O que a OCDE mediu
A 8 de setembro, às nove e meia de Paris, a OCDE disse ao país que os seus alunos de 15 anos leem pior do que os de 2000. Quatrocentos e sessenta e dois pontos, quinze a menos do que em 2022, oito abaixo do primeiro ano em que houve medição. O país reagiu como reage a estas coisas: uma manhã de títulos, dois dias de comentário, uma semana de culpas distribuídas por governos de cores diferentes, e depois o silêncio até 2028.
Nós lemos o mesmo número dois dias depois, com a amostra e a série, e encontrámos nele o que a pressa não deixa ver: a inflexão começou em 2015, antes da pandemia e de qualquer ciclo eleitoral em curso; a desigualdade entre alunos favorecidos e desfavorecidos não mexeu em dez anos; e os mesmos alunos que leem pior do que os de 2000 resolvem problemas em ambiente digital melhor do que a média da OCDE.
Na terça-feira que vem, a 29, a OCDE publica o Education at a Glance 2026, o seu retrato anual dos sistemas de ensino, este ano com um foco especial na falta de professores. Não escrevemos sobre o que ainda não foi publicado, e por isso este Diário sai antes desse dado e não o comenta. O Observatório #12, a 8 de outubro, lê-o com a mesma régua com que leu o PISA: a amostra, a série, o que o número não diz. Um mês medido duas vezes pede duas leituras, e a segunda tem data.
O que o Roteiro publicou
Cinco peças em três semanas, e uma sexta na terça-feira. Não foi um mês de notícias: foi um mês com um fio, e o fio chamou-se o outro regresso às aulas. Setembro fotografa mochilas à porta da escola e mede os alunos ao ponto. Nós quisemos medir, com a mesma régua, os adultos que ninguém fotografa, e pôr as duas medições lado a lado.
Duas regras guiaram o mês, e vão guiar os seguintes. A primeira: não competir com a imprensa no dia da publicação. O PISA saiu a 8; nós saímos a 10, com a série em quadro. Perdemos a manhã e ganhámos o resto.
A segunda: dizer sempre o que o número não diz. Cada peça deste mês tem uma secção com esse nome, e é a secção de que mais nos orgulhamos, porque é a que ninguém nos pediu.
Quanto aos leitores: não publicamos números de leitura que ainda não apurámos. Quando os tivermos, com data de extração, ficam aqui, e ficam também quando forem pequenos. Um Roteiro que só publicasse os números que lhe convêm não podia pedir aos outros que publicassem os deles.
O que ficou por medir
O mês pôs uma pergunta a que não respondeu, e não respondeu porque ninguém tem a resposta: o que sabem os adultos portugueses hoje, e o que saberão daqui a um ano? A OCDE mediu-os uma vez, e volta no início da próxima década.
O Estado recolhe dados sobre quem se inscreve e quem termina, mas não sobre o que sabiam à entrada e à saída. As empresas entregam o Relatório Único com as horas, e as horas não dizem nada. Entre a medição dos 15 anos, que tem data e título, e a dos 45, que não tem nem uma coisa nem outra, há um país inteiro que trabalha, decide e vota sem que ninguém lhe pergunte o que consegue fazer com um texto.
Uma casa que forma adultos não pode responder por todos. Pode responder pelos seus. O Diário de Bordo disse que quem publica leituras do setor tem a obrigação de medir os próprios adultos, e nós somos quem publica.
Voltaremos a este tema, e não com opinião: com a medição dos adultos que passam por esta casa, à entrada e à saída, quando ela estiver em condições de ser publicada com a exigência que pedimos aos outros. Não marcamos data porque a exigência é a de não a marcar antes de a poder cumprir. Marcamos o compromisso.
Formação depois das seis, porque quem não participa trabalha. Formação perto de casa ou dentro da empresa, porque quem não participa não se desloca para ela. Material escrito para quem está no nível 1, porque é lá que estão quatro em cada dez. Nenhuma das três pede uma lei nova. Todas pedem que alguém desenhe a sala para quem lá vai estar, e não para quem já lá está.
Outubro
Outubro começa com a segunda medição do mês, o Education at a Glance, e o Observatório #12 lê-a a 8. O foco deste ano, a falta de professores, é um dado que Portugal conhece de dentro: no PISA, 44% dos alunos portugueses frequentam escolas cujos diretores dizem que essa falta prejudica o ensino, e nas escolas de formação de adultos a pergunta nem sequer se faz, porque ninguém a conta. Vamos contá-la.
A leitura de 8 de outubro vai fazer o que as duas anteriores fizeram. Dizer quem foi medido e como, porque o Education at a Glance não é um teste a alunos, é um retrato administrativo dos sistemas, feito com dados que os próprios países enviam, e isso muda o que se pode concluir dele.
Pôr Portugal ao lado da série, porque há vinte e cinco edições e o país aparece em quase todas. Separar o que o relatório mede, que são professores em falta, idades, salários e horas, do que não mede, que é o que acontece numa sala quando o professor não está. E acrescentar a pergunta que o relatório não faz e que esta casa faz todos os dias: quem forma os adultos, com que qualificação, e quantos faltam.
O fio de outubro decide-se esta semana, e dois candidatos estão em ata desde agosto. O primeiro é a inteligência artificial na aprendizagem, que o PISA 2025 mediu pela primeira vez e cujo dado português ainda não apurámos; junho tratou o tema pelo lado da adoção, e outubro pode tratá-lo pelo lado do que os alunos fazem com ela.
O segundo é a falta de professores, que sai a 29 e que se pode ler do lado dos formadores de adultos, que ninguém conta. Não anunciamos qual, porque ainda não escolhemos, e este Diário não promete o que não fez.
Setembro provou que a casa consegue. Outubro tem de provar que consegue outra vez, que é a única prova que interessa.
A regra que se mantém
Em setembro, isso quis dizer publicar a medição dos adultos com a exigência com que o país publica a dos alunos: amostra, série quando existe, e a confissão de que não existe quando não existe. O que se vê deste roteiro, este mês, é um país que se mede aos 15 anos e deixa de se medir aos 45. A casa tem instrumentos para a segunda medição. Vai usá-los.
Porto, 25 de setembro de 2026
Referências
1. Roteiro, Observatório #10, «462 pontos em leitura: o PISA 2025 devolve Portugal a 2000», 10 de setembro de 2026.
2. Roteiro, Lente de Descoberta #09, «Literacia não é alfabetização», 15 de setembro de 2026.
3. Roteiro, Diário de Bordo N05, «Um regresso sem fotografia», 18 de setembro de 2026.
4. Roteiro, Carta de Navegação N.º 04, «O outro regresso às aulas, em seis movimentos», 22 de setembro de 2026.
5. Roteiro, Observatório #11, «42% dos adultos no nível 1 de literacia, ou abaixo», 24 de setembro de 2026.
6. OCDE (2026), PISA 2025 Results (Volume I): Portugal, nota-país, 8 de setembro de 2026, para os 462 pontos e os 44% de alunos em escolas com falta de professores. Consulta: 8 de setembro de 2026.
7. OCDE, calendário de publicações, para a data do Education at a Glance 2026, 29 de setembro de 2026.