Categoria: Desenho de programas formativos

  • Entre reconhecer e adotar

    Publicámos em junho que 61% dos portugueses reconhecem a necessidade de formação digital e 43% praticam, e chamámos aos dezoito pontos de diferença a distância entre reconhecer e adotar. Fomos à fonte. A leitura estava errada, e a correta é mais interessante.

    Comecemos pelo que o estudo diz, com precisão.

    O Consumer Sentiment Survey 2025 do Boston Consulting Group foi conduzido em agosto de 2025, sobre uma amostra de mil pessoas em Portugal continental, com quarenta e quatro perguntas. Publicou, entre outros, quatro resultados que interessam a esta conversa.

    67%
    Utilizam IA pelo menos uma vez por mês
    43%
    Utilizam IA pelo menos uma vez por semana
    61%
    Dizem precisar de mais formação para integrar IA no trabalho
    20%
    Receberam formação específica em IA

    Os 61% e os 43% não estão em oposição. Estão, em boa medida, no mesmo grupo.

    O quadro, antes da leitura

    Indicador Valor Variação face a 2024
    Utiliza IA pelo menos uma vez por mês 67% +15 p.p.
    Utiliza IA pelo menos uma vez por semana 43% +12 p.p.
    Utilização mensal entre os 18 e os 34 anos 81% +17 p.p.
    Nunca utilizou IA 17% n.d.
    Experimentou e não voltou a usar 16% -10 p.p.
    Afirma necessitar de mais formação para integrar IA no trabalho 61% n.d.
    Recebeu alguma formação específica em IA 20% +3 p.p.
    Acredita poupar menos de uma hora de trabalho por semana 51% n.d.

    As duas últimas linhas são as que a leitura de junho não tinha e são as que mudam tudo.

    O que estava errado na nossa leitura

    Escrevemos, e publicámos ao longo de um mês inteiro, que existia uma distância de dezoito pontos entre reconhecer a necessidade de formação digital e praticar. Apresentámos os 61% como reconhecimento e os 43% como prática, e construímos sobre essa diferença uma tese sobre adoção.

    Três erros, e vale a pena nomeá-los.

    O primeiro é de objeto. Os 61% não dizem respeito a formação digital em geral. Dizem respeito a formação em inteligência artificial, e à necessidade de mais formação para a integrar no trabalho. É uma pergunta mais estreita e mais concreta do que aquela que reportámos.
    O segundo é de relação. Os dois valores não medem grupos opostos. Quem responde que precisa de mais formação para integrar a inteligência artificial no trabalho é, na sua maioria, quem já a usa. Os 61% estão largamente contidos nos 67% de utilizadores mensais. Não são pessoas que reconhecem e não fazem. São pessoas que fazem e se sentem mal preparadas.
    O terceiro é de aritmética. Subtrair 61 de 43 pressupõe que os dois valores são medidos sobre a mesma dimensão, uma taxa de conversão de reconhecimento em prática. Não são. Um mede frequência de utilização e o outro mede perceção de necessidade formativa. A subtração produz um número que não corresponde a nada.

    Nenhum destes erros foi de má-fé. Todos foram a mesma coisa: um dado recolhido de um resumo, não confirmado na fonte, e usado depois com a confiança que a repetição dá.

    A leitura correta, e é mais forte

    Reordenados, os mesmos números contam uma história diferente e mais útil.

    Sessenta e sete por cento dos portugueses usam inteligência artificial pelo menos uma vez por mês. Sessenta e um por cento dizem que precisam de mais formação para a integrar no trabalho. Vinte por cento receberam alguma.

    A distância que importa
    Não é entre reconhecer e praticar. É entre a necessidade declarada de formação e a formação efetivamente recebida: quarenta e um pontos percentuais.

    Isto não é um problema de convencimento. Ninguém precisa de ser convencido: a adoção já aconteceu e continua a acelerar, com mais quinze pontos num único ano e oitenta e um por cento de utilização mensal entre os mais novos. É um problema de resposta formativa a uma procura que já está formulada, em voz alta, por seis em cada dez pessoas.

    E é uma procura que o mercado não está a servir. Vinte por cento, com um crescimento de três pontos num ano em que a utilização cresceu quinze, é uma resposta que perde terreno todos os anos.

    Quem adota, e quem desistiu

    O estudo desagrega a utilização e as duas pontas da distribuição dizem coisas diferentes.

    Entre os adultos dos 18 aos 34 anos, a utilização mensal chega aos 81%, contra 64% no ano anterior. Dezassete pontos num só ano, numa faixa que já era a mais adiantada. A adoção não está a espalhar-se lentamente pela população: está a concentrar-se e a intensificar-se onde já era alta.

    Na outra ponta, 17% nunca utilizaram qualquer ferramenta de inteligência artificial.

    E entre as duas há um grupo que costuma passar despercebido e que é, para quem trabalha em formação, o mais informativo de todos: 16% experimentaram e não voltaram a usar. Este valor caiu dez pontos face a 2024, o que significa que muitos dos que tinham desistido regressaram.

    Vale a pena separar os dois grupos, porque exigem respostas opostas. Quem nunca usou tem uma barreira de entrada, que pode ser de acesso, de língua, de confiança ou de perceção de relevância. Quem experimentou e desistiu não tem barreira de entrada nenhuma: teve uma primeira experiência que não compensou o esforço.

    O segundo grupo é mais fácil de recuperar e é quase sempre ignorado, porque não aparece nas estatísticas de não utilização e desaparece das listas de contacto. Uma pessoa que tentou uma vez, obteve um resultado medíocre e concluiu que a ferramenta não servia para o seu trabalho não precisa de ser convencida da utilidade da tecnologia. Precisa de ver, uma vez, alguém obter um resultado útil sobre uma tarefa igual à sua.

    Intervenção
    Isso é uma demonstração, não é um curso, e custa vinte minutos.

    O dado que fecha o argumento

    Há um quinto número no mesmo estudo, e é o que devíamos ter usado desde o início.

    51%
    Poupam menos de uma hora Acreditam estar a poupar menos de uma hora de trabalho por semana com inteligência artificial.
    5%
    Poupam mais de cinco horas Consideram poupar mais de cinco horas semanais.

    Duas terças partes do país usa a ferramenta. Metade não sente ganho mensurável. É a definição operacional de adoção sem efeito.

    E encaixa exatamente no que a investigação sobre transferência mostra e que tratámos noutra peça desta série: a aplicação de uma competência nova decai depressa e o seu determinante não é a qualidade da ferramenta nem a motivação de quem a usa, mas as condições em que é aplicada. Uma pessoa que abre um modelo de linguagem, escreve um pedido vago, recebe um resultado medíocre e o descarta está a usar a ferramenta e a não retirar nada dela. Conta para os 67% e conta para os 51%.

    O que separa os resultados
    O que separa quem poupa cinco horas de quem poupa menos de uma não é acesso. É critério, e o critério aprende-se.

    O sentimento, e por que interessa a quem forma

    O mesmo estudo mede a disposição com que os portugueses olham para a inteligência artificial, e o retrato é mais favorável do que a conversa pública sugere.

    54% declaram interesse ou entusiasmo, mais doze pontos do que em 2024. 37% declaram cautela ou preocupação, menos quatro pontos. E 9% mostram-se neutros.

    Sobre o efeito no próprio trabalho, 41% não acreditam que a sua função desapareça nos próximos dez anos, e 48% esperam que a inteligência artificial reduza a carga horária.

    Para quem desenha formação, estes números têm uma consequência prática que muda o guião de abertura de qualquer programa.

    A resistência não é o problema. Uma sessão que dedique a primeira meia hora a desmontar receios está a resolver um problema que a maioria da sala não tem, e a gastar o momento em que a atenção é mais alta. Cinquenta e quatro por cento chegam interessados, quarenta e oito por cento esperam ganhar tempo, e o que querem é ver como.

    Há aqui, aliás, um risco simétrico que vale a pena nomear. Quarenta e oito por cento esperam redução de carga horária e cinquenta e um por cento dizem poupar menos de uma hora por semana. A expectativa está muito à frente da experiência, e uma formação que alimente a expectativa sem entregar a experiência produz desilusão, que é bastante mais difícil de tratar do que a cautela inicial.

    As pessoas adotam mais do que as organizações

    Há um contraste que só aparece quando se cruzam duas fontes independentes, e que é dos achados mais úteis desta série.

    38,7%
    Pessoas em Portugal Utilizam ferramentas de inteligência artificial, acima da média da União Europeia de 32,7%.
    11,54%
    Empresas portuguesas Com dez ou mais pessoas ao serviço utilizam IA, contra 19,95% de média europeia.

    Segundo o Instituto Nacional de Estatística, 38,7% da população em Portugal utiliza ferramentas de inteligência artificial, valor acima da média da União Europeia, que se situa em 32,7%.

    Ao mesmo tempo, e como tratámos noutra peça, apenas 11,54% das empresas portuguesas com dez ou mais pessoas ao serviço utilizam inteligência artificial, contra 19,95% de média europeia. Bem abaixo.

    As pessoas estão à frente da Europa. As organizações estão atrás. É o mesmo país, medido nos dois lados da mesma relação de trabalho, e o resultado inverte-se.

    Isto desmonta por completo a narrativa do atraso cultural português face à tecnologia. Não há atraso cultural: há gente que adota por iniciativa própria, em casa e no telemóvel, e organizações que não incorporam essa adoção no trabalho. A pessoa que usa inteligência artificial ao domingo para organizar as férias é a mesma que não a usa à segunda-feira para preparar uma proposta, e a diferença não está nela.

    Uma nota sobre as três medições

    Neste artigo aparecem três valores para a utilização de inteligência artificial em Portugal, e é preciso dizer por que não se comparam.

    67%
    BCG Pessoas. Autorrelato de utilização pelo menos mensal, amostra de mil pessoas, agosto de 2025.
    38,7%
    INE, via Eurostat Pessoas. Inquérito oficial com definição normalizada e período de referência fixado.
    11,54%
    Eurostat Empresas com dez ou mais pessoas ao serviço. Unidade de análise diferente.

    O Boston Consulting Group reporta 67% de utilização mensal, num inquérito a mil pessoas com autorrelato sobre frequência. O Instituto Nacional de Estatística reporta 38,7% de utilização, num inquérito oficial com definição normalizada e período de referência fixado. E o Eurostat reporta 11,54% de empresas, que é outra unidade de análise por completo, porque mede organizações e não pessoas.

    Nenhum está errado. Cada um responde a uma pergunta diferente. Um estudo de sentimento com autorrelato produz sistematicamente valores mais altos do que um inquérito estatístico oficial, porque a pergunta é mais permissiva e porque quem responde a um inquérito de consumo tende a incluir experiências que não incluiria numa recolha estatística.

    Regra
    Usar uma série de cada vez, dizer qual, e não subtrair valores de fontes diferentes. Foi essa regra que faltou em junho.

    E a escolaridade, outra vez

    Falta cruzar isto com o que a primeira peça desta série estabeleceu, porque o cruzamento é desconfortável.

    Em Portugal, a participação em formação é de 68,3% entre quem tem ensino superior e de 27,3% entre quem tem, no máximo, o terceiro ciclo do básico. E o nível de escolaridade mais comum na população adulta portuguesa continua a ser inferior ao ensino secundário, situação que é rara no conjunto dos países da OCDE.

    Sobreponha-se isto aos 20% que receberam formação em inteligência artificial.

    A formação em inteligência artificial que existe está a ser distribuída, com toda a probabilidade, segundo o mesmo padrão de todas as outras: chega a quem tem escolaridade alta, em funções qualificadas, em organizações com plano de formação. E a ferramenta, essa, chega a toda a gente, porque está no telemóvel e é gratuita.

    O resultado previsível é uma população que usa inteligência artificial de forma quase universal e que a usa com preparação muito desigual. Quem tem mais escolaridade usa-a com critério e poupa tempo. Quem tem menos usa-a sem critério, obtém resultados medíocres, e ou desiste ou, pior, aceita o que a ferramenta devolve sem saber avaliá-lo.

    Este segundo caso é o que ninguém mede e é o que mais preocupa. Uma pessoa que rejeita um resultado mau está a exercer critério. Uma pessoa que o aceita não está, e o efeito disso não aparece em nenhuma estatística de adoção.

    Onde se quebra a passagem

    Se a procura formativa existe e a oferta não a serve, vale a pena perguntar onde é que a passagem se quebra. Três pontos, todos identificáveis.

    Quebra-se na definição do destinatário. A formação em inteligência artificial que existe no mercado dirige-se maioritariamente a quem já tem afinidade técnica. Os 61% que declaram precisar de mais formação não são perfis técnicos: são pessoas que usam a ferramenta no trabalho e não sabem avaliar o que ela produz.
    Quebra-se na definição do conteúdo. O que se ensina é a operação, que se aprende sozinha em horas. O que falta é o critério de aceitação, que não se aprende sozinho e que ninguém escreveu.
    Quebra-se depois da sessão. Uma pessoa que sai de uma formação de dois dias regressa a um posto de trabalho onde ninguém revê o que ela produz com a ferramenta, ninguém definiu o que é aceitável, e ninguém tem tempo alocado para o fazer. A competência que trouxe não tem onde assentar.

    Não basta abrir programas

    Escrevemos em junho, e mantemos, que não basta abrir programas: é preciso abrir contextos. É a única parte da tese original que sobrevive intacta à verificação, e sobrevive mais forte do que estava.

    Abrir um contexto tem dois gestos, e a distinção é operacional.

    O gesto operacional Dar tempo e permissão. Uma hora por semana em que se pode usar a ferramenta de forma deliberada sobre trabalho real, com o resultado a ser revisto por alguém. Custa uma hora e resolve a maior parte do problema dos 51%.
    O gesto estrutural Escrever o critério. O que torna aceitável um texto gerado, um resumo, uma proposta de resposta a cliente. Esse critério existe na cabeça de quem já faz bem o trabalho, nunca está escrito, e explicitá-lo é o trabalho formativo mais valioso e menos vendido do mercado atual.

    Há uma pergunta que costuma matar os dois gestos antes de começarem, e é melhor enfrentá-la já: quem paga a hora?

    A resposta honesta é que a hora já está a ser paga, e mal. Uma pessoa que usa a ferramenta sem critério gasta tempo a produzir resultados que não usa, a corrigir o que ela devolveu, ou a refazer manualmente o que tentou automatizar. Os 51% que dizem poupar menos de uma hora por semana estão, muitos deles, a gastar mais do que poupam. A hora de utilização deliberada com revisão não é um custo novo: é a mesma hora, organizada de outra maneira, com a diferença de que produz aprendizagem em vez de frustração.

    Nenhum dos dois gestos é tecnológico. Ambos são de desenho de trabalho, e é por isso que a entidade formadora que só entrega sessões não os consegue produzir, por muito boa que seja a sessão.

    O que os dados não permitem concluir

    O estudo mede perceções. O estudo do Boston Consulting Group é um inquérito de sentimento com autorrelato, sobre mil pessoas em Portugal continental, conduzido em agosto de 2025. Mede perceções e não comportamento observado. Quando 51% afirmam poupar menos de uma hora por semana, o que se mede é a estimativa que fazem, não o tempo efetivamente poupado.
    A sobreposição é inferência. A afirmação de que os 61% estão largamente contidos nos 67% é uma inferência razoável a partir das duas distribuições, e não um cruzamento publicado. O estudo não divulga a tabulação cruzada entre as duas respostas, pelo que a sobreposição é provável e não é demonstrada.
    INE, Eurostat e BCG não medem o mesmo. Os valores do INE e do Eurostat referem-se a universos e definições distintos dos do estudo de consumo, e o artigo apresenta-os para contraste de ordem de grandeza, não para comparação direta.
    A causalidade não está demonstrada. A ligação entre a ausência de formação e a ausência de ganho percebido é leitura desta casa. Os dados mostram que ambas existem. Não demonstram que uma produz a outra.

    O que isto significa, conforme quem lê

    Para quem desenha programas. A procura está formulada e não está a ser servida: 61% dizem precisar, 20% receberam. O produto em falta não é um curso técnico de inteligência artificial, é um percurso curto sobre critério de aceitação, dirigido a quem já usa a ferramenta e não sabe avaliar o que ela devolve.
    Para quem contrata formação. Se metade da sua equipa já usa inteligência artificial e metade dessa não sente ganho, o problema não é de adoção e não se resolve com licenças. Uma hora semanal com revisão de resultados reais produz mais efeito do que dois dias de formação sem seguimento.
    Para quem define política. O défice não está nas pessoas. Está nas organizações, e o instrumento que serve pessoas individualmente não corrige um problema que se produz no desenho do trabalho.
    Leitura da casa

    A leitura da casa

    Publicámos em junho uma tese sobre a distância entre reconhecer e adotar, e a tese assentava numa leitura que não resistiu à verificação. Este artigo corrige-a por inteiro e deixa registado o que estava errado, porque é o que uma casa que publica leituras do setor tem de fazer quando descobre que se enganou.

    O que fica no lugar é mais incómodo e mais útil.

    Os portugueses adotam inteligência artificial acima da média europeia e sentem-se despreparados a fazê-lo. Seis em cada dez dizem que precisam de mais formação e dois em cada dez receberam alguma. Metade não sente ganho de tempo nenhum.

    Não é um país que precise de ser convencido. É um país que já decidiu e está à espera que alguém lhe ensine a fazer bem aquilo que já faz.

    Isso é uma encomenda, não é um problema. E está por servir.

    Fontes

    Boston Consulting Group, Consumer Sentiment Survey 2025, edição Portugal, inquérito conduzido em agosto de 2025 sobre uma amostra de mil pessoas em Portugal continental, com quarenta e quatro perguntas. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Instituto Nacional de Estatística, dados sobre a utilização de ferramentas de inteligência artificial pela população, reportados ao Eurostat. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Eurostat, Use of artificial intelligence in enterprises, série isoc_eb_ai, dados de 2025. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Blume, B. D., Ford, J. K., Baldwin, T. T. e Huang, J. L. (2010). «Transfer of Training: A Meta-Analytic Review». Journal of Management, 36(4), 1065-1105. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Nota de origem

    Este artigo reúne e desenvolve cinco publicações da Advance Station no LinkedIn, entre 2 e 19 de junho de 2026. O texto foi reescrito por inteiro e a tese central das publicações originais foi corrigida, por não resistir à verificação na fonte.

    • 2 de junho de 2026 · Carta de Navegação, sobre o hiato digital português em seis movimentos.
    • 4 de junho de 2026 · Observatório AS, sobre o reconhecimento da necessidade de formação.
    • 9 de junho de 2026 · Lente de Descoberta, sobre saber não ser o mesmo que adotar.
    • 18 de junho de 2026 · Observatório AS, sobre a utilização regular de tecnologias de inteligência artificial.
    • 19 de junho de 2026 · Diário de Bordo, sobre não bastar abrir programas.
  • Diário do Capitão N.º 02 · Reconhecer e adotar

    Diário do Capitão N.º 02 · Reconhecer e adotar

    Esta edição foi anunciada a 5 de junho, como edição de junho, e sai hoje. Prometia observar julho e agosto. Como esses meses já passaram, vou fazer as duas coisas: dizer o que íamos observar e dizer o que encontrámos.

    O assunto anunciado era o tempo que separa reconhecer de adotar.

    Sessenta e um por cento da população portuguesa considera a formação digital imprescindível. Quarenta e três por cento utiliza tecnologias de inteligência artificial com regularidade. A distância entre os dois números não é uma taxa de conversão, e a leitura completa desses indicadores, com as ressalvas metodológicas que exigem, está no artigo que publicamos na próxima semana. Aqui trato do que faço com eles.

    Três frentes, como estava prometido.

    Primeira frente: o movimento de oferta que importou

    Se tivesse de escolher uma só transformação da oferta formativa portuguesa entre 2024 e 2025, escolheria esta: o dinheiro público mudou o que está disponível, e mudou-o depressa.

    935 M€
    Aprendizagem ao longo da vida no PESSOAS 2030
    794 M€
    Financiamento do Fundo Social Europeu Mais
    200 M€
    Centros Qualifica no Norte, Centro e Alentejo

    O Programa PESSOAS 2030 alocou cerca de 935 milhões de euros à aprendizagem ao longo da vida no período de programação em curso, dos quais 794 milhões vêm do Fundo Social Europeu Mais. Só para os Centros Qualifica nas regiões Norte, Centro e Alentejo estão alocados 200 milhões, com 170 milhões de financiamento europeu. Em paralelo, o Plano de Recuperação e Resiliência financiou a entrada em força das microcredenciais no ensino superior, através de programas como o Impulso 2025.

    Isto reconfigurou a oferta em dois anos. Apareceram percursos curtos certificáveis onde antes havia pós-graduações longas. Instituições que nunca tinham trabalhado com adultos em contexto de trabalho passaram a fazê-lo. E entidades formadoras privadas passaram a competir com oferta pública gratuita em segmentos onde antes não competiam.

    Foi um movimento de oferta, e foi grande.

    O que não foi, e é aqui que quero ser claro, é um movimento de procura. A participação de adultos em formação, medida no indicador que a meta europeia usa, estava nos 35,5% em 2024 contra uma meta de 60% para 2030. Mais oferta, financiada e gratuita, não moveu esse número na proporção do investimento.

    O que o movimento não resolveu
    Se o constrangimento fosse de disponibilidade de oferta, esta vaga de financiamento tê-lo-ia resolvido. Como não resolveu, o constrangimento é outro, e continua por tratar.

    Não escrevo isto contra o investimento, que era necessário e continua a ser. Escrevo porque a conclusão que se tira daqui condiciona o que se faz a seguir.

    Há uma parte deste movimento que me diz respeito diretamente e que seria desonesto não escrever. Uma entidade formadora privada que trabalha há trinta e três anos passou, em dois anos, a competir com oferta gratuita e certificada em segmentos onde antes não havia concorrência pública. Isso é bom para quem se forma e é desconfortável para quem forma, e as duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo.

    A resposta que me parece certa não é queixar-me da concorrência, é perguntar onde é que o gratuito não chega. E não chega em três sítios: no acompanhamento depois da formação, que nenhum financiamento por participante paga; no desenho à medida de um contexto concreto, que exige diagnóstico prévio; e na continuidade para lá do ciclo de fundos, que termina quando o programa termina. É aí que uma casa privada tem alguma coisa a acrescentar, e é aí que devemos estar.

    Segunda frente: três falhas recorrentes

    Vejo as mesmas três falhas em programas que não produzem efeito, e vejo-as em programas nossos e alheios.

    Primeira falha
    Medir no pior momento possível. A avaliação faz-se no fim da última sessão, com o conteúdo fresco, o grupo constituído e o formador na sala. É o instante em que a medição é mais generosa e menos informativa. A investigação sobre transferência mostra que a aplicação decai substancialmente ao longo do primeiro ano, e a avaliação que fazemos é feita antes de a decadência começar. Medimos o entusiasmo e chamamos-lhe resultado.
    Segunda falha
    Desenhar para quem já se inscreveria. Em Portugal, a taxa de participação em formação entre quem tem ensino superior é de 68,3%, contra 27,3% entre quem tem, no máximo, o terceiro ciclo do básico. Um programa desenhado com o formato, a linguagem e o horário que resultam bem para o primeiro grupo produz naturalmente inscrições do primeiro grupo. E depois atribui-se a ausência do segundo à falta de motivação, quando a explicação disponível é bastante mais simples: o programa não foi feito para quem não aparece.
    Terceira falha
    Terminar onde o problema começa. O preditor confirmado de que a aprendizagem se mantém é o ambiente de trabalho de apoio, e não a qualidade da sessão. É o resultado mais consistente de quarenta anos de investigação sobre transferência de formação. E é, quase sempre, a parte que a proposta não inclui, o contrato não prevê e ninguém audita. Entregamos a parte que sabemos fazer e chamamos ao resto problema do cliente.
    Um exemplo
    Um programa de competências digitais desenhado com uma sessão semanal de duas horas, às sete da tarde, com pré-trabalho em plataforma e apresentação final em grupo, é um bom programa. É também um programa que exclui quem faz turnos, quem tem transporte a uma hora de distância, quem não tem computador em casa e quem saiu do sistema de ensino há trinta anos e não vai apresentar nada a ninguém. Nenhuma destas exclusões foi decidida. Todas foram desenhadas.

    Nenhuma das três é falha de execução. São todas falhas de desenho, e por isso são todas corrigíveis sem gastar mais.

    Terceira frente: o horizonte que já passou

    Íamos observar julho e agosto. Observámos, e o que encontrámos não foi o que esperava.

    Passámos estes dois meses a preparar a passagem do nosso trabalho editorial para o nosso próprio domínio, o que obrigou a verificar, uma por uma, todas as afirmações que tínhamos publicado. Fomos às fontes primárias de cada número.

    Vários não sobreviveram.

    Um recorte por nível de escolaridade estava atribuído a uma fonte que não o continha, e os valores corretos eram consideravelmente diferentes.
    Uma distância para a meta de 2030 estava calculada entre dois indicadores com bases de medição distintas, o que a reduzia a menos de metade da distância real.
    Uma taxa de mortalidade empresarial não foi possível confirmar em nenhuma fonte.
    Um crescimento de 98% em microcredenciais, que apresentávamos como prova de uma transformação, aparecia na fonte ao lado de um crescimento de 89% nos cursos que supostamente estariam a ser substituídos.

    Nenhum destes casos foi má-fé. Todos foram a mesma coisa: um número recolhido de um documento intermédio, não confirmado na origem, e repetido depois com a confiança que a repetição dá.

    Corrigimos os quatro e a série passa a exigir, por norma, que cada número traga a fonte, o ano e a data de consulta, e que a conclusão que dele se tira seja verificada contra o conjunto de dados da fonte e não apenas contra o valor citado.

    Escrevo isto aqui porque me parece a única coisa honesta a fazer e porque a alternativa era não escrever. Uma casa que publica leituras do setor com pretensão de rigor tem de aplicar a si o critério que aplica aos outros, e a aplicação desse critério, quando é a sério, dói um bocado.

    O que passamos a observar

    O horizonte prometido já passou, e por isso fixo aqui outro, para o segundo semestre.

    A execução, e não o anúncio. O Governo apresentou em janeiro uma Agenda Nacional para a inteligência artificial com mais de 400 milhões de euros. Vamos acompanhar o que dela chega a formação de pessoas e a que pessoas chega, em vez de comentar o montante.
    O indicador que a meta usa, e não o mais favorável. A participação de adultos em formação vai continuar a ser reportada em pelo menos dois indicadores com valores muito diferentes. Vamos usar o que a meta usa, sempre, mesmo quando o outro nos favorece.
    A dimensão da empresa, e não o país. Os dados de adoção tecnológica mostram que quase todo o fosso português se produz nas pequenas e médias empresas, enquanto as grandes se comportam como as europeias. Vamos deixar de escrever sobre Portugal em bloco nesta matéria.
    E o que fica por medir. Taxas de participação e de conclusão existem e são públicas. Taxas de manutenção da aplicação, ao fim de seis meses e de um ano, não existem em nenhuma estatística nacional. É a lacuna mais consequente do setor e vamos insistir nela.

    O que fica dito

    O constrangimento da formação de adultos em Portugal não é de oferta. Há mais oferta do que houve em qualquer momento da última década, muita dela financiada e gratuita, e a participação não subiu na proporção.

    O constrangimento é de desenho e de contexto. De programas construídos para quem já participa, avaliados no momento em que a avaliação é mais favorável, e terminados no ponto onde a investigação diz que o trabalho começa.

    Há uma assimetria neste diagnóstico que convém não esconder. As três falhas são fáceis de nomear e difíceis de corrigir, e a dificuldade não é técnica. Mudar o momento da medição significa aceitar resultados piores. Mudar o destinatário do desenho significa desenhar para quem se inscreve menos, com turmas mais pequenas e custo por pessoa mais alto. E incluir o pós-formação significa vender um programa mais caro do que o do concorrente que não o inclui. As três correções custam dinheiro ou credibilidade no curto prazo, e é por isso que quase ninguém as faz.

    Nada disto se resolve com mais dinheiro. Resolve-se com decisões que custam pouco e que quase ninguém toma: mudar o momento da medição, mudar o destinatário do desenho, e incluir no programa o que acontece depois da última sessão.

    Vamos escrever sobre cada uma delas ao longo do próximo semestre, e vamos escrever com a base à vista, incluindo quando a base nos contraria.

    Até à próxima.

    João Dias Direção Criativa, Advance Station

    Fontes

    PESSOAS 2030, dados sobre o investimento na aprendizagem ao longo da vida e no apoio aos Centros Qualifica no período de programação 2021-2027, e monitorização das metas sociais europeias para Portugal. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Instituto Nacional de Estatística, Inquérito à Educação e Formação de Adultos 2022, com as taxas de participação por nível de escolaridade. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Blume, B. D., Ford, J. K., Baldwin, T. T. e Huang, J. L. (2010). «Transfer of Training: A Meta-Analytic Review». Journal of Management, 36(4), 1065-1105. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Saks, A. M. e Belcourt, M. (2006). «An investigation of training activities and transfer of training in organizations». Human Resource Management, 45(4), 629-648. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Universidade Aberta, dados institucionais sobre a evolução de estudantes em cursos conferentes e não conferentes de grau, e sobre o Projeto Impulso 2025. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Nota de origem

    Esta edição foi anunciada na página da Advance Station no LinkedIn a 5 de junho de 2026, com o tema e as três frentes de análise já fixados, e não chegou a ser publicada. Sai agora, com o tema anunciado, as três frentes cumpridas e a data real de publicação. Não se retrodata.

  • A infraestrutura silenciosa do desenvolvimento individual

    A infraestrutura silenciosa do desenvolvimento individual

    Quando uma organização contrata um percurso formativo de doze meses, está a assumir, sem o formular assim, que vai existir daqui a doze meses. Quando estabelece uma parceria de qualificação a três anos, está a assumir três. E quando desenha um plano de desenvolvimento de equipa cujo efeito só aparece no ciclo seguinte, está a apostar num ciclo seguinte.

    Nenhuma destas suposições é irrazoável. Todas são suposições.

    Esta peça olha para a base estatística que as sustenta ou não sustenta, e é a mais desconfortável do arquivo, porque o assunto pertence a quem contrata formação tanto como a quem a vende.

    O quadro, antes da leitura

    Indicador Valor Ano Fonte
    Taxa de natalidade de empresas, Portugal 16,8% 2023 Eurostat
    Posição na União Europeia, natalidade 3.ª entre 27 2023 Eurostat
    Taxa de natalidade, média da União Europeia 10,5% 2023 Eurostat
    Sobrevivência a 3 anos após o nascimento 47,7% 2024 INE
    Sobrevivência a 3 anos, ano anterior 48,9% 2023 INE
    Sobrevivência a 1 ano após o nascimento 73,6% 2023 INE
    Sociedades que cessaram atividade com 5 ou menos anos 40,5% 2024 INE
    Setor com maior peso nas cessações de sociedades jovens Outros serviços, 27,6% 2024 INE
    Sociedades de elevado crescimento 7 801 2024 INE

    Duas linhas deste quadro puxam em sentidos opostos, e é entre elas que está o assunto.

    16,8%
    Natalidade de empresas em Portugal
    10,5%
    Média da União Europeia
    47,7%
    Sobrevivência aos três anos

    Portugal cria empresas como poucos países da Europa

    O primeiro dado é bom e quase nunca aparece nesta conversa.

    Em 2023, a taxa de natalidade de empresas em Portugal foi de 16,8%, a terceira mais alta da União Europeia, atrás apenas da Lituânia, com 19,6%, e de Malta, com 17,1%. A média europeia foi de 10,5%. Em 2022 Portugal tinha sido o segundo, com 16,7%. Em 2021 foi dos quatro primeiros, com 14,4%.

    Não é um acidente de um ano. É um traço estrutural: durante três anos consecutivos, Portugal esteve no topo europeu da criação de empresas, com uma taxa próxima do dobro da média da União.

    Isto contraria a narrativa do país empreendedoramente tímido, e é um dado que merecia mais espaço do que tem. Mas tem uma segunda metade.

    Quantas chegam aos três anos

    Segundo o Instituto Nacional de Estatística, a proporção de empresas que sobrevivem três anos após o nascimento foi de 47,7% em 2024, menos 1,2 pontos do que no ano anterior. Em 2023 tinha sido 48,9%, em 2022 foi 48,5%, e em 2021 foi 49,1%.

    A leitura simples
    De cada duas empresas criadas em Portugal, uma não chega aos três anos.

    A sobrevivência ao primeiro ano é bastante mais alta, 73,6% em 2023, o que localiza o problema com precisão. A mortalidade não se concentra no arranque, concentra-se no segundo e terceiro anos, que é exatamente o período em que um percurso formativo de médio prazo estaria a produzir efeito.

    Uma nota sobre mortalidade, e por que este artigo não a usa

    Há uma armadilha nesta matéria que convém desarmar antes de continuar, porque explica leituras contraditórias que circulam sobre o mesmo país.

    A taxa de mortalidade de empresas em Portugal aparece publicada com valores muito diferentes consoante a fonte, e a razão é o universo. O Instituto Nacional de Estatística, quando reporta sociedades não financeiras, registou uma taxa de mortalidade de 3,1% em 2023 e de 4,1% em 2022. O Eurostat, quando reporta o conjunto da economia empresarial, que inclui empresários em nome individual e um perímetro de atividades diferente, apresenta valores europeus na ordem dos 8,5%.

    A base de medição
    Não são valores em conflito. São indicadores diferentes com o mesmo nome, calculados sobre populações diferentes.

    Por isso este artigo trabalha com taxas de sobrevivência e não com taxas de mortalidade. A sobrevivência a três anos é um indicador menos ambíguo, é publicado pelo INE com série longa e comparável, e responde diretamente à pergunta que interessa a quem contrata: esta organização ainda cá está quando o programa terminar?

    Quem quiser usar mortalidade tem de dizer qual, e de que universo. É trabalho a mais para uma frase de abertura de apresentação, e é provavelmente por isso que quase ninguém o faz.

    Quem morre, e em que setor

    Os dados de 2024 acrescentam um recorte que muda a leitura.

    Das 15 133 sociedades não financeiras que morreram nesse ano, 40,5% tinham cinco ou menos anos de idade. No ano anterior, essa proporção tinha sido de 53,7%. A vulnerabilidade concentra-se, de forma consistente, nos primeiros anos de vida.

    E entre essas sociedades jovens que morreram, a maior fatia estava nos Outros serviços, com 27,6%, seguida do Comércio, com 18,3%, e da Construção e atividades imobiliárias, com 17,1%.

    Retenha-se essa primeira linha. O setor onde morrem mais empresas jovens é o dos serviços, e é nos serviços que vive a maior parte da procura de formação profissional que não é obrigatória: consultoras pequenas, agências, gabinetes técnicos, empresas de software com quinze pessoas, clínicas, estruturas de apoio a outras estruturas.

    O cliente típico de um programa de desenvolvimento de equipa não é uma empresa industrial com quarenta anos e ativo fixo. É frequentemente uma organização de serviços com menos de cinco anos, que está exatamente no intervalo onde a estatística é menos generosa.

    Por que isto é matéria de formação, e não de economia

    Um leitor pode objetar que a demografia empresarial pertence a outra conversa. Não pertence, e o argumento tem três degraus.

    Primeiro degrau
    A formação profissional não é um produto que se entrega e termina. Um percurso de certificação leva meses. Um plano de desenvolvimento de competências de liderança só produz efeito observável depois de um ciclo completo. Uma parceria com uma organização para qualificar equipas leva anos a instalar-se. O tempo é a matéria-prima.
    Segundo degrau
    Todo o efeito da formação depende da continuidade do contexto onde é aplicada. É o resultado mais sólido da investigação sobre transferência, e vimo-lo na peça anterior desta série: o ambiente de trabalho é preditor confirmado de que a aprendizagem se mantém. Um ambiente de trabalho que desaparece não é um ambiente de trabalho pouco favorável. É outra coisa.
    Terceiro degrau
    Quando uma organização fecha, o investimento formativo não desaparece por inteiro, mas divide-se de forma desigual. A parte que ficou certificada acompanha a pessoa. A parte que era prática instalada em contexto perde-se com o contexto. E a parte que era plano por concluir nunca chega a acontecer.
    Consequência
    O horizonte de aplicação de um programa pode ser mais curto do que o horizonte do próprio programa.

    O que muda no desenho

    Se a organização cliente tem uma probabilidade não trivial de não existir daqui a três anos, então há quatro coisas que deixam de ser preferência e passam a ser desenho.

    Certificação parcial, e cedo. Um percurso que só certifica no fim transfere todo o risco de descontinuidade para quem se forma. Um percurso que certifica por módulos entrega valor recuperável em cada etapa. Não é fragmentação pedagógica: é gestão de risco a favor de quem aprende.
    O que se aprende pertence à pessoa, não ao posto. Competências desenhadas para o processo específico de uma organização evaporam-se com essa organização. Competências desenhadas para o exercício de uma função mantêm o valor no empregador seguinte. Ambas são legítimas, e a proporção entre as duas é uma decisão que raramente se toma de forma consciente.
    Ciclos de retorno mais curtos. Um programa que só mostra resultado ao fim de dezoito meses tem de sobreviver a dois orçamentos, a uma eventual mudança de liderança e a um ano difícil. Um programa com pontos de verificação trimestrais dá razões para continuar antes de a razão para parar aparecer.
    Portabilidade do registo. Se a organização fechar, quem se formou deve ficar com prova do que fez, em formato que sirva noutro sítio. Isto é trivial de garantir e quase nunca é garantido, porque o registo costuma viver na plataforma da entidade formadora ou na intranet do cliente.

    O outro lado: as que consolidam

    Uma leitura que ficasse pela sobrevivência seria parcial e injusta com o país, porque há um segmento que faz o contrário.

    Em 2024 existiam em Portugal 7 801 sociedades não financeiras de elevado crescimento, mais 12,3% do que no ano anterior. Correspondem a 13,5% do total de sociedades com dez ou mais pessoas remuneradas. São empresas que, por definição estatística, aumentaram o número de pessoas de forma sustentada ao longo de três anos consecutivos.

    O segmento não só existe como está a crescer. E é um cliente formativo completamente diferente do primeiro.

    Uma organização que ganhou pessoas três anos seguidos tem um problema que a organização em risco não tem: gente nova a chegar mais depressa do que a prática instalada consegue absorver, funções que se criam antes de estarem descritas, e chefias que passaram a chefiar sem transição. É o terreno onde a formação tem maior retorno e onde há orçamento e horizonte para a fazer bem.

    Organização jovem em consolidação incerta O valor está na certificação portável, na modularidade e nos ciclos curtos.
    Organização em crescimento sustentado O valor está na estruturação: descrever funções, formar quem passou a chefiar e instalar prática antes que a improvisação se torne cultura.

    A conclusão prática é que o mercado formativo português não é um mercado, são pelo menos dois, e o desenho que serve um serve mal o outro.

    Vender o mesmo programa aos dois é o erro mais comum do setor, e o mais caro para quem compra.

    Solidez como condição, não como consequência

    Há uma inversão nesta matéria que vale a pena tornar explícita, e que dá título à Carta de Navegação que está na origem deste artigo.

    A leitura comum trata a solidez financeira como consequência de fazer as coisas bem: uma organização que trabalha bem torna-se sólida com o tempo. É verdade e é insuficiente.

    Na formação de longo prazo, a solidez como condição é também o que permite manter um programa em curso durante um mau trimestre, honrar um compromisso de acompanhamento que não gera receita imediata, e não interromper uma parceria porque a tesouraria apertou.

    Uma entidade formadora frágil não falha de forma dramática: falha de forma discreta, deixando cair o acompanhamento pós-formação, que é justamente a parte que a investigação identifica como determinante e que ninguém audita.

    Isto aplica-se aos dois lados da mesa. Vale para quem forma e vale para quem contrata, e é por isso que a pergunta sobre continuidade é legítima em qualquer das direções.

    O que os dados não permitem concluir

    Três limites, e são importantes.

    A sobrevivência não mede sucesso. A sobrevivência a três anos mede a permanência da unidade estatística, e não o sucesso da atividade. Uma empresa pode encerrar por venda, por fusão, por reestruturação ou porque quem a criou passou a outra coisa com melhores condições. Nem toda a morte estatística é fracasso.
    O setor formativo não está isolado nestes dados. Os recortes setoriais referem-se a sociedades não financeiras e às categorias de atividade do INE. A formação profissional não constitui categoria autónoma nestes recortes, pelo que a leitura sobre serviços é de enquadramento e não uma medição do setor formativo.
    Os dados não demonstram causalidade. Nada nestes dados estabelece relação causal entre demografia empresarial e resultados de formação. O que se estabelece é uma condição de contexto, com base estatística, que o desenho de programas deveria considerar e habitualmente não considera. A ligação entre as duas coisas é leitura desta casa, e fica declarada como leitura.

    O que isto significa, conforme quem lê

    Para quem desenha programas. O horizonte de aplicação pode ser mais curto do que o do percurso, sobretudo em clientes de serviços com poucos anos. Certificar por módulos e desenhar para a função em vez de para o processo interno são decisões de desenho, não concessões.
    Para quem contrata formação. A continuidade da entidade formadora é parte do que se contrata e pode perguntar-se. E a continuidade da própria organização é variável do retorno esperado, o que aconselha ciclos de verificação mais curtos do que o ciclo do programa.
    Para quem define política. Financiar formação sem olhar à demografia empresarial é financiar metade do problema. Um país que cria empresas ao dobro da média europeia e vê pouco menos de metade chegar aos três anos tem, na estabilização dessas empresas, um multiplicador do efeito de tudo o resto que financia.
    Leitura da casa

    A leitura da casa

    Portugal tem um problema que raramente é enunciado assim: não é um país que crie poucas empresas, é um país onde muitas das que se criam não duram o suficiente para acumular nada, incluindo competência.

    A formação é uma das coisas que se acumula, e acumula-se devagar. Precisa de contexto que dure, de alguém que observe a aplicação, e de um ciclo seguinte onde o que se aprendeu se volte a usar. Nada disso existe numa organização que fecha ao segundo ano.

    Não propomos que quem forma resolva a demografia empresarial portuguesa, o que seria absurdo. Propomos que a considere no desenho, que é o que está ao alcance, e que a nomeie na conversa com quem contrata, em vez de a deixar como pressuposto silencioso de ambos os lados.

    É a isso que chamamos infraestrutura silenciosa. Não aparece em nenhuma proposta, não consta de nenhum referencial, e decide mais resultados do que a maioria das escolhas pedagógicas que se discutem em cima dela.

    Fontes

    Instituto Nacional de Estatística, Empresas em Portugal, Demografia das Empresas, edições relativas a 2021, 2022, 2023 e 2024, com taxas de natalidade, mortalidade e sobrevivência, e recorte por idade e setor das sociedades que cessaram atividade. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Eurostat, Business demography statistics, com as taxas de natalidade e de mortalidade de empresas na União Europeia e nos Estados-Membros, dados de 2021 a 2023, série bd_size. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Nota de origem

    Este artigo desenvolve uma publicação da Advance Station no LinkedIn, de 5 de maio de 2026, a Carta de Navegação sobre a solidez como condição das políticas de desenvolvimento de longo prazo. O texto foi reescrito para leitura contínua e a base estatística foi refeita a partir das fontes primárias, com indicadores atualizados e com um valor da publicação original substituído por não ter sido possível confirmá-lo na fonte citada.

  • Transmitir e desenvolver não são a mesma coisa

    Transmitir e desenvolver não são a mesma coisa

    Há um momento que distingue a formação que importa da formação que apenas acontece. É o momento em que o curso acaba.

    Quando o último módulo termina e o certificado é assinado, boa parte das entidades formadoras considera o trabalho feito. A leitura desta casa é diferente, e começa exatamente aí: a formação que importa não termina quando o curso acaba, começa quando quem se formou regressa ao trabalho e toma uma decisão de outra maneira.

    Isto lê-se facilmente como declaração de intenções, do género que qualquer entidade formadora assina sem esforço. Não é. É uma afirmação sobre um fenómeno que tem quarenta anos de investigação, um nome próprio e resultados suficientemente consistentes para orientar decisões concretas de desenho. Chama-se transferência da formação, e vale a pena olhar para o que se sabe sobre ela antes de continuar.

    O número mais citado do setor não tem estudo por trás

    Quem trabalha em formação já ouviu, provavelmente mais do que uma vez, que apenas 10% do que se aprende em sala se traduz em mudança de comportamento no trabalho. É um número com uma carreira notável: aparece em apresentações, em propostas comerciais, em artigos de opinião e em programas de conferência.

    Seguindo as referências até à raiz, chega-se sempre ao mesmo sítio: um artigo de David Georgenson publicado em 1982 na Training and Development Journal. E aí encontra-se o seguinte. O autor não estava a apresentar resultados de estudo nenhum. Estava a formular, em discurso direto e entre aspas, o que ouvia dizer aos responsáveis de formação, e a acrescentar uma estimativa pessoal. O artigo não cita investigação, porque não havia investigação a citar. O autor era, à data, responsável de desenvolvimento de produto numa empresa de sistemas de aprendizagem.

    O rastreio desta origem foi feito e publicado por vários autores, entre os quais Fitzpatrick e Thalheimer. Quatro décadas depois, o número continua em circulação, e continua a ser aquilo que sempre foi: uma estimativa de circunstância, transformada em facto por repetição.

    Um dado conveniente continua a precisar de base
    Escrevemos isto com algum incómodo, porque é um número que serve a argumentação de quem vende formação diferente, e portanto serve-nos. Um argumento que assenta num dado sem base não é um argumento melhor por ser conveniente.

    O que a investigação diz mesmo

    A medição séria da transferência existe e dá outro retrato.

    O estudo de referência é de Alan Saks e Monica Belcourt, publicado em 2006 na Human Resource Management. Recolheu dados junto de profissionais de formação de 150 organizações, e reporta três valores em vez de um: 62% de aplicação no trabalho imediatamente após a formação, 44% ao fim de seis meses, 34% ao fim de um ano.

    62%
    Imediatamente após a formação
    44%
    Ao fim de seis meses
    34%
    Ao fim de um ano
    Fonte: Saks e Belcourt, Human Resource Management, 2006. Estimativa de profissionais de formação de 150 organizações.
    O número que interessa
    O número que interessa não é o 62%. É a curva.

    Mais de seis em cada dez pessoas aplicam o que aprenderam, o que desmente por completo a ideia de que a formação não chega ao trabalho. Mas quase metade dessa aplicação desaparece em doze meses, sem que nada tenha acontecido a não ser a passagem do tempo e o regresso à rotina. O problema não é de aquisição. É de manutenção.

    Isto muda o sítio onde é preciso intervir. Se a falha estivesse na aquisição, a resposta seria melhorar a sala: melhores formadores, melhores materiais, melhor avaliação final. Como a falha está na manutenção, a resposta está no que acontece depois, e o depois quase nunca faz parte do programa.

    Convém dizer o que este estudo não é. Os valores resultam de estimativa de profissionais de formação sobre as suas próprias organizações, e não de observação direta de comportamento. É autorrelato de quem tem interesse profissional no resultado, com todas as cautelas que isso exige. E é um estudo canadiano de 2006. Serve para mostrar a forma da curva, não para fixar o valor exato em Portugal em 2026.

    Onde está o determinante, e não é onde se procura

    A pergunta seguinte é o que faz a diferença entre quem mantém a aplicação e quem a perde.

    A resposta mais sólida vem de uma meta-análise de Brian Blume, Kevin Ford, Timothy Baldwin e Jason Huang, publicada em 2010 no Journal of Management, que reuniu 89 estudos empíricos sobre transferência. Os resultados confirmam relação positiva entre transferência e quatro grupos de fatores: capacidade cognitiva, conscienciosidade, motivação, e um ambiente de trabalho de apoio.

    O quarto é o que interessa a quem desenha, porque é o único que uma entidade formadora pode ajudar a construir e é o único que quase nunca aparece na proposta.

    A arrumação clássica destes fatores é anterior e vem de Baldwin e Ford, em 1988: as condições da transferência dividem-se em características de quem aprende, desenho da formação, e ambiente de trabalho. Três grupos. A prática do setor concentra-se quase inteiramente no segundo, avalia sobretudo o primeiro, e trata o terceiro como problema do cliente.

    O contexto europeu e português

    A investigação sobre transferência é internacional e sobretudo anglo-saxónica. Vale a pena olhar para o que os dados europeus dizem sobre o terreno onde ela se aplicaria.

    O Inquérito à Formação Profissional Contínua nas Empresas, o CVTS do Eurostat, tem cadência quinquenal e a edição mais recente reporta-se a 2020. Nesse ano, 67,4% das empresas da União Europeia com dez ou mais pessoas ao serviço proporcionaram formação profissional contínua ao seu pessoal, valor abaixo dos 70,5% de 2015. Entre 2015 e 2020, apenas em dois países aumentou a proporção de empresas que financiam formação: Itália, com mais 8,7 pontos, e Portugal, com mais 0,6.

    Convém enquadrar antes de celebrar. O ano de referência é 2020, marcado pela pandemia e pelos confinamentos, e a queda europeia é em boa parte explicada por isso. Que Portugal tenha subido num ano em que quase toda a Europa desceu é facto, e é facto sobre resiliência da oferta e não sobre a sua qualidade.

    Há uma segunda linha destes dados que interessa mais à questão da transferência. Em 2020, participaram em cursos financiados pelo empregador 42,4% das pessoas ao serviço no conjunto das empresas europeias, mas apenas 27,5% nas pequenas empresas, com dez a quarenta e nove pessoas. E a proporção de empresas que proporcionam formação varia de 92,8% nas grandes para 63,5% nas pequenas.

    Isto liga-se diretamente ao que a meta-análise identificou. Se o determinante da manutenção é o ambiente de trabalho de apoio, e se a pequena empresa é onde há menos estrutura formal de acompanhamento, então o défice não está apenas no acesso à formação. Está também na condição que faz a formação durar depois de acontecer. Uma organização de doze pessoas não tem departamento de formação, não tem plano de acompanhamento e não tem quem observe a aplicação. Tem, quase sempre, quem chefia, e é aí que a intervenção tem de ser desenhada.

    A distinção que a meta-análise acrescenta

    Há um resultado nesta meta-análise que raramente é citado e que sustenta, com evidência, aquilo que esta casa vinha a dizer por convicção.

    Os fatores preditores da transferência, incluindo a motivação e o ambiente de trabalho, têm relação mais forte com a transferência quando a formação incide sobre competências abertas do que quando incide sobre competências fechadas.

    Competência fechada Existe uma forma correta de fazer: operar um equipamento, aplicar um procedimento, preencher um formulário.
    Competência aberta A aplicação depende do julgamento de quem a exerce: conduzir uma reunião difícil, decidir uma prioridade, dar uma notícia má a uma equipa.

    Para as competências fechadas, um bom curso quase basta. Para as competências abertas, o curso é a parte pequena, e o contexto de aplicação é a parte grande. É por isso que programas de liderança avaliados com nota máxima produzem tão pouca mudança visível: não é o programa que falha, é o desenho que termina onde o problema começa.

    E é exatamente aqui que a distinção entre transmitir e desenvolver deixa de ser uma preferência de vocabulário.

    Ensino e desenvolvimento, com definição

    O ensino transmite. O desenvolvimento prepara.
    O ensino entrega conteúdo. O desenvolvimento muda o que a pessoa consegue fazer no dia seguinte.
    O ensino mede-se em horas frequentadas. O desenvolvimento mede-se em decisões diferentes.

    Ambos são necessários e nenhum é superior ao outro em abstrato. Uma competência fechada aprende-se por transmissão, e é assim que deve ser: ninguém quer que a operação de um equipamento de segurança dependa do julgamento pessoal de quem o opera. O que não funciona é aplicar o desenho da transmissão a uma competência aberta, e depois medir o resultado com o instrumento da transmissão.

    A decisão observável como unidade de medida

    Se o desenvolvimento se mede em decisões diferentes, então é preciso saber, antes de desenhar, qual é a decisão.

    Uma decisão observável tem três propriedades.

    Acontece fora da sala. Num momento identificável do trabalho de quem se formou.
    É reconhecível por terceiros. Alguém que não esteve na formação consegue notar que foi tomada de outra maneira.
    É repetível. Volta a apresentar-se com frequência suficiente para que a mudança tenha consequência.
    A diferença prática
    «Compreender os princípios da delegação» não é uma decisão observável. «Distribuir o trabalho da equipa na reunião de segunda-feira» é.

    A diferença não é de redação. Quem desenha a partir da primeira formulação constrói uma sessão sobre princípios de delegação e avalia com um questionário. Quem desenha a partir da segunda tem de saber como corre a reunião de segunda-feira, o que impede hoje a distribuição de correr melhor, e o que teria de mudar no contexto para que a nova forma resistisse ao terceiro mês. São dois programas diferentes, com o mesmo título.

    O que isto não é

    Não é a avaliação de reação. Perguntar no fim se as pessoas gostaram mede satisfação, que é informação útil sobre a experiência e não é informação nenhuma sobre a aplicação.
    Não é a avaliação de conhecimento. Um teste no fim da última sessão mede o que ficou retido naquele momento, com o conteúdo ainda fresco e o contexto ainda presente. É o pior momento possível para prever o que acontece ao fim de seis meses, que é precisamente quando a curva de Saks e Belcourt já perdeu um terço.
    E não é uma promessa de resultado. Nada nisto garante que um programa mude comportamento. Garante apenas que um programa desenhado a partir da decisão tem uma hipótese, e um programa desenhado a partir do conteúdo não a tem.

    Um objetivo reescrito

    Vale a pena ver a diferença aplicada.

    Formulação de conteúdo
    «No final do módulo, os participantes conhecerão as principais técnicas de feedback construtivo.»
    Formulação de decisão
    «No final do módulo, quem participa conduz a primeira conversa de feedback difícil que tiver pendente, dentro de duas semanas, e traz o registo do que correu bem e mal para a sessão de acompanhamento.»

    A segunda formulação obriga a três coisas que a primeira dispensa. Obriga a saber que existe uma conversa pendente, o que exige diagnóstico antes de desenhar. Obriga a prever uma sessão de acompanhamento, o que altera a estrutura e o custo do programa. E obriga a envolver quem chefia, porque a conversa acontece dentro da organização e não dentro da sala.

    É mais trabalho. É também a diferença entre os 62% e os 34%.

    O que isto significa, conforme quem lê

    Para quem desenha programas. O ambiente de trabalho é preditor confirmado da transferência e quase nunca entra no desenho. Um programa sobre competências abertas que não inclua acompanhamento pós-formação e envolvimento de quem chefia está a entregar a parte pequena do problema.
    Para quem contrata formação. A pergunta a fazer a uma proposta não é o que o programa contém, é o que acontece nas doze semanas seguintes ao fim das sessões. Se a resposta for «um inquérito de satisfação», a proposta está a medir a parte que decai menos e a ignorar a que decai mais.
    Para quem define política. Os indicadores de participação e de conclusão não captam manutenção. Um sistema pode subir os dois e não mexer no terceiro, e o terceiro é o que produz efeito económico.
    Posição da casa

    A posição da casa

    Isto é a posição de uma entidade formadora sobre o seu próprio trabalho, e fica declarada como posição e não como resultado.

    O trabalho real do desenvolvimento individual não é a transmissão, é a transformação. Não é o evento, é o trajeto. Foi por isso que escolhemos o nome Advance Station, com Individual Development por baixo, e trinta anos depois continua a ser por isso.

    A consequência prática desta posição é desconfortável para quem a assume, e é justo dizê-lo. Significa que um programa não termina quando a sala se esvazia, que o desenho tem de incluir o que a entidade formadora não controla, e que a medição honesta vai revelar, mais vezes do que agrada, que a curva desceu. Uma casa que decide medir o que acontece depois vai encontrar números piores do que a casa que decide medir a satisfação no fim.

    Preferimos os piores. São os únicos que dizem alguma coisa.

    Fontes

    Georgenson, D. L. (1982). «The problem of transfer calls for partnership». Training and Development Journal, 36(10). Origem da estimativa de 10%, apresentada pelo autor como estimativa pessoal e sem investigação citada. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Saks, A. M. e Belcourt, M. (2006). «An investigation of training activities and transfer of training in organizations». Human Resource Management, 45(4), 629-648. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Blume, B. D., Ford, J. K., Baldwin, T. T. e Huang, J. L. (2010). «Transfer of Training: A Meta-Analytic Review». Journal of Management, 36(4), 1065-1105. Meta-análise de 89 estudos empíricos. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Eurostat, Statistics on continuing vocational training in enterprises, Inquérito à Formação Profissional Contínua nas Empresas (CVTS), dados de 2020. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Cedefop, indicadores sobre formação profissional contínua nas empresas, com base no CVTS do Eurostat. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Baldwin, T. T. e Ford, J. K. (1988). «Transfer of training: A review and directions for future research». Personnel Psychology, 41(1), 63-105. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Nota de origem

    Este artigo reúne e desenvolve três publicações da Advance Station no LinkedIn, entre 30 de abril e 23 de junho de 2026. O texto foi reescrito para leitura contínua e a base empírica é nova: as peças originais apresentavam a distinção como posição editorial, sem fonte.

    • 30 de abril de 2026 · Diário de Bordo, edição inaugural, sobre o momento em que o curso acaba.
    • 1 de maio de 2026 · Lente de Descoberta, edição inaugural, sobre o que distingue ensino de desenvolvimento.
    • 23 de junho de 2026 · Lente de Descoberta, sobre a formação que muda o que se faz a seguir.