O que setembro mede
Há um mês no ano em que o país inteiro olha para a escola. Os jornais publicam o preço dos manuais, as televisões filmam o primeiro dia, os ministros visitam uma turma e prometem o que se promete. Este ano a OCDE acrescentou-lhe um número, e o número correu o país numa manhã. Sabemos quantos pontos fazem os alunos de 15 anos em leitura, sabemos como se comparam com os de 2000 e com os da Estónia, sabemos que a série desce desde 2015. Sabemos muito, e sabemo-lo com data: de três em três anos, num dia marcado, às nove e meia de Paris.
Os adultos também foram medidos. Uma vez. Em 2023, pela primeira vez na história do país, e o resultado saiu em dezembro de 2024, num dia em que ninguém filmou nada. Não houve primeiro dia, não houve preço de manuais, não houve visita. Houve uma nota-país de doze páginas e uma semana de comentário. O próximo ciclo está previsto para o início da década seguinte. Entre uma medição e outra, uma geração de alunos de 15 anos faz-se adulta sem que ninguém volte a perguntar-lhe o que sabe.
Não é um lamento. É uma observação sobre o que um país escolhe ver, e a escolha tem consequências práticas: o que não se mede não entra no orçamento, não entra no debate, não entra no calendário. O regresso às aulas dos adultos não tem calendário porque não tem fotografia, e não tem fotografia porque ninguém decidiu que merecia uma.
Uma sala às sete da tarde
A pessoa de quem falamos a seguir não existe com este nome nem com esta cara. Existe em dezenas de fichas de inscrição que passaram por esta casa nos últimos anos, e o retrato é feito delas, como um rosto composto. Nenhum pormenor foi inventado por conveniência; todos foram vistos.
Ela tem 47 anos, saiu da escola aos 15 com o nono ano por terminar, e trabalha há vinte e seis num armazém onde começou a contar caixas e hoje coordena um turno de nove pessoas. O sistema informático mudou duas vezes. O último formulário que lhe pediram para preencher tinha três páginas e uma palavra, «rastreabilidade», que ela sabia o que queria dizer e não sabia como se escrevia.
Não foi por isso que voltou. Voltou porque a filha entrou no décimo ano e ela decidiu que não ia ser a única pessoa da casa a não saber o que a filha estava a estudar.
Ninguém a fotografou no primeiro dia. Ninguém lhe perguntou, à entrada, o que sabia fazer com um texto, nem lhe vai perguntar à saída de outra maneira que não seja uma prova escrita. Ela chega às sete, sai às dez, e amanhã levanta-se às seis. Se desistir, não há estatística que a conte: os adultos que abandonam a formação não têm taxa de abandono nos jornais. Se acabar, terá um certificado e, com sorte, alguém que lhe pergunte o que mudou.
O que esta casa sabe, por a ter recebido tantas vezes, é que a pessoa que entra numa sala às sete da tarde não é uma aluna atrasada. É uma trabalhadora, uma mãe, uma contribuinte, uma eleitora, e é, ao mesmo tempo, o resultado de uma escola que a deixou sair aos 15 e de um país que não voltou a perguntar por ela durante trinta anos. Tratá-la como se fosse a aluna que não foi é um erro de desenho. Tratá-la como quem é, e desenhar a partir daí, é a única coisa que uma casa de formação tem de saber fazer.
O que defendemos
Defendemos três coisas, e nenhuma pede dinheiro novo.
A primeira é que o regresso dos adultos tenha calendário. Não uma campanha, que as campanhas passam; um dia no ano em que o país publica quantos adultos voltaram a estudar, quantos terminaram e o que sabiam à entrada e à saída. O Estado já recolhe boa parte destes dados. Não os junta, e não lhes marca uma data.
A segunda é que se meça o que a pessoa sabe fazer, e não só o certificado que traz. Uma casa que publica leituras do setor, como esta, tem a obrigação de medir os seus próprios adultos: à entrada, com um diagnóstico curto de leitura e de cálculo; à saída, com uma demonstração do que aprendeu a fazer, antes da prova escrita. O Instituto Unicenter faz isto há anos, e publica-o. Não é exemplo: é o mínimo que se pede a quem escreve sobre os outros.
A terceira é a exigência. Defender os adultos que voltam não é pedir-lhes menos. É pedir-lhes o mesmo que se pede aos de 15 anos, com uma diferença: desenhar a sala para quem lá vai estar. Horário que caiba num dia de trabalho, material que não cobre à porta uma competência que ninguém deu, avaliação que meça o que se quer medir. Quem baixa a exigência para os adultos está a dizer-lhes que não contam. Quem a mantém, e desenha para eles, está a dizer-lhes que os viu.
A Advance Station forma adultos e defende que eles contem: com calendário, com medição e com a mesma exigência. Na terça-feira, a Carta de Navegação N.º 04 traz os números que esta peça não traz de propósito, e diz quantos são os que setembro não fotografa.
Referências
1. Roteiro, Observatório #10, «462 pontos em leitura: o PISA 2025 devolve Portugal a 2000», 10 de setembro de 2026, para o que setembro mede.
2. Roteiro, Lente de Descoberta #09, «Literacia não é alfabetização», 15 de setembro de 2026, para a diferença entre saber ler e usar o que se lê.
3. OCDE (2024), Survey of Adult Skills 2023: Portugal, nota-país, 10 de dezembro de 2024, para a data e a natureza da primeira medição dos adultos portugueses. Consulta: 8 de setembro de 2026.