Dia: 21 de Agosto, 2026

  • Diário do Capitão N.º 02 · Reconhecer e adotar

    Diário do Capitão N.º 02 · Reconhecer e adotar

    Esta edição foi anunciada a 5 de junho, como edição de junho, e sai hoje. Prometia observar julho e agosto. Como esses meses já passaram, vou fazer as duas coisas: dizer o que íamos observar e dizer o que encontrámos.

    O assunto anunciado era o tempo que separa reconhecer de adotar.

    Sessenta e um por cento da população portuguesa considera a formação digital imprescindível. Quarenta e três por cento utiliza tecnologias de inteligência artificial com regularidade. A distância entre os dois números não é uma taxa de conversão, e a leitura completa desses indicadores, com as ressalvas metodológicas que exigem, está no artigo que publicamos na próxima semana. Aqui trato do que faço com eles.

    Três frentes, como estava prometido.

    Primeira frente: o movimento de oferta que importou

    Se tivesse de escolher uma só transformação da oferta formativa portuguesa entre 2024 e 2025, escolheria esta: o dinheiro público mudou o que está disponível, e mudou-o depressa.

    935 M€
    Aprendizagem ao longo da vida no PESSOAS 2030
    794 M€
    Financiamento do Fundo Social Europeu Mais
    200 M€
    Centros Qualifica no Norte, Centro e Alentejo

    O Programa PESSOAS 2030 alocou cerca de 935 milhões de euros à aprendizagem ao longo da vida no período de programação em curso, dos quais 794 milhões vêm do Fundo Social Europeu Mais. Só para os Centros Qualifica nas regiões Norte, Centro e Alentejo estão alocados 200 milhões, com 170 milhões de financiamento europeu. Em paralelo, o Plano de Recuperação e Resiliência financiou a entrada em força das microcredenciais no ensino superior, através de programas como o Impulso 2025.

    Isto reconfigurou a oferta em dois anos. Apareceram percursos curtos certificáveis onde antes havia pós-graduações longas. Instituições que nunca tinham trabalhado com adultos em contexto de trabalho passaram a fazê-lo. E entidades formadoras privadas passaram a competir com oferta pública gratuita em segmentos onde antes não competiam.

    Foi um movimento de oferta, e foi grande.

    O que não foi, e é aqui que quero ser claro, é um movimento de procura. A participação de adultos em formação, medida no indicador que a meta europeia usa, estava nos 35,5% em 2024 contra uma meta de 60% para 2030. Mais oferta, financiada e gratuita, não moveu esse número na proporção do investimento.

    O que o movimento não resolveu
    Se o constrangimento fosse de disponibilidade de oferta, esta vaga de financiamento tê-lo-ia resolvido. Como não resolveu, o constrangimento é outro, e continua por tratar.

    Não escrevo isto contra o investimento, que era necessário e continua a ser. Escrevo porque a conclusão que se tira daqui condiciona o que se faz a seguir.

    Há uma parte deste movimento que me diz respeito diretamente e que seria desonesto não escrever. Uma entidade formadora privada que trabalha há trinta e três anos passou, em dois anos, a competir com oferta gratuita e certificada em segmentos onde antes não havia concorrência pública. Isso é bom para quem se forma e é desconfortável para quem forma, e as duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo.

    A resposta que me parece certa não é queixar-me da concorrência, é perguntar onde é que o gratuito não chega. E não chega em três sítios: no acompanhamento depois da formação, que nenhum financiamento por participante paga; no desenho à medida de um contexto concreto, que exige diagnóstico prévio; e na continuidade para lá do ciclo de fundos, que termina quando o programa termina. É aí que uma casa privada tem alguma coisa a acrescentar, e é aí que devemos estar.

    Segunda frente: três falhas recorrentes

    Vejo as mesmas três falhas em programas que não produzem efeito, e vejo-as em programas nossos e alheios.

    Primeira falha
    Medir no pior momento possível. A avaliação faz-se no fim da última sessão, com o conteúdo fresco, o grupo constituído e o formador na sala. É o instante em que a medição é mais generosa e menos informativa. A investigação sobre transferência mostra que a aplicação decai substancialmente ao longo do primeiro ano, e a avaliação que fazemos é feita antes de a decadência começar. Medimos o entusiasmo e chamamos-lhe resultado.
    Segunda falha
    Desenhar para quem já se inscreveria. Em Portugal, a taxa de participação em formação entre quem tem ensino superior é de 68,3%, contra 27,3% entre quem tem, no máximo, o terceiro ciclo do básico. Um programa desenhado com o formato, a linguagem e o horário que resultam bem para o primeiro grupo produz naturalmente inscrições do primeiro grupo. E depois atribui-se a ausência do segundo à falta de motivação, quando a explicação disponível é bastante mais simples: o programa não foi feito para quem não aparece.
    Terceira falha
    Terminar onde o problema começa. O preditor confirmado de que a aprendizagem se mantém é o ambiente de trabalho de apoio, e não a qualidade da sessão. É o resultado mais consistente de quarenta anos de investigação sobre transferência de formação. E é, quase sempre, a parte que a proposta não inclui, o contrato não prevê e ninguém audita. Entregamos a parte que sabemos fazer e chamamos ao resto problema do cliente.
    Um exemplo
    Um programa de competências digitais desenhado com uma sessão semanal de duas horas, às sete da tarde, com pré-trabalho em plataforma e apresentação final em grupo, é um bom programa. É também um programa que exclui quem faz turnos, quem tem transporte a uma hora de distância, quem não tem computador em casa e quem saiu do sistema de ensino há trinta anos e não vai apresentar nada a ninguém. Nenhuma destas exclusões foi decidida. Todas foram desenhadas.

    Nenhuma das três é falha de execução. São todas falhas de desenho, e por isso são todas corrigíveis sem gastar mais.

    Terceira frente: o horizonte que já passou

    Íamos observar julho e agosto. Observámos, e o que encontrámos não foi o que esperava.

    Passámos estes dois meses a preparar a passagem do nosso trabalho editorial para o nosso próprio domínio, o que obrigou a verificar, uma por uma, todas as afirmações que tínhamos publicado. Fomos às fontes primárias de cada número.

    Vários não sobreviveram.

    Um recorte por nível de escolaridade estava atribuído a uma fonte que não o continha, e os valores corretos eram consideravelmente diferentes.
    Uma distância para a meta de 2030 estava calculada entre dois indicadores com bases de medição distintas, o que a reduzia a menos de metade da distância real.
    Uma taxa de mortalidade empresarial não foi possível confirmar em nenhuma fonte.
    Um crescimento de 98% em microcredenciais, que apresentávamos como prova de uma transformação, aparecia na fonte ao lado de um crescimento de 89% nos cursos que supostamente estariam a ser substituídos.

    Nenhum destes casos foi má-fé. Todos foram a mesma coisa: um número recolhido de um documento intermédio, não confirmado na origem, e repetido depois com a confiança que a repetição dá.

    Corrigimos os quatro e a série passa a exigir, por norma, que cada número traga a fonte, o ano e a data de consulta, e que a conclusão que dele se tira seja verificada contra o conjunto de dados da fonte e não apenas contra o valor citado.

    Escrevo isto aqui porque me parece a única coisa honesta a fazer e porque a alternativa era não escrever. Uma casa que publica leituras do setor com pretensão de rigor tem de aplicar a si o critério que aplica aos outros, e a aplicação desse critério, quando é a sério, dói um bocado.

    O que passamos a observar

    O horizonte prometido já passou, e por isso fixo aqui outro, para o segundo semestre.

    A execução, e não o anúncio. O Governo apresentou em janeiro uma Agenda Nacional para a inteligência artificial com mais de 400 milhões de euros. Vamos acompanhar o que dela chega a formação de pessoas e a que pessoas chega, em vez de comentar o montante.
    O indicador que a meta usa, e não o mais favorável. A participação de adultos em formação vai continuar a ser reportada em pelo menos dois indicadores com valores muito diferentes. Vamos usar o que a meta usa, sempre, mesmo quando o outro nos favorece.
    A dimensão da empresa, e não o país. Os dados de adoção tecnológica mostram que quase todo o fosso português se produz nas pequenas e médias empresas, enquanto as grandes se comportam como as europeias. Vamos deixar de escrever sobre Portugal em bloco nesta matéria.
    E o que fica por medir. Taxas de participação e de conclusão existem e são públicas. Taxas de manutenção da aplicação, ao fim de seis meses e de um ano, não existem em nenhuma estatística nacional. É a lacuna mais consequente do setor e vamos insistir nela.

    O que fica dito

    O constrangimento da formação de adultos em Portugal não é de oferta. Há mais oferta do que houve em qualquer momento da última década, muita dela financiada e gratuita, e a participação não subiu na proporção.

    O constrangimento é de desenho e de contexto. De programas construídos para quem já participa, avaliados no momento em que a avaliação é mais favorável, e terminados no ponto onde a investigação diz que o trabalho começa.

    Há uma assimetria neste diagnóstico que convém não esconder. As três falhas são fáceis de nomear e difíceis de corrigir, e a dificuldade não é técnica. Mudar o momento da medição significa aceitar resultados piores. Mudar o destinatário do desenho significa desenhar para quem se inscreve menos, com turmas mais pequenas e custo por pessoa mais alto. E incluir o pós-formação significa vender um programa mais caro do que o do concorrente que não o inclui. As três correções custam dinheiro ou credibilidade no curto prazo, e é por isso que quase ninguém as faz.

    Nada disto se resolve com mais dinheiro. Resolve-se com decisões que custam pouco e que quase ninguém toma: mudar o momento da medição, mudar o destinatário do desenho, e incluir no programa o que acontece depois da última sessão.

    Vamos escrever sobre cada uma delas ao longo do próximo semestre, e vamos escrever com a base à vista, incluindo quando a base nos contraria.

    Até à próxima.

    João Dias Direção Criativa, Advance Station

    Fontes

    PESSOAS 2030, dados sobre o investimento na aprendizagem ao longo da vida e no apoio aos Centros Qualifica no período de programação 2021-2027, e monitorização das metas sociais europeias para Portugal. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Instituto Nacional de Estatística, Inquérito à Educação e Formação de Adultos 2022, com as taxas de participação por nível de escolaridade. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Blume, B. D., Ford, J. K., Baldwin, T. T. e Huang, J. L. (2010). «Transfer of Training: A Meta-Analytic Review». Journal of Management, 36(4), 1065-1105. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Saks, A. M. e Belcourt, M. (2006). «An investigation of training activities and transfer of training in organizations». Human Resource Management, 45(4), 629-648. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Universidade Aberta, dados institucionais sobre a evolução de estudantes em cursos conferentes e não conferentes de grau, e sobre o Projeto Impulso 2025. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Nota de origem

    Esta edição foi anunciada na página da Advance Station no LinkedIn a 5 de junho de 2026, com o tema e as três frentes de análise já fixados, e não chegou a ser publicada. Sai agora, com o tema anunciado, as três frentes cumpridas e a data real de publicação. Não se retrodata.