Quando uma organização contrata um percurso formativo de doze meses, está a assumir, sem o formular assim, que vai existir daqui a doze meses. Quando estabelece uma parceria de qualificação a três anos, está a assumir três. E quando desenha um plano de desenvolvimento de equipa cujo efeito só aparece no ciclo seguinte, está a apostar num ciclo seguinte.
Nenhuma destas suposições é irrazoável. Todas são suposições.
Esta peça olha para a base estatística que as sustenta ou não sustenta, e é a mais desconfortável do arquivo, porque o assunto pertence a quem contrata formação tanto como a quem a vende.
O quadro, antes da leitura
| Indicador | Valor | Ano | Fonte |
|---|---|---|---|
| Taxa de natalidade de empresas, Portugal | 16,8% | 2023 | Eurostat |
| Posição na União Europeia, natalidade | 3.ª entre 27 | 2023 | Eurostat |
| Taxa de natalidade, média da União Europeia | 10,5% | 2023 | Eurostat |
| Sobrevivência a 3 anos após o nascimento | 47,7% | 2024 | INE |
| Sobrevivência a 3 anos, ano anterior | 48,9% | 2023 | INE |
| Sobrevivência a 1 ano após o nascimento | 73,6% | 2023 | INE |
| Sociedades que cessaram atividade com 5 ou menos anos | 40,5% | 2024 | INE |
| Setor com maior peso nas cessações de sociedades jovens | Outros serviços, 27,6% | 2024 | INE |
| Sociedades de elevado crescimento | 7 801 | 2024 | INE |
Duas linhas deste quadro puxam em sentidos opostos, e é entre elas que está o assunto.
Portugal cria empresas como poucos países da Europa
O primeiro dado é bom e quase nunca aparece nesta conversa.
Em 2023, a taxa de natalidade de empresas em Portugal foi de 16,8%, a terceira mais alta da União Europeia, atrás apenas da Lituânia, com 19,6%, e de Malta, com 17,1%. A média europeia foi de 10,5%. Em 2022 Portugal tinha sido o segundo, com 16,7%. Em 2021 foi dos quatro primeiros, com 14,4%.
Não é um acidente de um ano. É um traço estrutural: durante três anos consecutivos, Portugal esteve no topo europeu da criação de empresas, com uma taxa próxima do dobro da média da União.
Isto contraria a narrativa do país empreendedoramente tímido, e é um dado que merecia mais espaço do que tem. Mas tem uma segunda metade.
Quantas chegam aos três anos
Segundo o Instituto Nacional de Estatística, a proporção de empresas que sobrevivem três anos após o nascimento foi de 47,7% em 2024, menos 1,2 pontos do que no ano anterior. Em 2023 tinha sido 48,9%, em 2022 foi 48,5%, e em 2021 foi 49,1%.
A sobrevivência ao primeiro ano é bastante mais alta, 73,6% em 2023, o que localiza o problema com precisão. A mortalidade não se concentra no arranque, concentra-se no segundo e terceiro anos, que é exatamente o período em que um percurso formativo de médio prazo estaria a produzir efeito.
Uma nota sobre mortalidade, e por que este artigo não a usa
Há uma armadilha nesta matéria que convém desarmar antes de continuar, porque explica leituras contraditórias que circulam sobre o mesmo país.
A taxa de mortalidade de empresas em Portugal aparece publicada com valores muito diferentes consoante a fonte, e a razão é o universo. O Instituto Nacional de Estatística, quando reporta sociedades não financeiras, registou uma taxa de mortalidade de 3,1% em 2023 e de 4,1% em 2022. O Eurostat, quando reporta o conjunto da economia empresarial, que inclui empresários em nome individual e um perímetro de atividades diferente, apresenta valores europeus na ordem dos 8,5%.
Por isso este artigo trabalha com taxas de sobrevivência e não com taxas de mortalidade. A sobrevivência a três anos é um indicador menos ambíguo, é publicado pelo INE com série longa e comparável, e responde diretamente à pergunta que interessa a quem contrata: esta organização ainda cá está quando o programa terminar?
Quem quiser usar mortalidade tem de dizer qual, e de que universo. É trabalho a mais para uma frase de abertura de apresentação, e é provavelmente por isso que quase ninguém o faz.
Quem morre, e em que setor
Os dados de 2024 acrescentam um recorte que muda a leitura.
Das 15 133 sociedades não financeiras que morreram nesse ano, 40,5% tinham cinco ou menos anos de idade. No ano anterior, essa proporção tinha sido de 53,7%. A vulnerabilidade concentra-se, de forma consistente, nos primeiros anos de vida.
E entre essas sociedades jovens que morreram, a maior fatia estava nos Outros serviços, com 27,6%, seguida do Comércio, com 18,3%, e da Construção e atividades imobiliárias, com 17,1%.
Retenha-se essa primeira linha. O setor onde morrem mais empresas jovens é o dos serviços, e é nos serviços que vive a maior parte da procura de formação profissional que não é obrigatória: consultoras pequenas, agências, gabinetes técnicos, empresas de software com quinze pessoas, clínicas, estruturas de apoio a outras estruturas.
O cliente típico de um programa de desenvolvimento de equipa não é uma empresa industrial com quarenta anos e ativo fixo. É frequentemente uma organização de serviços com menos de cinco anos, que está exatamente no intervalo onde a estatística é menos generosa.
Por que isto é matéria de formação, e não de economia
Um leitor pode objetar que a demografia empresarial pertence a outra conversa. Não pertence, e o argumento tem três degraus.
O que muda no desenho
Se a organização cliente tem uma probabilidade não trivial de não existir daqui a três anos, então há quatro coisas que deixam de ser preferência e passam a ser desenho.
O outro lado: as que consolidam
Uma leitura que ficasse pela sobrevivência seria parcial e injusta com o país, porque há um segmento que faz o contrário.
Em 2024 existiam em Portugal 7 801 sociedades não financeiras de elevado crescimento, mais 12,3% do que no ano anterior. Correspondem a 13,5% do total de sociedades com dez ou mais pessoas remuneradas. São empresas que, por definição estatística, aumentaram o número de pessoas de forma sustentada ao longo de três anos consecutivos.
O segmento não só existe como está a crescer. E é um cliente formativo completamente diferente do primeiro.
Uma organização que ganhou pessoas três anos seguidos tem um problema que a organização em risco não tem: gente nova a chegar mais depressa do que a prática instalada consegue absorver, funções que se criam antes de estarem descritas, e chefias que passaram a chefiar sem transição. É o terreno onde a formação tem maior retorno e onde há orçamento e horizonte para a fazer bem.
A conclusão prática é que o mercado formativo português não é um mercado, são pelo menos dois, e o desenho que serve um serve mal o outro.
Vender o mesmo programa aos dois é o erro mais comum do setor, e o mais caro para quem compra.
Solidez como condição, não como consequência
Há uma inversão nesta matéria que vale a pena tornar explícita, e que dá título à Carta de Navegação que está na origem deste artigo.
A leitura comum trata a solidez financeira como consequência de fazer as coisas bem: uma organização que trabalha bem torna-se sólida com o tempo. É verdade e é insuficiente.
Na formação de longo prazo, a solidez como condição é também o que permite manter um programa em curso durante um mau trimestre, honrar um compromisso de acompanhamento que não gera receita imediata, e não interromper uma parceria porque a tesouraria apertou.
Uma entidade formadora frágil não falha de forma dramática: falha de forma discreta, deixando cair o acompanhamento pós-formação, que é justamente a parte que a investigação identifica como determinante e que ninguém audita.
Isto aplica-se aos dois lados da mesa. Vale para quem forma e vale para quem contrata, e é por isso que a pergunta sobre continuidade é legítima em qualquer das direções.
O que os dados não permitem concluir
Três limites, e são importantes.
O que isto significa, conforme quem lê
A leitura da casa
Portugal tem um problema que raramente é enunciado assim: não é um país que crie poucas empresas, é um país onde muitas das que se criam não duram o suficiente para acumular nada, incluindo competência.
A formação é uma das coisas que se acumula, e acumula-se devagar. Precisa de contexto que dure, de alguém que observe a aplicação, e de um ciclo seguinte onde o que se aprendeu se volte a usar. Nada disso existe numa organização que fecha ao segundo ano.
Não propomos que quem forma resolva a demografia empresarial portuguesa, o que seria absurdo. Propomos que a considere no desenho, que é o que está ao alcance, e que a nomeie na conversa com quem contrata, em vez de a deixar como pressuposto silencioso de ambos os lados.
É a isso que chamamos infraestrutura silenciosa. Não aparece em nenhuma proposta, não consta de nenhum referencial, e decide mais resultados do que a maioria das escolhas pedagógicas que se discutem em cima dela.
Fontes
Instituto Nacional de Estatística, Empresas em Portugal, Demografia das Empresas, edições relativas a 2021, 2022, 2023 e 2024, com taxas de natalidade, mortalidade e sobrevivência, e recorte por idade e setor das sociedades que cessaram atividade. Consultado a 5 de agosto de 2026.
Eurostat, Business demography statistics, com as taxas de natalidade e de mortalidade de empresas na União Europeia e nos Estados-Membros, dados de 2021 a 2023, série bd_size. Consultado a 5 de agosto de 2026.
Nota de origem
Este artigo desenvolve uma publicação da Advance Station no LinkedIn, de 5 de maio de 2026, a Carta de Navegação sobre a solidez como condição das políticas de desenvolvimento de longo prazo. O texto foi reescrito para leitura contínua e a base estatística foi refeita a partir das fontes primárias, com indicadores atualizados e com um valor da publicação original substituído por não ter sido possível confirmá-lo na fonte citada.