O número
A 8 de setembro, às nove e meia da manhã de Paris, a OCDE publicou o primeiro volume dos resultados do PISA 2025. Portugal obteve 462 pontos em leitura, 460 em matemática e 482 em ciências. As médias dos países da OCDE ficaram em 461, 463 e 482. Lido assim, o país está onde sempre quis estar, encostado à média.
Lido ao longo do tempo, está onde esteve há um quarto de século: em leitura, oito pontos abaixo dos 470 de 2000; em matemática, ao nível de 2003, quando obteve 466. Face a 2022, perdeu 15 pontos em leitura, 12 em matemática e 3 em ciências.
Nas posições, que a imprensa gosta de contar e a OCDE gosta de relativizar, Portugal ficou em 26.º lugar em leitura, 30.º em matemática e 29.º em ciências, entre 91 países e economias. Os primeiros lugares são de Singapura e das quatro jurisdições chinesas que participam; a Estónia, o Japão, a Coreia e o Reino Unido estão entre os dez melhores. A distância entre Portugal e o topo passa de uma centena de pontos.
Quem foi medido, e como
O PISA não mede escolas nem professores. Mede o que os alunos de 15 anos conseguem fazer com o que aprenderam, num teste de duas horas, com perguntas de escolha múltipla e de resposta aberta, seguido de um questionário de 35 minutos sobre a vida deles, dentro e fora da escola. Em Portugal responderam 6 945 alunos de 225 escolas, uma amostra desenhada para representar todos os que tinham aquela idade. No mundo, mais de 760 mil alunos em 91 países e economias, a representar perto de 33 milhões de jovens.
A escala tem uma história que convém saber. Quando o PISA começou, em 2000, a média dos países da OCDE foi fixada em 500 pontos. Esses 500 não são hoje a média, são a memória de uma média: em 2025 a OCDE ficou abaixo deles nos três domínios, e o próprio relatório regista os níveis médios mais baixos alguma vez observados em ciências, leitura e matemática. Portugal desce, portanto, dentro de um mundo que desce. Isso não o desculpa; situa-o.
Vinte e cinco anos em nove medições
A série diz mais do que qualquer ponto isolado.
| Ano | Leitura | Matemática | Ciências |
|---|---|---|---|
| 2000 | 470 | 454 | 459 |
| 2003 | 478 | 466 | 468 |
| 2006 | 472 | 466 | 474 |
| 2009 | 489 | 487 | 493 |
| 2012 | 488 | 487 | 489 |
| 2015 | 498 | 492 | 501 |
| 2018 | 492 | 492 | 492 |
| 2022 | 477 | 472 | 484 |
| 2025 | 462 | 460 | 482 |
| Média da OCDE, 2025 | 461 | 463 | 482 |
Entre 2000 e 2015, Portugal subiu em todos os domínios, um caso raro na OCDE, e chegou a 2015 acima da média em leitura e em ciências. Depois de 2015 a linha inverte-se. Em 2018 já descia. Em 2022 desceu mais, e a pandemia serviu de explicação. Em 2025 desce de novo, com a pandemia a cinco anos de distância, e a explicação tem de ser outra, ou tem de ser mais funda.
Os alunos de 2025 tinham dez anos quando as escolas fecharam, em março de 2020. Fizeram o quinto e o sexto ano entre ecrãs e máscaras, e isso explica uma parte da queda. A parte que não explica é a que interessa: a inflexão começou em 2015, quando a maior parte deles entrava no primeiro ano.
O que a média esconde
A média nacional é um número sereno. Por baixo dela, o relatório mostra três coisas que ela não mostra.
A primeira é a desigualdade. Em ciências, os alunos de famílias mais favorecidas obtiveram 92 pontos a mais do que os de famílias menos favorecidas; na OCDE a diferença é de 85. Em Portugal este fosso não mexeu entre 2015 e 2025. Na média da OCDE, encurtou.
A segunda é a escola por dentro. Quarenta e quatro por cento dos alunos portugueses frequentam escolas cujos diretores dizem que a falta de professores prejudica a capacidade de ensinar, contra 39% na OCDE. Na falta de pessoal de apoio, a proporção é de 64% contra 39%. O indicador dos professores melhorou face a 2022 e continua acima da média.
A terceira corrige a leitura fácil. No domínio novo deste ciclo, Learning in the Digital World, que mede a capacidade de resolver problemas com ferramentas computacionais, Portugal obteve 501 pontos, um acima da média da OCDE. Os alunos que leem pior do que os de 2000 resolvem problemas em ambiente digital melhor do que a média dos seus pares. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, e quem quiser um país só numa delas está a escolher a metade que lhe convém.
Há ainda dois dados de contexto que raramente chegam aos títulos. Sete por cento dos alunos portugueses faltaram a pelo menos um dia de aulas nas duas semanas anteriores ao teste, contra 22% na OCDE. Catorze por cento dizem sofrer alguma forma de bullying várias vezes por mês, contra 20%. Os alunos portugueses vão à escola, e estão lá. O que se passa, passa-se dentro.
| Indicador, 2025 | Portugal | Média OCDE |
|---|---|---|
| Diferença em ciências entre alunos favorecidos e desfavorecidos (pontos) | 92 | 85 |
| Alunos em escolas onde a falta de professores prejudica o ensino | 44% | 39% |
| Alunos em escolas com falta de pessoal de apoio | 64% | 39% |
| Learning in the Digital World (pontos) | 501 | 500 |
| Faltaram a pelo menos um dia de aulas nas duas semanas anteriores | 7% | 22% |
| Vítimas de bullying várias vezes por mês | 14% | 20% |
O que o número não diz
Qualquer leitura que atribua quinze pontos a um mandato pede ao instrumento o que o instrumento não dá. A posição no ranking depende de quem participa em cada ciclo: 32 países em 2000, 91 em 2025. A equivalência entre pontos e anos de escolaridade é aproximada. E o teste é feito em português por alunos que, em número crescente, chegaram há pouco ao país e à língua: o ciclo de 2022 registou em Portugal a maior subida de alunos imigrantes de toda a OCDE, de 7% para 11% em quatro anos. O número de 2025 é verdadeiro. O que significa pede mais do que um número.
Três leituras
A geração entre duas medições
Os alunos que fizeram o primeiro PISA, em 2000, têm hoje 41 e 42 anos. São os pais dos alunos de 2025, e são quem os vai contratar, formar e dirigir. Em 2023 a OCDE mediu-os pela primeira vez, num inquérito às competências dos adultos que não teve manhã de terça-feira nem conferência de imprensa. O Observatório #11, a 24 de setembro, lê essa medição, e as duas peças foram feitas para se lerem uma a seguir à outra. O que o país sabe aos 15 anos tem data de publicação e título de jornal. O que sabe aos 40 também tem data. Ninguém a marcou no calendário.
Fontes
1. OCDE (2026), PISA 2025 Results (Volume I): Future-Ready Students, OECD Publishing, Paris, 8 de setembro de 2026. Consulta: 8 de setembro de 2026.
2. OCDE (2026), PISA 2025 Results (Volume I): Portugal, nota-país, 12 páginas, 8 de setembro de 2026. Consulta: 8 de setembro de 2026.
3. OCDE (2023), PISA 2022 Results (Volume I): The State of Learning and Equity in Education, 5 de dezembro de 2023, para os valores de 2022. Consulta: 8 de setembro de 2026.
4. OCDE, base de dados PISA (Education GPS), série de 2000 a 2018. Consulta: 8 de setembro de 2026.
5. Nova SBE Economics of Education Knowledge Center (2024), reflexão sobre os resultados do PISA 2022 em Portugal, 24 de fevereiro de 2024, para a proporção de alunos imigrantes. Consulta: 8 de setembro de 2026.
