ROTEIRO

Competências internas de IA: o constrangimento das PME

A distância de Portugal para a Europa na adoção de inteligência artificial não é do país. É da dimensão das empresas. E isso muda por completo o que se deve fazer a seguir.

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11min de leitura

Em 2025, 11,54% das empresas portuguesas com dez ou mais pessoas ao serviço utilizavam pelo menos uma tecnologia de inteligência artificial. A média da União Europeia foi de 19,95%. A distância é de 8,41 pontos percentuais e é habitualmente lida como um atraso nacional.

É uma leitura incompleta, e a parte que falta é a que interessa a quem decide.

O quadro, antes da leitura

Indicador Portugal União Europeia Ano
Empresas com 10 ou mais pessoas que usam IA 11,54% 19,95% 2025
Variação face ao ano anterior +2,91 p.p. n.d. 2025
Variação em 2024 +0,8 p.p. +5,5 p.p. 2024
Adoção nas grandes empresas 49% 55,03% 2025
Adoção nas pequenas empresas n.d. 17% 2025
Adoção nas médias empresas n.d. 30,36% 2025
Empresas que apontam a falta de competências em IA como principal entrave 28% n.d. 2.º trim. 2025
Meta da Década Digital para 2030 75% 75% 2030

A linha das grandes empresas é a que desarma a leitura habitual.

11,54%
Empresas portuguesas com 10 ou mais pessoas que usam IA
19,95%
Média da União Europeia
8,41 p.p.
Distância entre Portugal e a média europeia

Não é um problema do país, é um problema de dimensão

As grandes empresas portuguesas adotaram inteligência artificial em 49% dos casos. A média europeia para grandes empresas é de 55,03%. Seis pontos de diferença.

As pequenas e médias empresas portuguesas estão nos 11,5%, contra uma média europeia próxima dos 20%, com 17% nas pequenas e 30,36% nas médias.

Grandes empresas Portugal: 49%
União Europeia: 55,03%
PME Portugal: 11,5%
União Europeia: cerca de 20%

Se a explicação fosse cultural, regulamentar ou de mentalidade nacional, teria de aparecer nos dois grupos. Aparece num só. As grandes empresas portuguesas comportam-se aproximadamente como as suas congéneres europeias. São as pequenas e médias que abrem o fosso, e é aí que quase toda a distância nacional se produz.

O que muda
Isto não é uma nuance estatística. É a diferença entre um problema de país, que se trata com campanhas e discurso, e um problema de estrutura empresarial, que se trata com desenho.

O mapa europeu, e o que distingue quem lidera

A dispersão entre Estados-Membros é enorme e vale a pena olhar para os extremos.

No topo estão a Dinamarca, com 42,03% das empresas a usar inteligência artificial, a Finlândia, com 37,82%, e a Suécia, com 35,04%. No fundo estão a Roménia, com 5,21%, a Polónia, com 8,36%, e a Bulgária, com 8,55%. Portugal, com 11,54%, ocupa a vigésima posição entre vinte e sete.

Entre o primeiro e o último há uma diferença de oito vezes, o que é muito para um bloco com mercado único, regulação comum e acesso equivalente às mesmas ferramentas. As ferramentas são as mesmas em Lisboa e em Copenhaga, e o preço também. A diferença está noutro sítio.

Há uma coincidência que merece ser registada com cuidado. Os três países que lideram a adoção empresarial de IA estão também entre os que registam maior participação de adultos em educação e formação na União Europeia. A Suécia, em particular, aparece no topo das duas tabelas.

Isto é correlação e não causalidade demonstrada, e não temos base para afirmar que uma produz a outra. É perfeitamente possível que ambas resultem de uma terceira condição, como a estrutura de qualificações da população ativa ou a dimensão média das empresas.

Hipótese de trabalho
A capacidade de adotar tecnologia nova é função da capacidade instalada de aprender, e essa capacidade constrói-se antes de a tecnologia aparecer, não depois.

Se a hipótese estiver certa, a política de adoção tecnológica e a política de qualificação de adultos não são duas políticas. São a mesma, com dois orçamentos.

Por que a resposta das PME não passa pela contratação

A saída óbvia seria contratar quem já sabe. Para a maioria das pequenas e médias empresas portuguesas, essa saída não está disponível, e há três razões documentadas.

A escassez de talento é das mais altas do mundo. Em 2025, 84% dos empregadores em Portugal reportaram dificuldade em encontrar as competências de que precisam, valor que coloca o país na terceira posição mundial, à frente da média global de 74% e atrás apenas da Alemanha e de Israel.
A procura concentra-se onde há capacidade de pagar. Uma organização de vinte pessoas compete pelo mesmo perfil que uma multinacional, no mesmo mercado, e perde por razões que não tem como corriger no prazo em que precisa da competência.
E a competência de que a PME precisa não é a que o mercado vende. Os anúncios procuram quem constrói modelos. Uma empresa de serviços com trinta pessoas não precisa de construir nada: precisa de gente que decida bem sobre o que a ferramenta produz, o que é outra coisa e não se contrata, instala-se.

Resta, portanto, o desenvolvimento interno. E as empresas já disseram onde está o travão.

O que as próprias empresas identificam como entrave

Segundo o Employment Outlook Survey do ManpowerGroup, relativo ao segundo trimestre de 2025, 28% das empresas portuguesas identificam a falta de competências em inteligência artificial como o principal entrave à implementação desta tecnologia.

28% dizem competências
Não diz custo. Não diz regulação. Não diz falta de casos de uso, nem imaturidade da tecnologia, nem infraestrutura. Diz competências.

É uma resposta rara na sua clareza. Quando um em cada quatro empregadores identifica o mesmo travão, e esse travão é aquele que a formação existe para resolver, a conversa deixa de ser sobre se vale a pena formar e passa a ser sobre o quê, para quem e quando.

Uma nota sobre a base de medição

É preciso um cuidado antes de continuar, porque circulam dois números diferentes para a mesma coisa.

O Eurostat, com dados reportados pelo Instituto Nacional de Estatística, indica 11,54% de empresas portuguesas com dez ou mais pessoas ao serviço a utilizar IA em 2025. O Relatório sobre o Estado da Década Digital, da Comissão Europeia, refere 15% de empresas portuguesas com IA.

Não é contradição
São recortes diferentes de universo e de momento de recolha, produzidos por duas linhas de trabalho da mesma casa estatística europeia.

Quem citar um e comparar com o outro produz uma variação que não existe.

Este artigo trabalha com a série do Eurostat, porque é a que permite comparação entre Estados-Membros e entre classes de dimensão, que é exatamente o corte de que este assunto precisa. Quem preferir a outra fonte deve manter-se nela do princípio ao fim.

É a terceira vez que este cuidado aparece nesta série, e não é hábito de estilo. É a consequência prática de trabalhar com estatística oficial: quase todos os indicadores relevantes existem em mais de uma versão.

A aritmética de 2030

O Programa da Década Digital fixa, para 2030, a meta de pelo menos 75% das empresas da União Europeia a utilizarem computação em nuvem, análise de grandes volumes de dados ou inteligência artificial.

Portugal está nos 11,54%. Ainda que se conte pelo indicador mais favorável, está nos 15%.

Falta menos de meia década, e a progressão recente não sustenta a trajetória: em 2024 Portugal cresceu 0,8 pontos percentuais, um dos menores aumentos da União, e em 2025 acelerou para 2,91 pontos. É melhoria real e é insuficiente por uma ordem de grandeza.

Portugal, 2025 11,54%
Meta, 2030 75%

Não escrevemos isto para produzir alarme, que não serve para nada. Escrevemos porque a distância entre a meta e a trajetória define o tipo de intervenção que faz sentido. Uma distância de dez pontos resolve-se com incentivos e comunicação. Uma distância de sessenta resolve-se, se resolver, com capacitação em escala, e capacitação em escala é uma decisão de política formativa antes de ser uma decisão tecnológica.

O Governo apresentou em janeiro de 2026 uma Agenda Nacional para a inteligência artificial, com investimento superior a 400 milhões de euros. O montante é significativo. O que ele compra em competência instalada, e em quem, é a pergunta que ainda não tem resposta pública.

Para que estão as empresas portuguesas a usar IA

Os dados sobre utilização acrescentam a informação mais útil de todas para quem desenha formação.

59,4%
Análise de linguagem escrita
50,9%
Geração de conteúdos multimédia
45,6%
Produção de texto, voz ou código

Entre as empresas portuguesas que usam inteligência artificial, as aplicações mais frequentes são a análise de linguagem escrita, com 59,4%, mais 11,3 pontos do que no ano anterior, a geração de conteúdos multimédia, com 50,9%, e a produção de texto, voz ou código, com 45,6%.

Não é automação industrial. Não é visão computacional. Não é otimização logística. São três usos que têm uma coisa em comum: todos produzem um resultado cuja qualidade depende do julgamento de quem o avalia.

Um modelo que gera um texto não sabe se o texto está certo para aquele destinatário. Um modelo que resume um contrato não sabe o que naquele contrato é decisivo. A ferramenta produz, a pessoa decide, e a decisão é onde o valor se cria ou se perde.

Na peça anterior desta série, vimos que a investigação sobre transferência distingue competências fechadas, em que existe uma forma correta de fazer, de competências abertas, em que a aplicação depende do julgamento. Os três usos dominantes de IA nas empresas portuguesas são, todos eles, competências abertas.

Consequência
Formar em IA nas PME portuguesas não é sobretudo formação técnica. É formação em critério.

O que muda no desenho de um percurso interno

Quatro consequências, e nenhuma delas é tecnológica.

A quem se dirige. O destinatário não é o perfil técnico, é a gestão intermédia. É quem revê o que sai, quem decide o que se envia e quem responde pelo erro. Formar apenas quem já domina a ferramenta produz uma ilha de competência que não se propaga.
O que se treina. Não é a operação da ferramenta, que se aprende sozinha em horas. É o critério de aceitação: o que torna aceitável um texto gerado, um resumo, uma proposta de resposta a cliente. Esse critério existe na cabeça de quem já faz bem o trabalho e nunca está escrito, e explicitá-lo é metade do programa.
Com que material. Casos do próprio trabalho, não exercícios genéricos. Uma sessão em que se rejeita e corrige um resultado real da semana passada ensina mais do que três sobre a arquitetura de modelos de linguagem.
Com que ritmo. Ciclos curtos e repetidos, com regresso ao trabalho entre sessões. A investigação sobre transferência é clara quanto ao ponto: a aplicação decai com o tempo e o determinante da manutenção é o ambiente de trabalho. Um curso intensivo de dois dias sobre IA produz entusiasmo em maio e nada em outubro.

Dois mercados, outra vez

Na peça anterior desta série, a demografia empresarial mostrou que o mercado formativo português são pelo menos dois: as organizações jovens em consolidação incerta e as que crescem de forma sustentada. Os dados de adoção de IA confirmam o mesmo corte por outro caminho.

Empresa em consolidação incerta Adota inteligência artificial por necessidade imediata e sem estrutura: alguém experimenta uma ferramenta, funciona, espalha-se por imitação, e ninguém definiu critério nenhum. O risco não é a não adoção, é a adoção sem critério, que produz erros que ninguém deteta porque não há revisão instalada.
Empresa em crescimento sustentado Tem processo, tem revisão, tem quem responda, e por isso demora mais a adotar. Quando adota, adota melhor, e é o segmento onde os 49% das grandes empresas se aproximam da média europeia.

Para quem desenha oferta, isto significa que o mesmo programa serve mal os dois. No primeiro caso, o que falta é critério de aceitação e alguém que reveja. No segundo, o que falta é velocidade e permissão para experimentar sem passar por três aprovações.

Vender formação em IA como categoria única, sem este corte, é o erro que o mercado está a cometer agora, e é o mesmo erro que se cometeu com a formação em competências digitais há uma década.

O que os dados não permitem concluir

Três limites.

A adoção declarada não mede qualidade nem retorno. Os indicadores de adoção do Eurostat medem utilização declarada de pelo menos uma tecnologia de IA. Não medem intensidade, não medem qualidade da utilização e não medem retorno. Uma empresa que usa uma ferramenta de geração de texto ocasionalmente conta tanto como uma que reorganizou um processo inteiro.
O indicador do ManpowerGroup mede perceção. Mede perceção de quem responde por recursos humanos, sobre o entrave que considera principal. Não mede o défice efetivo de competências, e a resposta pode refletir tanto uma carência real como a ausência de um diagnóstico que a permita nomear de outra maneira.
A cadeia é argumento da casa. A relação que este artigo estabelece entre a dimensão da empresa, a indisponibilidade de contratação e a necessidade de desenvolvimento interno é leitura desta casa. Os dados sustentam cada elo separadamente. A cadeia é argumento, e fica declarada como argumento.

O que isto significa, conforme quem lê

Para quem desenha programas. O produto que o mercado precisa não é um curso de IA. É um percurso curto e repetido, para gestão intermédia, construído sobre casos do próprio trabalho, que explicite critérios de aceitação. Quem vender formação técnica a uma PME de serviços está a vender-lhe a parte que ela consegue resolver sozinha.
Para quem contrata formação numa PME. Não espere pela ferramenta para tratar da competência. As duas coisas instalam-se a ritmos diferentes: a ferramenta em semanas, o critério em meses. Um plano formativo que arranque depois da decisão tecnológica chega sempre tarde, e a diferença paga-se em resultados medíocres atribuídos à tecnologia.
Para quem define política. O fosso é de dimensão empresarial e não de país, o que significa que instrumentos horizontais produzem efeito desigual. O apoio à qualificação interna em pequenas e médias empresas tem, nesta matéria, retorno superior ao apoio à adoção tecnológica, porque a tecnologia sem competência instalada produz utilização declarada e não produz efeito.
Leitura da casa

A leitura da casa

Portugal tem grandes empresas que adotam IA quase como as europeias e pequenas empresas que não adotam. O país não está atrasado por inteiro: está atrasado onde estão quase todas as empresas e quase todo o emprego.

A resposta não é comprar competência, porque não está à venda em quantidade nem a preço que a PME portuguesa possa pagar. É instalá-la, e instalá-la em quem decide, não em quem opera.

E há uma inversão de calendário que vale a pena fixar, porque é a coisa mais simples deste artigo e a que menos se cumpre. A adoção da ferramenta não espera pelo plano de formação. O plano é que tem de chegar primeiro.

Fontes

Eurostat, Use of artificial intelligence in enterprises, série isoc_eb_ai, dados de 2023 a 2025, com desagregação por país e por classe de dimensão de empresa. Consultado a 5 de agosto de 2026.

Instituto Nacional de Estatística, inquérito à utilização de tecnologias de informação e comunicação nas empresas, dados de 2025 reportados ao Eurostat. Consultado a 5 de agosto de 2026.

ManpowerGroup, Employment Outlook Survey, segundo trimestre de 2025, resultados para Portugal. Consultado a 5 de agosto de 2026.

ManpowerGroup, Global Talent Shortage Survey 2025, resultados para Portugal. Consultado a 5 de agosto de 2026.

Comissão Europeia, Programa da Década Digital para 2030, com a meta de 75% de empresas a utilizarem computação em nuvem, análise de dados ou inteligência artificial, e Relatório sobre o Estado da Década Digital. Consultado a 5 de agosto de 2026.

Nota de origem

Este artigo reúne e desenvolve três publicações da Advance Station no LinkedIn, entre 19 de maio e 4 de agosto de 2026. O texto foi reescrito para leitura contínua e a base estatística foi alargada a fontes oficiais europeias que as publicações originais não citavam.

  • 19 de maio de 2026 · Lente de Descoberta, sobre o risco competitivo não ser a velocidade da tecnologia.
  • 21 de maio de 2026 · Observatório AS, sobre a recolocação invertida nas pequenas e médias empresas.
  • 4 de agosto de 2026 · Lente de Descoberta, sobre a adoção não esperar pelo plano de formação.