Categoria: Formação contínua

  • 2030 e o horizonte de planeamento

    Uma meta com prazo distante comporta-se como horizonte até ao dia em que passa a caber dentro do ciclo de planeamento em curso. Nesse dia, deixa de ser um número em apresentações e passa a ser uma linha de orçamento.

    Para as metas de 2030, esse dia já passou. Um plano trienal aprovado em 2026 termina em 2029. Um ciclo de fundos comunitários em execução vai até 2027, com derrapagem até 2029. Um percurso formativo desenhado agora tem a sua primeira coorte formada em 2027 e a segunda em 2028.

    Tudo o que se aprovar nos próximos meses já está dentro do prazo. E, no entanto, quase nenhum documento de planeamento setorial trata as metas de 2030 como matéria operacional.

    Este artigo faz o inventário dessas metas, mede a distância de Portugal a cada uma, e mostra por que a soma delas não é um número.

    As cinco metas, e onde Portugal está

    Meta para 2030 Alvo Portugal Origem
    Participação anual de adultos em formação 60% 35,5% em 2024 Plano de Ação do Pilar Europeu dos Direitos Sociais
    Empresas a usar nuvem, análise de dados ou IA 75% 11,54% em IA e 45% em nuvem Programa da Década Digital
    População dos 16 aos 74 com competências digitais básicas 80% 74% Programa da Década Digital
    PME com nível básico de intensidade digital 90% 71% Programa da Década Digital
    Taxa de emprego dos 20 aos 64 anos 78% na UE e 80% em Portugal 78,5% em 2024 Plano de Ação do Pilar Europeu dos Direitos Sociais

    A última linha é a que dá perspetiva às restantes.

    A meta que já está cumprida

    Portugal atingiu, em 2024, uma taxa de emprego de 78,5% na população dos 20 aos 64 anos. A meta europeia é de 78% e a meta nacional é de 80%. O país ultrapassou a primeira e está a um ponto e meio da segunda.

    78%
    Meta europeia
    78,5%
    Portugal em 2024
    80%
    Meta nacional

    Vale a pena deter-se aqui, porque é um resultado que a conversa pública raramente regista e porque muda a leitura das outras quatro.

    Se o problema português fosse de mobilização geral, de cultura de trabalho ou de dinamismo económico, apareceria também aqui. Não aparece. O país coloca gente a trabalhar ao nível das melhores metas europeias e falha, por larga margem, as metas que dizem respeito ao que essas pessoas sabem fazer e às ferramentas com que o fazem.

    O diagnóstico
    O défice não é de emprego. É de qualificação dentro do emprego, o que é um problema diferente, com instrumentos diferentes.

    Nenhuma se mede da mesma maneira

    Aqui está a razão por que estas cinco metas não se somam nem se comparam.

    A meta de participação em formação é monitorizada num indicador de doze meses derivado do Inquérito ao Emprego, que exclui a formação em posto de trabalho com acompanhamento. Não é o mesmo indicador que produz os 44,2% habitualmente citados a partir do Inquérito à Educação e Formação de Adultos, e a diferença entre os dois chega a ser de vinte pontos.

    A meta das empresas admite três tecnologias em alternativa: nuvem, análise de dados ou inteligência artificial. Uma empresa que use apenas serviços de nuvem conta para a meta. Por isso Portugal, que está nos 11,54% em inteligência artificial, está nos 45% em nuvem, e o valor que conta para a meta é o do conjunto e não o de cada tecnologia isolada.

    A meta das competências digitais mede a população dos 16 aos 74 anos por autoavaliação em cinco domínios, com um limiar definido. A meta das PME mede um índice de intensidade digital construído a partir de doze indicadores. E a meta de emprego mede uma taxa clássica de contas nacionais.

    Regra de leitura
    Cinco metas, cinco instrumentos, cinco universos. Quem apresentar as cinco num só gráfico está a apresentar cinco escalas diferentes no mesmo eixo.

    A meta mais próxima e a mais distante são o mesmo problema

    Feita a ressalva metodológica, resta uma leitura que sobrevive a ela.

    74% → 80%
    Competências digitais básicas Seis pontos de distância.
    35,5% → 60%
    Participação em formação Quase vinte e cinco pontos de distância.

    A meta mais próxima de ser cumprida, tirando o emprego, é a das competências digitais básicas: 74% contra 80%, seis pontos de distância. A mais distante é a da participação em formação: 35,5% contra 60%, quase vinte e cinco pontos.

    São, em boa medida, o mesmo problema visto de dois ângulos. Competências digitais básicas adquirem-se, para a maior parte da população adulta, através de utilização quotidiana e de aprendizagem informal. A participação em formação exige uma decisão consciente, tempo alocado, e frequentemente um empregador que a autorize.

    Estrutura vs. difusão
    Portugal está a conseguir o que se difunde por uso e a falhar o que exige estrutura.

    Isto tem uma consequência de política que a maior parte dos planos não retira: aproximar-se da meta de competências digitais não aproxima da meta de participação em formação. São mecanismos distintos e o primeiro pode até reduzir a pressão sobre o segundo, na medida em que produz a sensação de que o problema está a resolver-se.

    O mesmo princípio à escala do trimestre

    O que vale para 2030 vale para setembro, e à escala em que quem trabalha em formação sente todos os anos.

    Setembro não começa em setembro. Uma edição que abre na primeira semana de outubro tem de ter a captação a correr em agosto, o programa fechado em julho, os formadores confirmados em junho e a decisão de o fazer tomada em maio. Quem começa a preparar setembro em setembro está a preparar janeiro.

    Maio
    Decisão de realizar a edição
    Junho
    Equipa formadora confirmada
    Julho
    Programa fechado
    Agosto
    Página publicada e captação
    Setembro
    Inscrições fechadas
    Outubro
    Primeira sessão

    Vale a pena fazer a conta ao contrário, uma vez, com uma edição concreta. Uma turma que abre na primeira semana de outubro precisa de inscrições fechadas em meados de setembro, o que exige captação a correr desde meados de agosto, o que exige a página de oferta publicada no início de agosto, o que exige o programa fechado em julho, o que exige a equipa formadora confirmada em junho, o que exige a decisão de fazer a edição tomada em maio.

    Cinco meses entre a decisão e a primeira sessão, e nenhum deles é opcional. Quem comprime esta cadeia comprime sempre pelo mesmo sítio, que é a captação, e depois atribui a turma pequena ao mercado.

    A regra
    O prazo relevante não é a data em que a coisa acontece, é a data em que deixa de ser possível decidir sobre ela.

    Essa data é sempre muito anterior e quase nunca está marcada em lado nenhum. Vale a pena escrevê-la. Para cada objetivo com data, há um momento a partir do qual o resultado já está determinado e só falta ver acontecer. Um plano que não identifique esse momento não é um plano, é uma intenção com calendário.

    O que muda no perfil de quem se forma

    Há um terceiro horizonte, mais lento do que os outros dois, e é aquele em que o próprio destinatário da formação se transforma.

    Em junho de 2022, o Conselho da União Europeia adotou a recomendação para uma abordagem europeia às microcredenciais, definidas como certificações de percursos curtos, não conducentes a grau, com foco em competência específica e reconhecimento no espaço europeu. Foi o momento em que a formação curta e certificável deixou de ser uma prática dispersa e passou a ter enquadramento comum.

    Em Portugal, o instrumento de execução foi sobretudo o Plano de Recuperação e Resiliência, através de programas como o Impulso 2025, que financiaram microcredenciais em instituições de ensino superior. Só na Universidade Aberta, entre 2022 e 2024, passaram por estas formações 4 725 pessoas.

    56,5%
    25 aos 34 anos
    49,9%
    35 aos 44 anos
    46,2%
    45 aos 54 anos

    E a idade de quem se forma está a subir. Os dados europeus mostram que a participação em educação e formação decresce com a idade, mas menos do que se supõe: 56,5% na faixa dos 25 aos 34 anos, 49,9% entre os 35 e os 44, e 46,2% entre os 45 e os 54. Uma diferença de dez pontos ao longo de trinta anos de vida ativa não é um colapso, é um declive suave.

    Com a vida ativa a estender-se, o efeito prático é que a formação de adultos deixa de ser um assunto do início de carreira e passa a ser um assunto de todas as fases dela.

    O que conta como microcredencial

    A recomendação europeia de 2022 não se limitou a nomear a coisa. Fixou o que uma microcredencial tem de conter para ser reconhecível fora de quem a emite, e essa lista é a parte operacional que costuma passar despercebida.

    Uma microcredencial deve registar os resultados de aprendizagem efetivamente adquiridos, avaliados segundo critérios transparentes e previamente definidos.

    Resultados de aprendizagem O que foi efetivamente adquirido e avaliado.
    Identificação Quem aprendeu e quem emitiu a credencial.
    Data e volume de trabalho Quando aconteceu e qual o esforço envolvido.
    Nível e avaliação A que nível corresponde e de que forma foi avaliada.
    Garantia de qualidade A credencial deve estar abrangida por um sistema de qualidade.

    Nada disto é exigente do ponto de vista pedagógico. É exigente do ponto de vista administrativo, e é aí que a maior parte da oferta formativa portuguesa não cumpre. Uma formação curta com certificado de presença não é uma microcredencial, por mais bem desenhada que seja: falta-lhe a avaliação contra critério e a declaração de resultados de aprendizagem.

    A consequência prática para quem opera no setor é concreta. A diferença entre emitir um certificado e emitir uma microcredencial reconhecível não está no conteúdo nem na duração. Está no que fica registado, e o que fica registado é o que permite a quem se formou usar aquilo noutro sítio.

    Onde está a diferença
    É trabalho de retaguarda, não é trabalho de sala. E é a condição de a formação curta valer alguma coisa depois de terminar.

    Uma leitura que é preciso corrigir

    Circula um número sobre microcredenciais que merece cuidado, e é um número que esta casa já usou.

    Entre os anos letivos de 2018-2019 e 2023-2024, o número de estudantes em cursos não conferentes de grau da Universidade Aberta cresceu 98%. É facto, e costuma ser apresentado como prova da ascensão da formação curta.

    Só que, no mesmo período e na mesma instituição, os cursos conferentes de grau cresceram 89%.

    +98%
    Cursos não conferentes de grau 2018-2019 a 2023-2024
    +89%
    Cursos conferentes de grau No mesmo período e na mesma instituição

    A diferença entre 98% e 89% é de nove pontos, não é de uma ordem de grandeza. O que os dois números mostram, lidos em conjunto, é uma instituição que quase duplicou em ambas as frentes, provavelmente por efeito do financiamento do Plano de Recuperação e Resiliência e da procura pós-pandemia por ensino a distância.

    Não é o retrato de uma substituição do grau pela microcredencial. É o retrato de um crescimento paralelo. A microcredencial está a somar-se, não a substituir, e a diferença entre estas duas leituras é decisiva para quem decide onde investir.

    Leitura corrigida
    O primeiro número, sozinho, sustenta uma estratégia. Os dois juntos sustentam outra.

    O que os dados não permitem concluir

    As cinco metas não são comparáveis. As cinco metas têm bases de medição diferentes e este artigo apresenta-as lado a lado por conveniência de leitura, não porque sejam comparáveis. Qualquer conclusão que dependa da comparação direta entre duas delas é indevida.
    A Universidade Aberta não representa todo o sistema. Os dados da Universidade Aberta referem-se a uma instituição, a maior do país no ensino a distância, e não ao sistema de ensino superior português. A extrapolação para o conjunto não está fundamentada.
    Os dados por idade são europeus. Os valores de participação por faixa etária são europeus e de 2022. Servem para descrever a forma do declive, não para caracterizar Portugal em 2026.

    O que isto significa, conforme quem lê

    Para quem desenha programas. O calendário de produção precede sempre o calendário de oferta, e a data que importa é aquela a partir da qual já não se pode decidir. Vale a pena fixá-la por escrito em cada ciclo, porque é a única que não aparece em nenhum documento.
    Para quem contrata formação. A decisão do próximo ciclo toma-se no ciclo atual. Um plano de formação aprovado em janeiro para arrancar em janeiro arranca em abril, e a diferença raramente é atribuída à decisão tardia.
    Para quem define política. As cinco metas não se somam e progredir numa não implica progredir noutra. A que está mais perto avança por difusão e a que está mais longe exige estrutura, e é sobre a segunda que os instrumentos de política têm mais efeito e menos atenção.
    Leitura da casa

    A leitura da casa

    Portugal chegou às metas de emprego e está longe das metas de qualificação. Isto não é um paradoxo, é uma sequência: primeiro coloca-se gente a trabalhar, depois qualifica-se quem trabalha, e o país está entre as duas fases há mais tempo do que devia.

    A parte incómoda é que a segunda fase não acontece por difusão. As competências digitais básicas subiram porque as pessoas usam telemóveis e serviços públicos em linha todos os dias. A participação em formação não sobe por uso: sobe por decisão, e a decisão tem custo, tempo e alguém que a autorize.

    Faltam menos de quatro anos e meio. Não é tempo para desenhar sistemas novos, é tempo para executar os que existem, e a diferença entre chegar perto e não chegar vai depender de decisões que estão a ser tomadas agora, em documentos onde a data de 2030 nem sequer é mencionada.

    Fontes

    Comissão Europeia, Plano de Ação sobre o Pilar Europeu dos Direitos Sociais, 2021, com as metas de participação em formação e de emprego para 2030. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Comissão Europeia, Programa da Década Digital para 2030 e Relatório sobre o Estado da Década Digital, com as metas relativas a empresas, competências digitais e intensidade digital das PME. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    PESSOAS 2030, dados de monitorização das metas sociais europeias para Portugal, com os indicadores de 2024. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Eurostat, Adult learning statistics, série trng_aes_100, com a participação em educação e formação por faixa etária. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Conselho da União Europeia, recomendação sobre uma abordagem europeia às microcredenciais para a aprendizagem ao longo da vida e a empregabilidade, junho de 2022. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Universidade Aberta, dados institucionais sobre a evolução de estudantes em cursos conferentes e não conferentes de grau entre 2018-2019 e 2023-2024, e sobre o Projeto Impulso 2025. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Nota de origem

    Este artigo reúne e desenvolve três publicações da Advance Station no LinkedIn, entre 28 de abril e 18 de julho de 2026. O texto foi reescrito para leitura contínua, a base foi alargada a fontes oficiais que as publicações não citavam, e uma leitura anterior sobre microcredenciais foi corrigida.

    • 28 de abril de 2026 · Carta de Navegação, edição inaugural, com seis movimentos sobre o horizonte formativo.
    • 26 de maio de 2026 · Lente de Descoberta, sobre 2030 caber dentro do ciclo de planeamento em curso.
    • 18 de julho de 2026 · Lente de Descoberta, sobre setembro não começar em setembro.
  • A participação dos adultos portugueses em formação

    A participação dos adultos portugueses em formação

    Em 2022, 44,2% da população residente em Portugal entre os 25 e os 64 anos participou, nos doze meses anteriores, em pelo menos uma atividade de educação formal ou não formal. A média da União Europeia foi de 46,6%. Portugal ficou em 18.º lugar entre os vinte e sete.

    O número vem do Inquérito à Educação e Formação de Adultos do Instituto Nacional de Estatística, divulgado a 22 de março de 2024. É o indicador mais citado quando se fala de qualificação de adultos em Portugal. É também aquele que com mais frequência aparece comparado com coisas que não mede.

    Esta é a primeira edição do Roteiro e começa devagar, de propósito. Antes de dizer o que o número significa, convém dizer o que ele é. Um indicador mal enquadrado não é um indicador fraco: é um indicador que leva quem decide para o sítio errado, com a confiança de quem tem dados.

    O quadro, antes da leitura

    Indicador Portugal União Europeia Fonte
    Participação em educação ou formação, 25-64 anos, últimos 12 meses, 2022 44,2% 46,6% INE, IEFA 2022; Eurostat, trng_aes_100
    Posição no conjunto dos 27 Estados-Membros, 2022 18.º n.d. INE, IEFA 2022
    Participação, população com ensino superior, 2022 68,3% n.d. INE, IEFA 2022
    Participação, população com o 3.º ciclo do básico no máximo, 2022 27,3% n.d. INE, IEFA 2022
    Participação, homens e mulheres, 2022 45,5% e 43,0% n.d. INE, IEFA 2022
    Participação, população empregada, 2022 50,6% n.d. INE, IEFA 2022
    Indicador de monitorização da meta de 2030, 2024 35,5% 28,1% PESSOAS 2030; Eurostat, trng_lfs_17
    Meta para 2030, europeia e nacional 60% 60% Plano de Ação do Pilar Europeu dos Direitos Sociais, 2021

    Duas linhas deste quadro medem a mesma coisa e dão valores diferentes. É por aí que se começa.

    Dois inquéritos, dois números, o mesmo conceito

    Há duas formas oficiais de medir quantos adultos participam em formação ao longo de um ano, e produzem resultados muito distantes um do outro.

    O Inquérito à Educação e Formação de Adultos, conhecido pela sigla europeia AES, tem cadência de cinco em cinco anos e pergunta sobre os últimos doze meses. Foi este que produziu os 44,2%.

    O Inquérito ao Emprego, o LFS, passou a recolher a mesma informação a partir de 2022, com desenho diferente. Para o mesmo ano e o mesmo conceito, o AES deu 46,6% de participação na União Europeia e o LFS deu 25,1%. Vinte e um pontos percentuais de distância entre dois inquéritos oficiais sobre a mesma matéria.

    A distinção que importa
    O conceito é o mesmo. A base de medição não é. Os dois valores são oficiais e não são diretamente comparáveis.

    A diferença não é erro de nenhum dos dois. Resulta do desenho de cada um: o que conta como atividade de formação, como a pergunta é formulada, quanto tempo separa o acontecimento da recolha, e se se inclui ou não a formação em posto de trabalho com acompanhamento. Um inquérito dedicado, com questionário longo e memória assistida, encontra atividades que um inquérito generalista não capta.

    O Eurostat considera o AES com a formação em posto de trabalho incluída a melhor medida da participação em aprendizagem de adultos. As metas europeias, porém, foram fixadas a partir da base que exclui essa componente. As duas coisas coexistem na mesma casa estatística e servem propósitos distintos.

    Guardar esta distinção é o que permite ler tudo o resto sem tropeçar. E é também o que separa uma leitura de setor de uma citação de circunstância.

    A meta de 2030 não se mede com este número

    O Plano de Ação sobre o Pilar Europeu dos Direitos Sociais, adotado em 2021, fixa três metas para 2030. Uma delas é que pelo menos 60% de todos os adultos participem anualmente em ações de formação. É meta europeia e é também meta nacional portuguesa.

    A tentação é imediata: 44,2% contra 60%, faltam quinze pontos e falta menos de uma década. A subtração está certa e a comparação está errada, porque os dois valores não assentam na mesma base de medição.

    Monitorização 2024
    35,5%
    Portugal
    Meta 2030
    60%
    Portugal e União Europeia

    Na base em que a meta é efetivamente monitorizada, Portugal registou 35,5% em 2024, valor 7,4 pontos acima da média da União Europeia, de acordo com o programa PESSOAS 2030. A distância real para a meta ronda os vinte e cinco pontos percentuais, e não os quinze.

    Há aqui duas notícias e convém não perder nenhuma. A primeira é que a distância é maior do que a leitura comum sugere. A segunda é que, nesta base, Portugal está acima da média europeia, o que a leitura comum também não diz. Os dois factos são verdadeiros ao mesmo tempo e nenhum deles anula o outro.

    Dizê-lo não é pessimismo nem autoelogio. É a diferença entre um plano construído sobre a distância verdadeira e um plano construído sobre uma distância confortável. Quem desenha oferta formativa a partir da segunda vai encontrar a primeira mais tarde, e em pior altura.

    O que o inquérito mede, e o que não mede

    O universo é a população residente entre os 25 e os 64 anos. O período de referência são os doze meses anteriores à recolha. A cadência é quinquenal: os dados são de 2022, foram publicados em 2024, e a edição seguinte é esperada para 2027 ou 2028. Até lá, é este o retrato disponível, e qualquer decisão tomada em 2026 assenta em fotografia com quatro anos.

    Há três coisas que o indicador não faz, e todas importam a quem o usa para decidir.
    Não mede duração. Uma pessoa que assistiu a uma sessão de duas horas conta exatamente como quem concluiu um percurso de quatrocentas. O indicador é binário: participou ou não participou.
    Não mede conclusão. Participar e terminar são registos distintos, e o inquérito regista o primeiro. Um sistema com participação alta e conclusão baixa produz exatamente o mesmo valor que um sistema com participação alta e conclusão alta.
    Não mede efeito. Nada no indicador diz se quem participou passou a fazer alguma coisa de outra maneira. Sobre isso, o número é silencioso, e quem o cita como prova de impacto está a pedir-lhe o que ele não tem.

    Isto não desvaloriza o indicador. Delimita-o. Um termómetro é um bom instrumento e não diz o que se tem.

    O que a próxima edição pode mudar

    A cadência quinquenal tem uma consequência de planeamento que raramente é considerada. A edição seguinte do inquérito, esperada para 2027 ou 2028, será a primeira a captar por inteiro o período de execução do atual ciclo de fundos europeus dedicado à qualificação de adultos, e a primeira a medir um mercado de trabalho já reorganizado em torno de ferramentas de inteligência artificial.

    Isso significa duas coisas para quem decide agora. A primeira é que o retrato disponível é anterior a boa parte do investimento em curso, e que julgar o efeito desse investimento com estes números é julgá-lo antes de tempo. A segunda é que qualquer estratégia desenhada em 2026 vai ser avaliada, mais tarde, com dados que ainda não existem e cuja metodologia pode ter mudado entretanto.

    A conclusão prática é simples: fixar agora o que se vai medir internamente, em vez de esperar pelo indicador nacional. Uma organização que saiba quem participou, com que escolaridade e com que resultado, não fica dependente de uma fotografia que chega de cinco em cinco anos e com dois anos de atraso na publicação.

    O recorte que muda a conversa

    O valor nacional agregado esconde uma assimetria que o próprio inquérito expõe, e que é bastante mais informativa do que o valor médio.

    Entre as pessoas com ensino superior, a taxa de participação foi de 68,3%. Entre as que tinham, no máximo, o 3.º ciclo do ensino básico, foi de 27,3%. Mais do dobro.
    Gráfico de barras comparando a taxa de participação em formação em Portugal por nível de escolaridade: 68,3% no ensino superior e 27,3% até ao 3.º ciclo do ensino básico
    Participação em formação por nível de escolaridade. Fonte: INE, IEFA 2022.

    O padrão repete-se nos vinte e sete países da União Europeia, e também na Noruega e na Suíça. Não é anomalia portuguesa: é regularidade estrutural europeia. Em nenhum país a formação contínua chega proporcionalmente mais a quem tem menos escolaridade.

    A consequência é desconfortável e simples de enunciar. A formação contínua, tal como está organizada, chega sobretudo a quem já acumulou capital escolar. Um instrumento pensado como universal produz efeito desigual, e a desigualdade que produz é a mesma que existia à partida, com um ano suplementar de vantagem para quem já vinha à frente.

    Convém uma cautela de leitura, e vale a pena que fique escrita. A relação entre escolaridade e procura de formação está documentada de forma consistente e repetida, mas é correlação e não causalidade demonstrada. O inquérito mostra que os dois factos andam juntos. Não prova qual deles produz o outro, nem exclui que ambos dependam de uma terceira condição, como a natureza da função exercida.

    Por que quem tem mais formação procura mais formação

    Há quatro condições que a prática do setor identifica com regularidade, e nenhuma delas é motivação.

    Familiaridade com o formato. Quem passou mais anos em contexto de aprendizagem reconhece o código de uma sala, de um programa, de uma avaliação. Sabe o que é um sumário, o que se espera numa apresentação final, como se pede ajuda sem parecer incapaz. Quem saiu cedo do sistema reencontra um ambiente que já lhe correu mal uma vez, e a memória disso é um custo real na decisão de se inscrever.
    Informação. A oferta formativa circula em redes profissionais, em intranets, em conversas de equipa e em caixas de correio institucionais. Quem está fora dessas redes não recusa a formação: não chega a saber que ela existe. A recusa e o desconhecimento produzem o mesmo registo estatístico e são problemas completamente diferentes.
    O empregador. Quem exerce funções qualificadas trabalha, com maior probabilidade, em organizações que têm plano de formação, orçamento próprio e horas atribuídas. A participação que o inquérito regista como individual é, em boa parte, uma decisão organizacional que a pessoa apenas aceita. Os 50,6% de participação entre a população empregada dizem isto mesmo.
    O custo de oportunidade. Horário rígido, turnos, deslocação e trabalho pago à hora tornam qualquer percurso mais caro para quem menos ganha, mesmo quando a formação é gratuita. A gratuitidade resolve o preço e não resolve o custo.

    Nenhuma destas quatro condições é falta de vontade. São todas condições de acesso. E é exatamente essa a distinção que interessa a quem desenha programas, porque as condições alteram-se com desenho e a vontade não se altera com nada que uma entidade formadora possa fazer.

    Dois recortes que quase nunca aparecem

    O inquérito documenta ainda duas assimetrias que raramente chegam à conversa pública portuguesa.

    Em Portugal, e ao contrário do que sucede na maioria dos países europeus, a participação dos homens foi superior à das mulheres: 45,5% contra 43,0%. Portugal está entre os seis países da União Europeia onde isso acontece, ao lado de Itália, Chipre, Chéquia, Eslováquia e Hungria. Nos restantes vinte e um, a relação inverte-se.

    E a situação perante o emprego separa ainda mais. Entre a população empregada, participaram 50,6%, valor bastante acima da média nacional de 44,2%. O contraste com quem está fora do emprego desmente uma ideia instalada: a de que a formação funciona sobretudo como instrumento de regresso ao mercado. Nos números, funciona sobretudo para quem já lá está, e reforça a posição de quem já a tem.

    O que teria de mudar no desenho

    Se o problema é de condições e não de vontade, então é resolúvel com desenho. Quatro consequências práticas, por ordem de dificuldade crescente.

    Captação não é comunicação. Anunciar melhor uma oferta desenhada para quem já se inscreve não altera quem se inscreve. Chegar a quem não está nas redes onde a oferta circula exige outros canais e, quase sempre, exige intermediários que já tenham essa relação estabelecida: autarquias, juntas de freguesia, empregadores de setores com baixa qualificação média, estruturas associativas locais. É trabalho de terreno e não de campanha.
    O formato tem de admitir entrada tardia. Percursos modulares, curtos, com certificação parcial e possibilidade de retomar depois de uma interrupção não são uma versão diluída do percurso longo. São o formato que torna possível começar a quem não consegue garantir doze meses de disponibilidade contínua. Quem desenha para o percurso ideal desenha para quem já tem condições ideais.
    O horário e o lugar decidem mais do que o conteúdo. Um programa excelente às dezanove horas no centro da cidade está fechado a quem faz turnos ou vive a quarenta minutos de transporte público. A qualidade pedagógica só começa a contar depois de a pessoa conseguir chegar, e a maior parte da desistência acontece antes da primeira sessão.
    A pergunta de desenho que vale mais do que qualquer inquérito de satisfação. Para quem é que este programa é fácil de começar? Se a resposta for «para quem já fez formação antes», o programa vai confirmar os 68,3% e não vai mexer nos 27,3%, por muito bom que seja o conteúdo e por muito alta que seja a avaliação final.

    O que isto significa, conforme quem lê

    Para quem desenha programas. Quem mais precisa é quem menos se inscreve, e isso é um problema de desenho e de captação, não de motivação de quem aprende. Um programa dirigido a escolaridade baixa não é o mesmo programa com outro preço: é outro produto, com outro formato, outro canal e outro ponto de entrada.
    Para quem contrata e decide planos internos. O plano de formação de uma organização tende a replicar a estrutura de qualificações que ela já tem. Vale a pena verificar quem participou no último ciclo, por nível de função, antes de concluir que a oferta interna é aberta a todos.
    Para quem define política. O instrumento universal produz efeito desigual, e o indicador de participação não distingue quem foi a uma sessão de quem concluiu um percurso. Uma meta expressa em participação pode ser cumprida sem que a estrutura de qualificações do país se altere.
    Leitura da casa

    A leitura da casa

    Portugal tem um indicador de participação abaixo da média europeia, mas o problema principal não está no valor agregado. Está na distribuição.

    Uma política que suba os 44,2% recrutando mais gente entre quem já participa cumpre a meta e não corrige nada. Uma política que mexa nos 27,3% é mais lenta, mais cara e mais difícil de mostrar num relatório anual, e é a única que altera a estrutura. As duas produzem a mesma linha no gráfico e não produzem o mesmo país.

    Há ainda uma consequência que atravessa toda a leitura e que vale a pena deixar dita. Um indicador com quatro anos, publicado de cinco em cinco, não serve para gerir. Serve para enquadrar. Quem gere precisa de medição própria, mais frequente e mais estreita, e quem usa o indicador nacional como substituto disso está a confundir o mapa com o instrumento de bordo.

    Esta é a coordenada de partida do Roteiro. As edições seguintes vão a outros indicadores do mesmo sistema, e todos serão apresentados como este: com a fonte, com a base de medição, e com o que o número não permite concluir.

    Fontes

    Instituto Nacional de Estatística, Inquérito à Educação e Formação de Adultos 2022, destaque de 22 de março de 2024. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Eurostat, Adult learning statistics, séries trng_aes_100 (Adult Education Survey) e trng_lfs_17 (Labour Force Survey), edição de 2026. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Comissão Europeia, Plano de Ação sobre o Pilar Europeu dos Direitos Sociais, 2021. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    PESSOAS 2030, Portugal caminha para as metas sociais europeias de 2030 com o contributo do PESSOAS 2030, 29 de maio de 2025. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Nota de origem

    Este artigo reúne e desenvolve três publicações da Advance Station no LinkedIn, entre 29 de abril e 14 de maio de 2026. O texto foi reescrito para leitura contínua, as fontes estão citadas por inteiro e dois valores foram corrigidos face às publicações originais.

    • 29 de abril de 2026 · Observatório AS, edição inaugural, sobre a participação dos adultos portugueses em formação.
    • 12 de maio de 2026 · Lente de Descoberta, sobre a formação contínua e a desigualdade de partida.
    • 14 de maio de 2026 · Observatório AS, sobre as fraturas da formação contínua.