Dia: 24 de Setembro, 2026

  • Observatório #11 · 42% dos adultos no nível 1 de literacia, ou abaixo

    Observatório #11 · 42% dos adultos no nível 1 de literacia, ou abaixo

    Os alunos que fizeram o primeiro PISA, em 2000, tinham 38 anos quando a OCDE mediu pela primeira vez os adultos portugueses. O país que os recebeu ficou em penúltimo lugar entre 31 países e economias. Esta é a segunda metade de um par que começou há duas semanas, e é a metade que não teve título de jornal.

    O número

    A 10 de dezembro de 2024, a OCDE publicou os resultados do segundo ciclo do Inquérito às Competências dos Adultos, feito em 2022 e 2023 em 31 países e economias. Portugal participou pela primeira vez. Os adultos portugueses entre os 16 e os 65 anos obtiveram, em média, 235 pontos em literacia, 238 em numeracia e 233 em resolução adaptativa de problemas. As médias da OCDE foram 260, 263 e 251. Em literacia, 42% ficaram no nível 1 ou abaixo dele, contra 26% na OCDE; em numeracia, 40% contra 25%. No topo da escala, nos níveis 4 e 5, ficaram 4% dos portugueses em literacia, contra 12% na OCDE.

    235
    Literacia · Portugal
    238
    Numeracia · Portugal
    233
    Resolução adaptativa de problemas · Portugal
    O dado-âncora
    42% dos adultos portugueses ficaram no nível 1 de literacia ou abaixo. Na média da OCDE são 26%.

    Nas posições, Portugal ficou em penúltimo lugar nos três domínios, à frente do Chile. A Finlândia, o Japão, a Suécia, a Noruega e os Países Baixos ocuparam os primeiros lugares, com médias de literacia acima dos 280 pontos. Entre Portugal e a Finlândia vão cerca de 60 pontos, e a distância entre Portugal e a média da OCDE, 25 pontos, é maior do que a que separa a média da OCDE dos primeiros.

    Não houve conferência de imprensa em Lisboa. Houve uma nota-país de doze páginas, publicada às onze da manhã de Paris, uma semana de comentário e um parecer do Conselho Nacional de Educação alguns meses depois. Nenhum ministro visitou uma sala de formação de adultos. É este contraste, e não o número, que faz desta peça a segunda metade de um par.

    Quem foi medido, e como

    O inquérito é feito em casa. Um entrevistador visita uma amostra de adultos escolhida para representar toda a população entre os 16 e os 65 anos, faz-lhes um questionário sobre a vida, a escola e o trabalho, e depois entrega-lhes um computador portátil com tarefas: encontrar uma informação numa lista, comparar dois textos, calcular uma percentagem, decidir o que fazer quando as instruções mudam a meio. As tarefas adaptam-se às respostas, e é isto que distingue uma avaliação direta de um inquérito de opinião: ninguém é perguntado se sabe ler; é-lhe pedido que leia. Em Portugal participaram 3 160 adultos; no conjunto dos países, perto de 160 mil.

    A escala vai de 0 a 500 e divide-se em níveis, como a Lente #09 explicou. No nível 1, a pessoa encontra uma informação num texto curto quando ela aparece com as palavras da pergunta. No nível 2, lida com textos mais longos e faz inferências simples. A partir do nível 3, compara fontes e avalia argumentos. O limiar para ler um contrato ou uma instrução de segurança com autonomia é o nível 2. Quatro em cada dez adultos portugueses não lá chegam, e quase todos sabem ler.

    O PISA tem nove medições em vinte e cinco anos, e o Observatório #10 pôde ler uma série. Este inquérito tem, para Portugal, uma medição. Não há linha, há um ponto. Não se sabe se o país melhorou ou piorou, e qualquer peça que diga que sim está a inventar o passado. O que se pode fazer, e é o que se faz a seguir, é ler o ponto por dentro.

    O ponto, por dentro

    Por idade. Os adultos portugueses entre os 25 e os 34 anos obtiveram 245 pontos em literacia; os que têm entre 55 e 65, 213. A diferença entre as duas gerações é das maiores da OCDE, e é o retrato do que o movimento 1 da Carta chamou escolaridade tardia: os mais novos leem como a média dos países ricos; os mais velhos leem como quem saiu da escola aos 12 anos, porque muitos saíram. É neste grupo, entre os 45 e os 65, que estão a maior parte dos 42%, e é este grupo que tem vinte anos de trabalho pela frente.

    Por escolaridade. Os adultos com o ensino secundário completo obtiveram em média 249 pontos, e os que têm um curso superior, 277. Os dois valores ficam dentro do nível 2. A média dos licenciados portugueses é inferior à média dos adultos com o secundário em vários países do norte da Europa. O diploma e a competência andam na mesma direção, mas a escola portuguesa, durante décadas, certificou mais do que ensinou, e o inquérito é o primeiro instrumento que o mostra sem poder ser acusado de opinião.

    Por situação perante o emprego. Os empregados obtiveram melhores resultados do que os desempregados e os inativos, como em todos os países. O que interessa é a dimensão do grupo: em Portugal, a maior parte dos adultos no nível 1 ou abaixo está a trabalhar. Não são uma população à margem. São a pessoa que coordena o turno, que conduz o camião, que atende ao balcão, que lê o procedimento de segurança e assina em baixo.

    Literacia, adultos de 16 a 65 anos Portugal Média OCDE
    Pontuação média 235 260
    Nível 1 ou abaixo 42% 26%
    Níveis 4 e 5 4% 12%
    Numeracia, nível 1 ou abaixo 40% 25%
    Quadro 1 · Portugal e a média da OCDE no Inquérito às Competências dos Adultos 2023. Fonte: OCDE, nota-país Portugal, 10 de dezembro de 2024. Percentagens arredondadas.

    Os países com quem se compara

    Sem série própria, a comparação útil é com quem tem uma. Vinte e sete dos 31 participantes já tinham feito o primeiro ciclo, há cerca de dez anos, e o que lhes aconteceu nesse intervalo diz alguma coisa sobre o que pode acontecer a Portugal. Na maioria, a literacia média baixou ou ficou na mesma; a numeracia manteve-se ou subiu ligeiramente. A Finlândia e a Dinamarca subiram em ambas. A Coreia, a Lituânia, a Nova Zelândia e a Polónia desceram de forma marcada. Em quase todos, a desigualdade entre os adultos mais e menos competentes aumentou: os de cima mantiveram-se, os de baixo caíram.

    A Espanha e a Itália, que partem de posições próximas da portuguesa, ficaram estáveis em literacia em dez anos, com médias na casa dos 240 pontos. Se Portugal seguir o mesmo caminho, a próxima medição, no início da década de 2030, encontrará o país no mesmo lugar, com uma diferença: os que hoje têm 55 anos terão saído da amostra, e os que hoje têm 15, os do PISA 2025, terão entrado.

    O que o número não diz

    O inquérito mede proficiência em tarefas, não inteligência, não esforço, não valor. Nível 1 não é analfabetismo.

    O penúltimo lugar é entre os 31 participantes, não entre os 38 membros da OCDE, e alguns dos que ficariam abaixo de Portugal não participaram. Não existe série para Portugal, e qualquer afirmação sobre melhoria ou declínio é invenção. E o inquérito foi feito a adultos que frequentaram a escola entre os anos 60 e os anos 2010: mede o que ficou de cinco décadas de escola, não a escola de hoje.

    Três leituras

    Para quem desenha programas. Se a sala for o país, quatro em cada dez participantes entram com literacia de nível 1. O material, a avaliação e o acolhimento têm de sabê-lo à partida, e a Lente #09 diz o que muda em cada um. Mas há uma consequência que a Lente não tirou: os 4% nos níveis 4 e 5 também estão na sala, e desenhar só para o nível 1 perde-os. A resposta não é um programa médio. É diagnóstico à entrada e percursos que divergem depois dele.
    Para quem contrata. A mesma proporção está na população ativa, e a maior parte está a trabalhar. Um manual de procedimentos de trinta páginas, uma instrução de segurança com três condições encadeadas, um contrato com cláusulas remissivas: para quatro em cada dez pessoas da empresa, esses documentos não comunicam. Isto é uma questão de segurança e de qualidade antes de ser uma questão de formação, e a Lente #10 diz o que uma empresa faz com ela.
    Para quem define política. O Conselho Nacional de Educação levantou, no seu parecer, a hipótese que este país precisa de discutir: a de que a subida das qualificações certificadas nas últimas décadas não foi acompanhada, na mesma medida, pela das competências demonstradas. O inquérito não prova a hipótese, porque tem um só ponto. Mas é a primeira vez que ela pode ser posta com um instrumento e não com uma impressão, e a resposta pede o que este mês tem pedido: medir outra vez, com data marcada, antes de 2033.

    O par fechado

    Há duas semanas, o Observatório #10 leu 462 pontos em leitura aos 15 anos e perguntou quem ia receber esta geração. A resposta está nesta peça: recebe-a um país onde quatro em cada dez adultos não passam do nível 1, e onde os que os vão contratar, formar e dirigir foram medidos uma vez, num dia em que ninguém filmou nada. As duas medições descrevem o mesmo país em dois momentos da vida, e o país lê uma como notícia e a outra como nota de rodapé.

    O Roteiro publicou-as com a mesma régua, uma a seguir à outra, para que se leiam como o que são: a mesma pergunta, feita com trinta anos de intervalo, à mesma gente.

    Fontes

    1. OCDE (2024), Do Adults Have the Skills They Need to Thrive in a Changing World? Survey of Adult Skills 2023, OECD Publishing, Paris, 10 de dezembro de 2024.

    2. OCDE (2024), Survey of Adult Skills 2023: Portugal, nota-país, 10 de dezembro de 2024.

    3. DGEEC, PIAAC: Programa Internacional para a Avaliação das Competências dos Adultos.

    4. Conselho Nacional de Educação (2025), parecer sobre os resultados do PIAAC em Portugal.

    5. Roteiro, Observatório #10, «462 pontos em leitura: o PISA 2025 devolve Portugal a 2000»; Lente de Descoberta #09, «Literacia não é alfabetização»; Carta de Navegação N.º 04, «O outro regresso às aulas, em seis movimentos».