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Lente #09 · Literacia não é alfabetização

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5min de leitura
Portugal tem três em cada cem adultos que não sabem ler e quarenta e dois em cada cem que leem sem conseguir usar o que leram. Os dois números medem coisas diferentes, e a confusão entre eles é a razão por que o segundo passa despercebido.

Duas perguntas que não são a mesma

Nos Censos de 2021, o recenseador fez a cada pessoa com dez ou mais anos uma pergunta simples: sabe ler e escrever? Responderam que não cerca de 3%, a taxa de analfabetismo mais baixa da história do país. Em 1970 era um quarto da população; em 1991, onze por cento. A escola chegou a toda a gente, e o número mostra-o.

Em 2022 e 2023, a OCDE fez a cerca de quatro mil adultos portugueses, entre os 16 e os 65 anos, outra coisa: pô-los à frente de textos e pediu-lhes que os usassem. Encontrar uma informação numa lista de medicamentos. Comparar duas ofertas de emprego. Perceber o que uma carta do banco pede. Quarenta e dois por cento ficaram no nível 1 da escala, ou abaixo dele. Na média dos países da OCDE são 26%.

3%
Respondem à pergunta: «sabe ler?»
42%
Ficam no nível 1 de literacia, ou abaixo dele

Os 3% respondem à pergunta «sabe ler?». Os 42% respondem à pergunta «o que consegue fazer com o que lê?». A primeira pergunta tem resposta de sim ou não. A segunda tem cinco níveis, e é a que interessa a quem forma, contrata ou governa.

O que é, ao certo, literacia

A definição que a OCDE usa no Inquérito às Competências dos Adultos é esta: a capacidade de aceder a textos escritos, de os compreender, avaliar e refletir sobre eles, para participar na sociedade, atingir objetivos e desenvolver o próprio conhecimento e potencial. Cada verbo conta. Aceder é encontrar. Compreender é saber o que diz. Avaliar é decidir se é de fiar. Refletir é ligar o que se leu ao que já se sabia. A alfabetização é a condição do primeiro verbo; a literacia são os quatro.

A escala vai de 0 a 500 pontos e divide-se em níveis. No nível 1, a pessoa lê textos curtos e simples e encontra neles uma informação quando esta aparece com as mesmas palavras da pergunta. Abaixo do nível 1, nem sempre. No nível 2, já lida com textos mais longos, faz inferências simples e distingue o que interessa do que não interessa. A partir do nível 3, compara fontes, avalia argumentos e trabalha com informação que se contradiz. Para ler um contrato de trabalho ou uma instrução de segurança com autonomia é preciso, no mínimo, o nível 2.

Nível O que a pessoa consegue fazer com um texto Portugal OCDE
1 ou abaixo Lê textos curtos e simples; encontra uma informação quando surge com as palavras da pergunta. 42% 26%
2 Lida com textos mais longos; faz inferências simples; separa o que interessa do que não interessa. 36% 34%
3 Compara fontes; avalia argumentos; trabalha com informação densa ou contraditória. 18% 28%
4 e 5 Integra várias fontes longas; raciocina sobre o que está implícito; avalia a fiabilidade com critério. 4% 12%
Quadro 1 · Os níveis de literacia e a distribuição dos adultos de 16 a 65 anos. Fonte: OCDE, Inquérito às Competências dos Adultos 2023, nota-país Portugal, 10 de dezembro de 2024. Percentagens arredondadas; a soma pode não dar cem.

Três confusões vizinhas

Literacia não é numeracia. A numeracia é a mesma ideia aplicada a números: ler um horário, calcular um desconto, perceber um gráfico. O inquérito mede-a à parte, e em Portugal 40% dos adultos ficaram no nível 1 ou abaixo. Os dois números andam juntos, mas não são o mesmo, e uma pessoa pode estar bem num e mal no outro.
Literacia não é literacia digital. A literacia digital é saber usar o meio: o telemóvel, o formulário, a aplicação. Alguém pode navegar num portal com destreza e não perceber o texto que lá encontra. Os 42% não dizem nada sobre quem usa ou não usa o computador; dizem o que acontece depois de o ecrã se acender.
Literacia não é escolaridade. Um diploma diz quantos anos alguém esteve na escola; a literacia diz o que ficou. Em Portugal, adultos com o secundário completo obtiveram em média 249 pontos, dentro do nível 2, e os que têm um curso superior obtiveram 277, ainda dentro do nível 2. O certificado e a competência caminham na mesma direção, mas a distância entre os dois é maior do que se costuma supor.

Numa sala de formação, isto quer dizer o quê

Se a distribuição nacional for a da sala, numa turma de vinte adultos há oito que estão no nível 1. Todos sabem ler. Nenhum deles se apresenta como alguém que tem dificuldade em ler, porque não tem: tem dificuldade em usar o que lê, e isso não se vê à entrada. O manual de trinta páginas, o enunciado com três instruções encadeadas, a ficha de avaliação com uma pergunta de resposta longa, tudo isso foi escrito para os outros doze.

No material. Frases curtas, uma instrução por passo, o exemplo antes da regra, e a informação que a pessoa precisa de encontrar escrita com as palavras que ela vai procurar.
Na avaliação. Pedir primeiro que a pessoa mostre que sabe fazer, e só depois que o escreva, porque um teste escrito mede duas coisas ao mesmo tempo e atribui a nota a uma só.
No acolhimento. Um diagnóstico de leitura à entrada, curto e sem cerimónia, para que o formador saiba com quem está a falar antes de começar a falar.

Nada disto baixa a exigência. Um adulto que trabalha, sustenta uma casa e volta a estudar à noite não precisa de um programa mais fácil. Precisa de um programa que não lhe cobre, à porta, uma competência que ninguém lhe deu.

Em duas linhas
Alfabetização é saber ler. Literacia é conseguir fazer alguma coisa com o que se leu. Portugal resolveu a primeira em duas gerações e ainda não começou a medir a segunda com regularidade: a OCDE fê-lo uma vez, em 2023, e o Observatório #11, a 24 de setembro, lê essa medição por inteiro.

Fontes

1. OCDE (2024), Do Adults Have the Skills They Need to Thrive in a Changing World? Survey of Adult Skills 2023, OECD Publishing, Paris, 10 de dezembro de 2024, para a definição de literacia e a descrição dos níveis. Consulta: 8 de setembro de 2026.

2. OCDE (2024), Survey of Adult Skills 2023: Portugal, nota-país, 10 de dezembro de 2024, para a distribuição por nível e as médias por escolaridade. Consulta: 8 de setembro de 2026.

3. INE (2022), Censos 2021: Resultados Definitivos, Lisboa, 23 de novembro de 2022, para a taxa de analfabetismo. Consulta: 8 de setembro de 2026.