados entre um e três anos após a conclusão, contra 79,7% de média europeia. Confirmado no Monitor de Educação e Formação de 2023.

    Dois em sete. É o resultado de verificar seis meses de trabalho, e é o número desta edição que menos gosto de escrever.

    O que aprendi com isto

    Os cinco números que caíram tinham uma coisa em comum, e demorei a vê-la.

    A propriedade comum
    Todos eram favoráveis à tese que sustentavam.

    Os dezoito pontos davam título a um mês inteiro. Os 98% provavam uma transformação. Os 87,8% diziam oito em cada dez onde a fonte certa diz sete. Os 80% davam urgência. E os quarenta anos davam um retrato humano a uma tabela.

    Nenhum foi inventado. Todos foram escolhidos, e escolhi-os eu.

    Quando um indicador contraria o que queremos dizer, procuramos outro e verificamos os dois. Quando o confirma, seguimos em frente. Não é desonestidade, é o funcionamento normal da atenção, e não há sistema de verificação que sobreviva a isso enquanto depender de quem escreve para decidir o que merece confirmação.

    É por isso que passa a haver uma regra nova nesta casa: o portão de conformidade é aplicado por quem não escreveu a peça. Quem verifica recebe a lista de valores e fontes sem o texto, abre cada fonte na origem, e confirma três coisas: o valor, o universo a que se refere, e se a afirmação decorre do valor. Só depois lê o artigo. Uma peça sem nome de quem verificou não publica.

    Custa cerca de uma hora por peça. Custou-me sete correções para chegar aqui.

    As três frentes que anunciei para setembro

    Prometi três, e devo-lhes o ponto de situação.

    Uma série editorial sobre microcredenciais e formação modular. Mantém-se e ganhou base. O enquadramento europeu está fixado desde a recomendação do Conselho de junho de 2022, que define o que uma microcredencial tem de conter para ser reconhecível fora de quem a emite. A maior parte da oferta formativa portuguesa não cumpre esses requisitos, e a diferença não está no conteúdo nem na duração: está no que fica registado.
    Programas com componente de inteligência artificial aplicada. Mantém-se, e o desenho mudou por efeito do que verificámos. Os três usos dominantes de inteligência artificial nas empresas portuguesas são análise de linguagem escrita, geração de conteúdos e produção de texto ou código. Todos produzem um resultado cuja qualidade depende do julgamento de quem o avalia. Formar em inteligência artificial numa pequena ou média empresa não é sobretudo formação técnica: é formação em critério de aceitação, e é isso que vamos desenhar.
    O Observatório como referência metodológica. Esta é a que mais mudou. Escrevi que a queria consolidar como referência para quem trabalha com indicadores de formação. Depois descobri que ela própria publicava indicadores por confirmar.

    Não a abandono. Reformulo-a. A referência metodológica que faz falta em Portugal não é uma lista de números: é a explicação de que quase todos os conceitos relevantes da estatística educativa e da formação existem em mais do que um indicador oficial, com valores muito diferentes, e de como se escolhe entre eles. É isso que passa a ser o trabalho.

    O que muda a partir de setembro

    Três coisas, e são de processo.

    A produção começa aqui. A partir de setembro, cada peça nasce neste domínio e a publicação de rede deriva dela. Não é uma questão de preferência de canal: é que a peça do site passa pelo portão de conformidade antes de existir, e a peça de rede herda dados já verificados. A ordem inversa, que praticámos até agora, produzia o que este texto acaba de descrever.
    Todas as publicações passam por portão. Incluindo as que não têm artigo correspondente, como as peças de oferta e as de efeméride. São perto de um terço do que publicámos e, até hoje, não passavam por verificação nenhuma.
    Cada número traz consigo a base. Fonte, ano, data de consulta, e a verificação de que a afirmação decorre do conjunto de dados e não apenas do valor citado. É o ponto que apanhou dois dos cinco erros deste balanço.

    O que fica dito

    O primeiro semestre de 2026 mostrou-me duas coisas sobre o setor e uma sobre esta casa.

    Sobre o setor: o problema português não é de oferta formativa, que nunca foi tão abundante nem tão financiada, e não é de recetividade das pessoas, que adotam tecnologia acima da média europeia. É de desenho e de contexto, e resolve-se com decisões que custam pouco e que quase ninguém toma.

    Sobre esta casa: publicámos durante seis meses com pretensão de rigor e sem o processo que o rigor exige. Corrigimos, escrevemos o que encontrámos, e instalámos a regra que faltava. Não é uma história de que me orgulhe, mas é preferível a qualquer versão em que não a contasse.

    Fica publicado, com este texto, o arquivo completo do primeiro semestre. São onze artigos, cerca de vinte e sete mil palavras, e cada um traz a fonte de cada número, o ano do estudo, a base de medição usada e uma secção sobre o que os dados não permitem concluir.

    Quem chegar aqui a partir de uma pesquisa sobre participação de adultos em formação, sobre adoção de inteligência artificial nas empresas, sobre demografia empresarial ou sobre ensino profissional encontra o assunto tratado por inteiro, com o que sabemos e com o que não sabemos separados. É a única coisa que uma entidade formadora pode oferecer que não seja mais um catálogo.

    Este texto fecha o arquivo. A partir de setembro, cada peça publica no próprio dia, com a verificação feita antes e por outra pessoa.

    A quem nos lê há seis meses, o meu agradecimento, e o pedido de que continuem a ler com desconfiança. A quem chega agora, boas-vindas a bordo.

    João Dias Direção Criativa, Advance Station

    Fontes

    Boston Consulting Group, Consumer Sentiment Survey 2025, edição Portugal. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    ManpowerGroup, Employment Outlook Survey, segundo trimestre de 2025, resultados para Portugal. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, Cursos profissionais, situação três anos após ingresso, edição de 2025. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Comissão Europeia, Monitor de Educação e Formação 2023, relatório sobre Portugal, e Programa da Década Digital para 2030. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Eurostat, Adult learning statistics, série trng_aes_100, e Use of artificial intelligence in enterprises, série isoc_eb_ai. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Universidade Aberta, dados institucionais sobre estudantes em cursos conferentes e não conferentes de grau, 2018-2019 a 2023-2024. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Nota de origem

    Publicado originalmente no LinkedIn a 15 de julho de 2026, em formato reduzido. Esta é a versão integral e permanente, com as fontes completas. Cinco dos sete indicadores do texto original foram substituídos ou retirados por não terem resistido à verificação na fonte, e a substituição está descrita no corpo do artigo. Não se retrodata.

  • Diário do Capitão N.º 02 · Reconhecer e adotar

    Diário do Capitão N.º 02 · Reconhecer e adotar

    Esta edição foi anunciada a 5 de junho, como edição de junho, e sai hoje. Prometia observar julho e agosto. Como esses meses já passaram, vou fazer as duas coisas: dizer o que íamos observar e dizer o que encontrámos.

    O assunto anunciado era o tempo que separa reconhecer de adotar.

    Sessenta e um por cento da população portuguesa considera a formação digital imprescindível. Quarenta e três por cento utiliza tecnologias de inteligência artificial com regularidade. A distância entre os dois números não é uma taxa de conversão, e a leitura completa desses indicadores, com as ressalvas metodológicas que exigem, está no artigo que publicamos na próxima semana. Aqui trato do que faço com eles.

    Três frentes, como estava prometido.

    Primeira frente: o movimento de oferta que importou

    Se tivesse de escolher uma só transformação da oferta formativa portuguesa entre 2024 e 2025, escolheria esta: o dinheiro público mudou o que está disponível, e mudou-o depressa.

    935 M€
    Aprendizagem ao longo da vida no PESSOAS 2030
    794 M€
    Financiamento do Fundo Social Europeu Mais
    200 M€
    Centros Qualifica no Norte, Centro e Alentejo

    O Programa PESSOAS 2030 alocou cerca de 935 milhões de euros à aprendizagem ao longo da vida no período de programação em curso, dos quais 794 milhões vêm do Fundo Social Europeu Mais. Só para os Centros Qualifica nas regiões Norte, Centro e Alentejo estão alocados 200 milhões, com 170 milhões de financiamento europeu. Em paralelo, o Plano de Recuperação e Resiliência financiou a entrada em força das microcredenciais no ensino superior, através de programas como o Impulso 2025.

    Isto reconfigurou a oferta em dois anos. Apareceram percursos curtos certificáveis onde antes havia pós-graduações longas. Instituições que nunca tinham trabalhado com adultos em contexto de trabalho passaram a fazê-lo. E entidades formadoras privadas passaram a competir com oferta pública gratuita em segmentos onde antes não competiam.

    Foi um movimento de oferta, e foi grande.

    O que não foi, e é aqui que quero ser claro, é um movimento de procura. A participação de adultos em formação, medida no indicador que a meta europeia usa, estava nos 35,5% em 2024 contra uma meta de 60% para 2030. Mais oferta, financiada e gratuita, não moveu esse número na proporção do investimento.

    O que o movimento não resolveu
    Se o constrangimento fosse de disponibilidade de oferta, esta vaga de financiamento tê-lo-ia resolvido. Como não resolveu, o constrangimento é outro, e continua por tratar.

    Não escrevo isto contra o investimento, que era necessário e continua a ser. Escrevo porque a conclusão que se tira daqui condiciona o que se faz a seguir.

    Há uma parte deste movimento que me diz respeito diretamente e que seria desonesto não escrever. Uma entidade formadora privada que trabalha há trinta e três anos passou, em dois anos, a competir com oferta gratuita e certificada em segmentos onde antes não havia concorrência pública. Isso é bom para quem se forma e é desconfortável para quem forma, e as duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo.

    A resposta que me parece certa não é queixar-me da concorrência, é perguntar onde é que o gratuito não chega. E não chega em três sítios: no acompanhamento depois da formação, que nenhum financiamento por participante paga; no desenho à medida de um contexto concreto, que exige diagnóstico prévio; e na continuidade para lá do ciclo de fundos, que termina quando o programa termina. É aí que uma casa privada tem alguma coisa a acrescentar, e é aí que devemos estar.

    Segunda frente: três falhas recorrentes

    Vejo as mesmas três falhas em programas que não produzem efeito, e vejo-as em programas nossos e alheios.

    Primeira falha
    Medir no pior momento possível. A avaliação faz-se no fim da última sessão, com o conteúdo fresco, o grupo constituído e o formador na sala. É o instante em que a medição é mais generosa e menos informativa. A investigação sobre transferência mostra que a aplicação decai substancialmente ao longo do primeiro ano, e a avaliação que fazemos é feita antes de a decadência começar. Medimos o entusiasmo e chamamos-lhe resultado.
    Segunda falha
    Desenhar para quem já se inscreveria. Em Portugal, a taxa de participação em formação entre quem tem ensino superior é de 68,3%, contra 27,3% entre quem tem, no máximo, o terceiro ciclo do básico. Um programa desenhado com o formato, a linguagem e o horário que resultam bem para o primeiro grupo produz naturalmente inscrições do primeiro grupo. E depois atribui-se a ausência do segundo à falta de motivação, quando a explicação disponível é bastante mais simples: o programa não foi feito para quem não aparece.
    Terceira falha
    Terminar onde o problema começa. O preditor confirmado de que a aprendizagem se mantém é o ambiente de trabalho de apoio, e não a qualidade da sessão. É o resultado mais consistente de quarenta anos de investigação sobre transferência de formação. E é, quase sempre, a parte que a proposta não inclui, o contrato não prevê e ninguém audita. Entregamos a parte que sabemos fazer e chamamos ao resto problema do cliente.
    Um exemplo
    Um programa de competências digitais desenhado com uma sessão semanal de duas horas, às sete da tarde, com pré-trabalho em plataforma e apresentação final em grupo, é um bom programa. É também um programa que exclui quem faz turnos, quem tem transporte a uma hora de distância, quem não tem computador em casa e quem saiu do sistema de ensino há trinta anos e não vai apresentar nada a ninguém. Nenhuma destas exclusões foi decidida. Todas foram desenhadas.

    Nenhuma das três é falha de execução. São todas falhas de desenho, e por isso são todas corrigíveis sem gastar mais.

    Terceira frente: o horizonte que já passou

    Íamos observar julho e agosto. Observámos, e o que encontrámos não foi o que esperava.

    Passámos estes dois meses a preparar a passagem do nosso trabalho editorial para o nosso próprio domínio, o que obrigou a verificar, uma por uma, todas as afirmações que tínhamos publicado. Fomos às fontes primárias de cada número.

    Vários não sobreviveram.

    Um recorte por nível de escolaridade estava atribuído a uma fonte que não o continha, e os valores corretos eram consideravelmente diferentes.
    Uma distância para a meta de 2030 estava calculada entre dois indicadores com bases de medição distintas, o que a reduzia a menos de metade da distância real.
    Uma taxa de mortalidade empresarial não foi possível confirmar em nenhuma fonte.
    Um crescimento de 98% em microcredenciais, que apresentávamos como prova de uma transformação, aparecia na fonte ao lado de um crescimento de 89% nos cursos que supostamente estariam a ser substituídos.

    Nenhum destes casos foi má-fé. Todos foram a mesma coisa: um número recolhido de um documento intermédio, não confirmado na origem, e repetido depois com a confiança que a repetição dá.

    Corrigimos os quatro e a série passa a exigir, por norma, que cada número traga a fonte, o ano e a data de consulta, e que a conclusão que dele se tira seja verificada contra o conjunto de dados da fonte e não apenas contra o valor citado.

    Escrevo isto aqui porque me parece a única coisa honesta a fazer e porque a alternativa era não escrever. Uma casa que publica leituras do setor com pretensão de rigor tem de aplicar a si o critério que aplica aos outros, e a aplicação desse critério, quando é a sério, dói um bocado.

    O que passamos a observar

    O horizonte prometido já passou, e por isso fixo aqui outro, para o segundo semestre.

    A execução, e não o anúncio. O Governo apresentou em janeiro uma Agenda Nacional para a inteligência artificial com mais de 400 milhões de euros. Vamos acompanhar o que dela chega a formação de pessoas e a que pessoas chega, em vez de comentar o montante.
    O indicador que a meta usa, e não o mais favorável. A participação de adultos em formação vai continuar a ser reportada em pelo menos dois indicadores com valores muito diferentes. Vamos usar o que a meta usa, sempre, mesmo quando o outro nos favorece.
    A dimensão da empresa, e não o país. Os dados de adoção tecnológica mostram que quase todo o fosso português se produz nas pequenas e médias empresas, enquanto as grandes se comportam como as europeias. Vamos deixar de escrever sobre Portugal em bloco nesta matéria.
    E o que fica por medir. Taxas de participação e de conclusão existem e são públicas. Taxas de manutenção da aplicação, ao fim de seis meses e de um ano, não existem em nenhuma estatística nacional. É a lacuna mais consequente do setor e vamos insistir nela.

    O que fica dito

    O constrangimento da formação de adultos em Portugal não é de oferta. Há mais oferta do que houve em qualquer momento da última década, muita dela financiada e gratuita, e a participação não subiu na proporção.

    O constrangimento é de desenho e de contexto. De programas construídos para quem já participa, avaliados no momento em que a avaliação é mais favorável, e terminados no ponto onde a investigação diz que o trabalho começa.

    Há uma assimetria neste diagnóstico que convém não esconder. As três falhas são fáceis de nomear e difíceis de corrigir, e a dificuldade não é técnica. Mudar o momento da medição significa aceitar resultados piores. Mudar o destinatário do desenho significa desenhar para quem se inscreve menos, com turmas mais pequenas e custo por pessoa mais alto. E incluir o pós-formação significa vender um programa mais caro do que o do concorrente que não o inclui. As três correções custam dinheiro ou credibilidade no curto prazo, e é por isso que quase ninguém as faz.

    Nada disto se resolve com mais dinheiro. Resolve-se com decisões que custam pouco e que quase ninguém toma: mudar o momento da medição, mudar o destinatário do desenho, e incluir no programa o que acontece depois da última sessão.

    Vamos escrever sobre cada uma delas ao longo do próximo semestre, e vamos escrever com a base à vista, incluindo quando a base nos contraria.

    Até à próxima.

    João Dias Direção Criativa, Advance Station

    Fontes

    PESSOAS 2030, dados sobre o investimento na aprendizagem ao longo da vida e no apoio aos Centros Qualifica no período de programação 2021-2027, e monitorização das metas sociais europeias para Portugal. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Instituto Nacional de Estatística, Inquérito à Educação e Formação de Adultos 2022, com as taxas de participação por nível de escolaridade. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Blume, B. D., Ford, J. K., Baldwin, T. T. e Huang, J. L. (2010). «Transfer of Training: A Meta-Analytic Review». Journal of Management, 36(4), 1065-1105. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Saks, A. M. e Belcourt, M. (2006). «An investigation of training activities and transfer of training in organizations». Human Resource Management, 45(4), 629-648. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Universidade Aberta, dados institucionais sobre a evolução de estudantes em cursos conferentes e não conferentes de grau, e sobre o Projeto Impulso 2025. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Nota de origem

    Esta edição foi anunciada na página da Advance Station no LinkedIn a 5 de junho de 2026, com o tema e as três frentes de análise já fixados, e não chegou a ser publicada. Sai agora, com o tema anunciado, as três frentes cumpridas e a data real de publicação. Não se retrodata.

  • Diário do Capitão N.º 01 · Solidez

    Diário do Capitão N.º 01 · Solidez

    Esta edição foi anunciada a 8 de maio e sai hoje. A demora é minha e fica registada. Vamos ao assunto.

    A Advance Station foi distinguida pelo IAPMEI com o Estatuto PME Líder 2025. Escrevo sobre isso não pelo que a distinção diz de nós, que é pouco e é previsível, mas pelo que a mecânica dela diz sobre uma palavra que andou fora de moda durante uma década e voltou a ser estratégica.

    A palavra
    A palavra é solidez.

    O que este selo é, e quem o atribui

    Convém começar pela mecânica, porque é aí que está o que interessa.

    O Estatuto PME Líder não se conquista com uma candidatura em que a empresa conta a sua própria história. Funciona ao contrário. São os bancos parceiros que identificam as empresas que cumprem os critérios e as propõem ao IAPMEI, com base nas notações de rating e nos indicadores económico-financeiros de que dispõem. Treze bancos a operar em Portugal, mais as sociedades de garantia mútua, mais o Grupo Banco Português de Fomento, mais o Turismo de Portugal quando o setor é esse.

    Aos critérios de acesso somam-se condições que não admitem interpretação: ter certificação de PME, situação regularizada perante a Autoridade Tributária, a Segurança Social e a Central de Responsabilidades de Crédito do Banco de Portugal, e não estar em processo de reestruturação financeira nem de insolvência.

    Em linguagem simples
    O que isto significa em linguagem simples é que a avaliação foi feita por quem empresta dinheiro e perde dinheiro se se enganar. Não é um prémio de reputação atribuído por júri, é uma leitura de risco feita por quem tem exposição ao resultado dessa leitura. É uma categoria de prova diferente, e é mais dura.

    Catorze mil cento e trinta e três

    O IAPMEI atribuiu o Estatuto PME Líder 2025 a 14 133 empresas. Somadas, tiveram um volume de negócios superior a 63 mil milhões de euros, exportações acima de 10 mil milhões, e são responsáveis por mais de 445 mil postos de trabalho.

    14 133
    empresas distinguidas
    +63 mil M€
    volume de negócios
    +445 mil
    postos de trabalho

    Escrevo o número por extenso na primeira vez de propósito, porque ele corrige a tentação natural de quem recebe uma distinção. Ser uma entre catorze mil e cento e trinta e três não é excecional. É estar dentro de um conjunto, e o conjunto é grande.

    Isso não desvaloriza nada. Muda a pergunta. A pergunta deixa de ser «o que é que isto diz de nós» e passa a ser «o que é que este conjunto tem em comum», que é uma pergunta com resposta pública e verificável.

    O conjunto é composto sobretudo por pequenas empresas, 72,5% do total, com 21,7% de médias e 5,8% de microempresas. Distribui-se pelo Comércio, com 30,4%, pela Indústria, com 24,4%, pela Construção e imobiliário, pelos Serviços e pelo Turismo. Está concentrado em Lisboa, com 20,3%, e no Porto, com 18,5%.

    Vale a pena reter uma linha desta distribuição. Os Serviços representam 12,9% do conjunto, o que os coloca atrás do Comércio, da Indústria e da Construção. A formação vive dentro dessa fatia, e é uma fatia pequena de um universo onde o critério de avaliação foi construído a pensar sobretudo em quem tem existências, ativo fixo e ciclo de tesouraria clássico. Cumprir o critério com um balanço de serviços, onde o principal ativo sai porta fora todos os dias às seis da tarde, é um exercício diferente.

    E tem um indicador que interessa mais do que todos os outros.

    O número que interessa

    60,4%
    Autonomia financeira média das PME Líder 2025
    Autonomia financeira é a proporção do ativo que é financiada por capitais próprios em vez de dívida. Sessenta por cento significa que, em média, estas empresas suportam mais de metade do que têm com o que é seu.

    É o número mais aborrecido do apuramento e é o único que descreve solidez em sentido próprio. As vendas cresceram 5,9%, as exportações 5,7%, o EBITDA passou dos 8,8 mil milhões. Todos esses indicadores dizem que o ano correu bem. A autonomia financeira diz outra coisa: diz o que acontece quando o ano corre mal.

    Uma empresa com autonomia financeira baixa e crescimento alto é uma empresa que depende de tudo continuar a correr como está. Uma empresa com autonomia financeira alta e crescimento moderado atravessa um mau ano sem ter de decidir entre pagar salários e pagar juros.

    Durante quase uma década, entre a saída da crise e a subida das taxas, a conversa empresarial portuguesa privilegiou o crescimento e tratou a solidez como conservadorismo, quase como falta de ambição. A subida do custo do dinheiro devolveu à palavra o seu significado antigo, que é aguentar.

    Há uma consequência prática desta mudança que ainda não chegou à conversa pública com a clareza devida. Quando o dinheiro era barato, uma estrutura financeira frágil custava pouco e o crescimento comprava tempo. Quando o dinheiro encarece, a mesma estrutura passa a custar decisões: adia-se investimento, corta-se onde é mais fácil cortar, e a formação está quase sempre onde é mais fácil cortar. A fragilidade financeira de um fornecedor de formação não se manifesta como falência, manifesta-se como um programa que perde acompanhamento a meio e ninguém explica porquê.

    Por que isto pertence a esta publicação

    Um leitor razoável pode perguntar o que faz uma conversa sobre autonomia financeira numa publicação sobre formação e desenvolvimento individual.

    Faz o seguinte.

    Um programa formativo é um compromisso que se estende no tempo. Um percurso de certificação leva meses. Uma parceria com uma escola ou com um município leva anos. Um plano de desenvolvimento de equipa só produz efeito depois de o ciclo fechar. Nada disto é um serviço que se entrega e termina.

    Quem confia um compromisso desses a uma instituição está, sem o formular assim, a fazer uma aposta na continuidade dessa instituição. E a continuidade não se prova com testemunhos nem com anos de casa: prova-se com a estrutura que permite atravessar um mau ano sem interromper o que está em curso.

    Em Portugal, isto não é uma preocupação abstrata. Apenas cerca de metade das empresas portuguesas chega aos três anos de atividade, e a demografia empresarial é a condição silenciosa de que quase nunca se fala quando se discute formação. Vamos voltar a este ponto com dados próprios numa das próximas peças do Roteiro.

    Trinta e três anos de atividade, certificação DGERT e um perfil de risco avaliado por terceiros não são argumentos de venda. São a resposta a uma pergunta que quem contrata formação de longo prazo tem o direito de fazer e raramente faz em voz alta.

    Três perguntas que quem contrata formação devia fazer

    Se a continuidade da instituição é parte do que se contrata, então há três perguntas que pertencem à conversa e quase nunca aparecem nela. Deixo-as escritas, e deixo-as sabendo que se aplicam a esta casa tanto como às outras.

    01
    Há quanto tempo existe, e com que forma jurídica? Não pela nostalgia dos anos de casa, mas porque a duração é a única evidência disponível de que a estrutura já atravessou pelo menos um ciclo mau. Uma entidade constituída depois de 2021 nunca operou com dinheiro caro.
    02
    Quem avaliou os seus indicadores, além dela própria? Certificações setoriais dizem o que a entidade cumpre. Avaliações financeiras de terceiros dizem o que a entidade aguenta. São coisas diferentes e ambas se podem pedir.
    03
    O que acontece ao programa se a pessoa que o coordena sair? É a pergunta mais desconfortável das três e é a que separa uma instituição de um conjunto de pessoas com um nome comum. A resposta honesta envolve documentação, substituição prevista e alguém que assine pela continuidade, e não envolve garantias.

    Nenhuma destas perguntas se responde com um selo. O selo é apenas o sinal de que a segunda tem resposta.

    O que a distinção não prova

    Devo dizer o que este selo não diz, porque a regra desta casa aplica-se também quando o dado nos favorece.

    Não diz nada sobre a qualidade pedagógica do que fazemos. Os critérios são económico-financeiros e de conformidade, e não avaliam uma sessão, um programa ou o resultado de quem se forma. Uma empresa pode ter uma autonomia financeira exemplar e formação medíocre.
    Não é uma comparação entre pares do setor. As 14 133 empresas atravessam todos os setores e a maioria não tem nada que ver com formação.
    E não é um estado permanente. O estatuto tem ciclo anual e renova-se ou não se renova consoante os indicadores do ano. Escrever sobre ele em 2026 como se fosse um atributo da casa seria exatamente o tipo de leitura que esta publicação existe para não fazer.

    A prova pedagógica é outra e faz-se noutro sítio. Faz-se publicando resultados de avaliação, taxas de conclusão e o que ficou abaixo do previsto, que é trabalho que corre em paralelo noutra frente do grupo e não neste texto.

    O que esta publicação vai ser

    Uma vez por mês, na primeira sexta-feira útil. Texto curto, voz pessoal, sem ornamento, como ficou dito em maio.

    Cada edição vai cumprir quatro coordenadas. Uma síntese do que aconteceu de relevante no setor. Um movimento que importou e que merece mais espaço do que cabe num post. A leitura da casa, declarada como leitura e não como facto. E o horizonte, ou seja, o que estamos a observar para o mês seguinte.

    O que esta publicação não vai ser: um boletim de novidades da empresa, um espaço de autoelogio, ou um sítio onde se afirma sem mostrar a base. Se um mês não tiver nada que justifique mil e quinhentas palavras, o texto será mais curto, e se não tiver nada mesmo, não sai.

    Prefiro uma edição em falta a uma edição vazia. Depois de três meses de atraso nesta primeira, é uma frase que fica sob observação, e assim deve ser.

    Até à próxima.

    João Dias Direção Criativa, Advance Station

    Fontes

    IAPMEI, Conheça as PME Líder’25, com o apuramento de 14 133 empresas distinguidas, distribuição setorial, dimensão, geografia e indicadores económico-financeiros. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    IAPMEI, Regulamento dos Estatutos PME Líder e PME Excelência 2025, com os critérios de acesso, as condições de conformidade e a lista de bancos parceiros. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Nota de origem

    Esta edição foi anunciada na página da Advance Station no LinkedIn a 8 de maio de 2026, com o tema e a cadência já fixados, e não chegou a ser publicada. Sai agora, com o tema anunciado e a data real de publicação. Não se retrodata.