Há um momento que distingue a formação que importa da formação que apenas acontece. É o momento em que o curso acaba.
Quando o último módulo termina e o certificado é assinado, boa parte das entidades formadoras considera o trabalho feito. A leitura desta casa é diferente, e começa exatamente aí: a formação que importa não termina quando o curso acaba, começa quando quem se formou regressa ao trabalho e toma uma decisão de outra maneira.
Isto lê-se facilmente como declaração de intenções, do género que qualquer entidade formadora assina sem esforço. Não é. É uma afirmação sobre um fenómeno que tem quarenta anos de investigação, um nome próprio e resultados suficientemente consistentes para orientar decisões concretas de desenho. Chama-se transferência da formação, e vale a pena olhar para o que se sabe sobre ela antes de continuar.
O número mais citado do setor não tem estudo por trás
Quem trabalha em formação já ouviu, provavelmente mais do que uma vez, que apenas 10% do que se aprende em sala se traduz em mudança de comportamento no trabalho. É um número com uma carreira notável: aparece em apresentações, em propostas comerciais, em artigos de opinião e em programas de conferência.
Seguindo as referências até à raiz, chega-se sempre ao mesmo sítio: um artigo de David Georgenson publicado em 1982 na Training and Development Journal. E aí encontra-se o seguinte. O autor não estava a apresentar resultados de estudo nenhum. Estava a formular, em discurso direto e entre aspas, o que ouvia dizer aos responsáveis de formação, e a acrescentar uma estimativa pessoal. O artigo não cita investigação, porque não havia investigação a citar. O autor era, à data, responsável de desenvolvimento de produto numa empresa de sistemas de aprendizagem.
O rastreio desta origem foi feito e publicado por vários autores, entre os quais Fitzpatrick e Thalheimer. Quatro décadas depois, o número continua em circulação, e continua a ser aquilo que sempre foi: uma estimativa de circunstância, transformada em facto por repetição.
O que a investigação diz mesmo
A medição séria da transferência existe e dá outro retrato.
O estudo de referência é de Alan Saks e Monica Belcourt, publicado em 2006 na Human Resource Management. Recolheu dados junto de profissionais de formação de 150 organizações, e reporta três valores em vez de um: 62% de aplicação no trabalho imediatamente após a formação, 44% ao fim de seis meses, 34% ao fim de um ano.
Mais de seis em cada dez pessoas aplicam o que aprenderam, o que desmente por completo a ideia de que a formação não chega ao trabalho. Mas quase metade dessa aplicação desaparece em doze meses, sem que nada tenha acontecido a não ser a passagem do tempo e o regresso à rotina. O problema não é de aquisição. É de manutenção.
Isto muda o sítio onde é preciso intervir. Se a falha estivesse na aquisição, a resposta seria melhorar a sala: melhores formadores, melhores materiais, melhor avaliação final. Como a falha está na manutenção, a resposta está no que acontece depois, e o depois quase nunca faz parte do programa.
Convém dizer o que este estudo não é. Os valores resultam de estimativa de profissionais de formação sobre as suas próprias organizações, e não de observação direta de comportamento. É autorrelato de quem tem interesse profissional no resultado, com todas as cautelas que isso exige. E é um estudo canadiano de 2006. Serve para mostrar a forma da curva, não para fixar o valor exato em Portugal em 2026.
Onde está o determinante, e não é onde se procura
A pergunta seguinte é o que faz a diferença entre quem mantém a aplicação e quem a perde.
A resposta mais sólida vem de uma meta-análise de Brian Blume, Kevin Ford, Timothy Baldwin e Jason Huang, publicada em 2010 no Journal of Management, que reuniu 89 estudos empíricos sobre transferência. Os resultados confirmam relação positiva entre transferência e quatro grupos de fatores: capacidade cognitiva, conscienciosidade, motivação, e um ambiente de trabalho de apoio.
O quarto é o que interessa a quem desenha, porque é o único que uma entidade formadora pode ajudar a construir e é o único que quase nunca aparece na proposta.
A arrumação clássica destes fatores é anterior e vem de Baldwin e Ford, em 1988: as condições da transferência dividem-se em características de quem aprende, desenho da formação, e ambiente de trabalho. Três grupos. A prática do setor concentra-se quase inteiramente no segundo, avalia sobretudo o primeiro, e trata o terceiro como problema do cliente.
O contexto europeu e português
A investigação sobre transferência é internacional e sobretudo anglo-saxónica. Vale a pena olhar para o que os dados europeus dizem sobre o terreno onde ela se aplicaria.
O Inquérito à Formação Profissional Contínua nas Empresas, o CVTS do Eurostat, tem cadência quinquenal e a edição mais recente reporta-se a 2020. Nesse ano, 67,4% das empresas da União Europeia com dez ou mais pessoas ao serviço proporcionaram formação profissional contínua ao seu pessoal, valor abaixo dos 70,5% de 2015. Entre 2015 e 2020, apenas em dois países aumentou a proporção de empresas que financiam formação: Itália, com mais 8,7 pontos, e Portugal, com mais 0,6.
Convém enquadrar antes de celebrar. O ano de referência é 2020, marcado pela pandemia e pelos confinamentos, e a queda europeia é em boa parte explicada por isso. Que Portugal tenha subido num ano em que quase toda a Europa desceu é facto, e é facto sobre resiliência da oferta e não sobre a sua qualidade.
Há uma segunda linha destes dados que interessa mais à questão da transferência. Em 2020, participaram em cursos financiados pelo empregador 42,4% das pessoas ao serviço no conjunto das empresas europeias, mas apenas 27,5% nas pequenas empresas, com dez a quarenta e nove pessoas. E a proporção de empresas que proporcionam formação varia de 92,8% nas grandes para 63,5% nas pequenas.
Isto liga-se diretamente ao que a meta-análise identificou. Se o determinante da manutenção é o ambiente de trabalho de apoio, e se a pequena empresa é onde há menos estrutura formal de acompanhamento, então o défice não está apenas no acesso à formação. Está também na condição que faz a formação durar depois de acontecer. Uma organização de doze pessoas não tem departamento de formação, não tem plano de acompanhamento e não tem quem observe a aplicação. Tem, quase sempre, quem chefia, e é aí que a intervenção tem de ser desenhada.
A distinção que a meta-análise acrescenta
Há um resultado nesta meta-análise que raramente é citado e que sustenta, com evidência, aquilo que esta casa vinha a dizer por convicção.
Os fatores preditores da transferência, incluindo a motivação e o ambiente de trabalho, têm relação mais forte com a transferência quando a formação incide sobre competências abertas do que quando incide sobre competências fechadas.
Para as competências fechadas, um bom curso quase basta. Para as competências abertas, o curso é a parte pequena, e o contexto de aplicação é a parte grande. É por isso que programas de liderança avaliados com nota máxima produzem tão pouca mudança visível: não é o programa que falha, é o desenho que termina onde o problema começa.
E é exatamente aqui que a distinção entre transmitir e desenvolver deixa de ser uma preferência de vocabulário.
Ensino e desenvolvimento, com definição
Ambos são necessários e nenhum é superior ao outro em abstrato. Uma competência fechada aprende-se por transmissão, e é assim que deve ser: ninguém quer que a operação de um equipamento de segurança dependa do julgamento pessoal de quem o opera. O que não funciona é aplicar o desenho da transmissão a uma competência aberta, e depois medir o resultado com o instrumento da transmissão.
A decisão observável como unidade de medida
Se o desenvolvimento se mede em decisões diferentes, então é preciso saber, antes de desenhar, qual é a decisão.
Uma decisão observável tem três propriedades.
A diferença não é de redação. Quem desenha a partir da primeira formulação constrói uma sessão sobre princípios de delegação e avalia com um questionário. Quem desenha a partir da segunda tem de saber como corre a reunião de segunda-feira, o que impede hoje a distribuição de correr melhor, e o que teria de mudar no contexto para que a nova forma resistisse ao terceiro mês. São dois programas diferentes, com o mesmo título.
O que isto não é
Um objetivo reescrito
Vale a pena ver a diferença aplicada.
A segunda formulação obriga a três coisas que a primeira dispensa. Obriga a saber que existe uma conversa pendente, o que exige diagnóstico antes de desenhar. Obriga a prever uma sessão de acompanhamento, o que altera a estrutura e o custo do programa. E obriga a envolver quem chefia, porque a conversa acontece dentro da organização e não dentro da sala.
É mais trabalho. É também a diferença entre os 62% e os 34%.
O que isto significa, conforme quem lê
A posição da casa
Isto é a posição de uma entidade formadora sobre o seu próprio trabalho, e fica declarada como posição e não como resultado.
O trabalho real do desenvolvimento individual não é a transmissão, é a transformação. Não é o evento, é o trajeto. Foi por isso que escolhemos o nome Advance Station, com Individual Development por baixo, e trinta anos depois continua a ser por isso.
A consequência prática desta posição é desconfortável para quem a assume, e é justo dizê-lo. Significa que um programa não termina quando a sala se esvazia, que o desenho tem de incluir o que a entidade formadora não controla, e que a medição honesta vai revelar, mais vezes do que agrada, que a curva desceu. Uma casa que decide medir o que acontece depois vai encontrar números piores do que a casa que decide medir a satisfação no fim.
Preferimos os piores. São os únicos que dizem alguma coisa.
Fontes
Georgenson, D. L. (1982). «The problem of transfer calls for partnership». Training and Development Journal, 36(10). Origem da estimativa de 10%, apresentada pelo autor como estimativa pessoal e sem investigação citada. Consultado a 5 de agosto de 2026.
Saks, A. M. e Belcourt, M. (2006). «An investigation of training activities and transfer of training in organizations». Human Resource Management, 45(4), 629-648. Consultado a 5 de agosto de 2026.
Blume, B. D., Ford, J. K., Baldwin, T. T. e Huang, J. L. (2010). «Transfer of Training: A Meta-Analytic Review». Journal of Management, 36(4), 1065-1105. Meta-análise de 89 estudos empíricos. Consultado a 5 de agosto de 2026.
Eurostat, Statistics on continuing vocational training in enterprises, Inquérito à Formação Profissional Contínua nas Empresas (CVTS), dados de 2020. Consultado a 5 de agosto de 2026.
Cedefop, indicadores sobre formação profissional contínua nas empresas, com base no CVTS do Eurostat. Consultado a 5 de agosto de 2026.
Baldwin, T. T. e Ford, J. K. (1988). «Transfer of training: A review and directions for future research». Personnel Psychology, 41(1), 63-105. Consultado a 5 de agosto de 2026.
Nota de origem
Este artigo reúne e desenvolve três publicações da Advance Station no LinkedIn, entre 30 de abril e 23 de junho de 2026. O texto foi reescrito para leitura contínua e a base empírica é nova: as peças originais apresentavam a distinção como posição editorial, sem fonte.
- 30 de abril de 2026 · Diário de Bordo, edição inaugural, sobre o momento em que o curso acaba.
- 1 de maio de 2026 · Lente de Descoberta, edição inaugural, sobre o que distingue ensino de desenvolvimento.
- 23 de junho de 2026 · Lente de Descoberta, sobre a formação que muda o que se faz a seguir.
