Duas perguntas que não são a mesma
Nos Censos de 2021, o recenseador fez a cada pessoa com dez ou mais anos uma pergunta simples: sabe ler e escrever? Responderam que não cerca de 3%, a taxa de analfabetismo mais baixa da história do país. Em 1970 era um quarto da população; em 1991, onze por cento. A escola chegou a toda a gente, e o número mostra-o.
Em 2022 e 2023, a OCDE fez a cerca de quatro mil adultos portugueses, entre os 16 e os 65 anos, outra coisa: pô-los à frente de textos e pediu-lhes que os usassem. Encontrar uma informação numa lista de medicamentos. Comparar duas ofertas de emprego. Perceber o que uma carta do banco pede. Quarenta e dois por cento ficaram no nível 1 da escala, ou abaixo dele. Na média dos países da OCDE são 26%.
Os 3% respondem à pergunta «sabe ler?». Os 42% respondem à pergunta «o que consegue fazer com o que lê?». A primeira pergunta tem resposta de sim ou não. A segunda tem cinco níveis, e é a que interessa a quem forma, contrata ou governa.
O que é, ao certo, literacia
A definição que a OCDE usa no Inquérito às Competências dos Adultos é esta: a capacidade de aceder a textos escritos, de os compreender, avaliar e refletir sobre eles, para participar na sociedade, atingir objetivos e desenvolver o próprio conhecimento e potencial. Cada verbo conta. Aceder é encontrar. Compreender é saber o que diz. Avaliar é decidir se é de fiar. Refletir é ligar o que se leu ao que já se sabia. A alfabetização é a condição do primeiro verbo; a literacia são os quatro.
A escala vai de 0 a 500 pontos e divide-se em níveis. No nível 1, a pessoa lê textos curtos e simples e encontra neles uma informação quando esta aparece com as mesmas palavras da pergunta. Abaixo do nível 1, nem sempre. No nível 2, já lida com textos mais longos, faz inferências simples e distingue o que interessa do que não interessa. A partir do nível 3, compara fontes, avalia argumentos e trabalha com informação que se contradiz. Para ler um contrato de trabalho ou uma instrução de segurança com autonomia é preciso, no mínimo, o nível 2.
| Nível | O que a pessoa consegue fazer com um texto | Portugal | OCDE |
|---|---|---|---|
| 1 ou abaixo | Lê textos curtos e simples; encontra uma informação quando surge com as palavras da pergunta. | 42% | 26% |
| 2 | Lida com textos mais longos; faz inferências simples; separa o que interessa do que não interessa. | 36% | 34% |
| 3 | Compara fontes; avalia argumentos; trabalha com informação densa ou contraditória. | 18% | 28% |
| 4 e 5 | Integra várias fontes longas; raciocina sobre o que está implícito; avalia a fiabilidade com critério. | 4% | 12% |
Três confusões vizinhas
Numa sala de formação, isto quer dizer o quê
Se a distribuição nacional for a da sala, numa turma de vinte adultos há oito que estão no nível 1. Todos sabem ler. Nenhum deles se apresenta como alguém que tem dificuldade em ler, porque não tem: tem dificuldade em usar o que lê, e isso não se vê à entrada. O manual de trinta páginas, o enunciado com três instruções encadeadas, a ficha de avaliação com uma pergunta de resposta longa, tudo isso foi escrito para os outros doze.
Nada disto baixa a exigência. Um adulto que trabalha, sustenta uma casa e volta a estudar à noite não precisa de um programa mais fácil. Precisa de um programa que não lhe cobre, à porta, uma competência que ninguém lhe deu.
Fontes
1. OCDE (2024), Do Adults Have the Skills They Need to Thrive in a Changing World? Survey of Adult Skills 2023, OECD Publishing, Paris, 10 de dezembro de 2024, para a definição de literacia e a descrição dos níveis. Consulta: 8 de setembro de 2026.
2. OCDE (2024), Survey of Adult Skills 2023: Portugal, nota-país, 10 de dezembro de 2024, para a distribuição por nível e as médias por escolaridade. Consulta: 8 de setembro de 2026.
3. INE (2022), Censos 2021: Resultados Definitivos, Lisboa, 23 de novembro de 2022, para a taxa de analfabetismo. Consulta: 8 de setembro de 2026.