Dia: 11 de Agosto, 2026

  • A participação dos adultos portugueses em formação

    A participação dos adultos portugueses em formação

    Em 2022, 44,2% da população residente em Portugal entre os 25 e os 64 anos participou, nos doze meses anteriores, em pelo menos uma atividade de educação formal ou não formal. A média da União Europeia foi de 46,6%. Portugal ficou em 18.º lugar entre os vinte e sete.

    O número vem do Inquérito à Educação e Formação de Adultos do Instituto Nacional de Estatística, divulgado a 22 de março de 2024. É o indicador mais citado quando se fala de qualificação de adultos em Portugal. É também aquele que com mais frequência aparece comparado com coisas que não mede.

    Esta é a primeira edição do Roteiro e começa devagar, de propósito. Antes de dizer o que o número significa, convém dizer o que ele é. Um indicador mal enquadrado não é um indicador fraco: é um indicador que leva quem decide para o sítio errado, com a confiança de quem tem dados.

    O quadro, antes da leitura

    Indicador Portugal União Europeia Fonte
    Participação em educação ou formação, 25-64 anos, últimos 12 meses, 2022 44,2% 46,6% INE, IEFA 2022; Eurostat, trng_aes_100
    Posição no conjunto dos 27 Estados-Membros, 2022 18.º n.d. INE, IEFA 2022
    Participação, população com ensino superior, 2022 68,3% n.d. INE, IEFA 2022
    Participação, população com o 3.º ciclo do básico no máximo, 2022 27,3% n.d. INE, IEFA 2022
    Participação, homens e mulheres, 2022 45,5% e 43,0% n.d. INE, IEFA 2022
    Participação, população empregada, 2022 50,6% n.d. INE, IEFA 2022
    Indicador de monitorização da meta de 2030, 2024 35,5% 28,1% PESSOAS 2030; Eurostat, trng_lfs_17
    Meta para 2030, europeia e nacional 60% 60% Plano de Ação do Pilar Europeu dos Direitos Sociais, 2021

    Duas linhas deste quadro medem a mesma coisa e dão valores diferentes. É por aí que se começa.

    Dois inquéritos, dois números, o mesmo conceito

    Há duas formas oficiais de medir quantos adultos participam em formação ao longo de um ano, e produzem resultados muito distantes um do outro.

    O Inquérito à Educação e Formação de Adultos, conhecido pela sigla europeia AES, tem cadência de cinco em cinco anos e pergunta sobre os últimos doze meses. Foi este que produziu os 44,2%.

    O Inquérito ao Emprego, o LFS, passou a recolher a mesma informação a partir de 2022, com desenho diferente. Para o mesmo ano e o mesmo conceito, o AES deu 46,6% de participação na União Europeia e o LFS deu 25,1%. Vinte e um pontos percentuais de distância entre dois inquéritos oficiais sobre a mesma matéria.

    A distinção que importa
    O conceito é o mesmo. A base de medição não é. Os dois valores são oficiais e não são diretamente comparáveis.

    A diferença não é erro de nenhum dos dois. Resulta do desenho de cada um: o que conta como atividade de formação, como a pergunta é formulada, quanto tempo separa o acontecimento da recolha, e se se inclui ou não a formação em posto de trabalho com acompanhamento. Um inquérito dedicado, com questionário longo e memória assistida, encontra atividades que um inquérito generalista não capta.

    O Eurostat considera o AES com a formação em posto de trabalho incluída a melhor medida da participação em aprendizagem de adultos. As metas europeias, porém, foram fixadas a partir da base que exclui essa componente. As duas coisas coexistem na mesma casa estatística e servem propósitos distintos.

    Guardar esta distinção é o que permite ler tudo o resto sem tropeçar. E é também o que separa uma leitura de setor de uma citação de circunstância.

    A meta de 2030 não se mede com este número

    O Plano de Ação sobre o Pilar Europeu dos Direitos Sociais, adotado em 2021, fixa três metas para 2030. Uma delas é que pelo menos 60% de todos os adultos participem anualmente em ações de formação. É meta europeia e é também meta nacional portuguesa.

    A tentação é imediata: 44,2% contra 60%, faltam quinze pontos e falta menos de uma década. A subtração está certa e a comparação está errada, porque os dois valores não assentam na mesma base de medição.

    Monitorização 2024
    35,5%
    Portugal
    Meta 2030
    60%
    Portugal e União Europeia

    Na base em que a meta é efetivamente monitorizada, Portugal registou 35,5% em 2024, valor 7,4 pontos acima da média da União Europeia, de acordo com o programa PESSOAS 2030. A distância real para a meta ronda os vinte e cinco pontos percentuais, e não os quinze.

    Há aqui duas notícias e convém não perder nenhuma. A primeira é que a distância é maior do que a leitura comum sugere. A segunda é que, nesta base, Portugal está acima da média europeia, o que a leitura comum também não diz. Os dois factos são verdadeiros ao mesmo tempo e nenhum deles anula o outro.

    Dizê-lo não é pessimismo nem autoelogio. É a diferença entre um plano construído sobre a distância verdadeira e um plano construído sobre uma distância confortável. Quem desenha oferta formativa a partir da segunda vai encontrar a primeira mais tarde, e em pior altura.

    O que o inquérito mede, e o que não mede

    O universo é a população residente entre os 25 e os 64 anos. O período de referência são os doze meses anteriores à recolha. A cadência é quinquenal: os dados são de 2022, foram publicados em 2024, e a edição seguinte é esperada para 2027 ou 2028. Até lá, é este o retrato disponível, e qualquer decisão tomada em 2026 assenta em fotografia com quatro anos.

    Há três coisas que o indicador não faz, e todas importam a quem o usa para decidir.
    Não mede duração. Uma pessoa que assistiu a uma sessão de duas horas conta exatamente como quem concluiu um percurso de quatrocentas. O indicador é binário: participou ou não participou.
    Não mede conclusão. Participar e terminar são registos distintos, e o inquérito regista o primeiro. Um sistema com participação alta e conclusão baixa produz exatamente o mesmo valor que um sistema com participação alta e conclusão alta.
    Não mede efeito. Nada no indicador diz se quem participou passou a fazer alguma coisa de outra maneira. Sobre isso, o número é silencioso, e quem o cita como prova de impacto está a pedir-lhe o que ele não tem.

    Isto não desvaloriza o indicador. Delimita-o. Um termómetro é um bom instrumento e não diz o que se tem.

    O que a próxima edição pode mudar

    A cadência quinquenal tem uma consequência de planeamento que raramente é considerada. A edição seguinte do inquérito, esperada para 2027 ou 2028, será a primeira a captar por inteiro o período de execução do atual ciclo de fundos europeus dedicado à qualificação de adultos, e a primeira a medir um mercado de trabalho já reorganizado em torno de ferramentas de inteligência artificial.

    Isso significa duas coisas para quem decide agora. A primeira é que o retrato disponível é anterior a boa parte do investimento em curso, e que julgar o efeito desse investimento com estes números é julgá-lo antes de tempo. A segunda é que qualquer estratégia desenhada em 2026 vai ser avaliada, mais tarde, com dados que ainda não existem e cuja metodologia pode ter mudado entretanto.

    A conclusão prática é simples: fixar agora o que se vai medir internamente, em vez de esperar pelo indicador nacional. Uma organização que saiba quem participou, com que escolaridade e com que resultado, não fica dependente de uma fotografia que chega de cinco em cinco anos e com dois anos de atraso na publicação.

    O recorte que muda a conversa

    O valor nacional agregado esconde uma assimetria que o próprio inquérito expõe, e que é bastante mais informativa do que o valor médio.

    Entre as pessoas com ensino superior, a taxa de participação foi de 68,3%. Entre as que tinham, no máximo, o 3.º ciclo do ensino básico, foi de 27,3%. Mais do dobro.
    Gráfico de barras comparando a taxa de participação em formação em Portugal por nível de escolaridade: 68,3% no ensino superior e 27,3% até ao 3.º ciclo do ensino básico
    Participação em formação por nível de escolaridade. Fonte: INE, IEFA 2022.

    O padrão repete-se nos vinte e sete países da União Europeia, e também na Noruega e na Suíça. Não é anomalia portuguesa: é regularidade estrutural europeia. Em nenhum país a formação contínua chega proporcionalmente mais a quem tem menos escolaridade.

    A consequência é desconfortável e simples de enunciar. A formação contínua, tal como está organizada, chega sobretudo a quem já acumulou capital escolar. Um instrumento pensado como universal produz efeito desigual, e a desigualdade que produz é a mesma que existia à partida, com um ano suplementar de vantagem para quem já vinha à frente.

    Convém uma cautela de leitura, e vale a pena que fique escrita. A relação entre escolaridade e procura de formação está documentada de forma consistente e repetida, mas é correlação e não causalidade demonstrada. O inquérito mostra que os dois factos andam juntos. Não prova qual deles produz o outro, nem exclui que ambos dependam de uma terceira condição, como a natureza da função exercida.

    Por que quem tem mais formação procura mais formação

    Há quatro condições que a prática do setor identifica com regularidade, e nenhuma delas é motivação.

    Familiaridade com o formato. Quem passou mais anos em contexto de aprendizagem reconhece o código de uma sala, de um programa, de uma avaliação. Sabe o que é um sumário, o que se espera numa apresentação final, como se pede ajuda sem parecer incapaz. Quem saiu cedo do sistema reencontra um ambiente que já lhe correu mal uma vez, e a memória disso é um custo real na decisão de se inscrever.
    Informação. A oferta formativa circula em redes profissionais, em intranets, em conversas de equipa e em caixas de correio institucionais. Quem está fora dessas redes não recusa a formação: não chega a saber que ela existe. A recusa e o desconhecimento produzem o mesmo registo estatístico e são problemas completamente diferentes.
    O empregador. Quem exerce funções qualificadas trabalha, com maior probabilidade, em organizações que têm plano de formação, orçamento próprio e horas atribuídas. A participação que o inquérito regista como individual é, em boa parte, uma decisão organizacional que a pessoa apenas aceita. Os 50,6% de participação entre a população empregada dizem isto mesmo.
    O custo de oportunidade. Horário rígido, turnos, deslocação e trabalho pago à hora tornam qualquer percurso mais caro para quem menos ganha, mesmo quando a formação é gratuita. A gratuitidade resolve o preço e não resolve o custo.

    Nenhuma destas quatro condições é falta de vontade. São todas condições de acesso. E é exatamente essa a distinção que interessa a quem desenha programas, porque as condições alteram-se com desenho e a vontade não se altera com nada que uma entidade formadora possa fazer.

    Dois recortes que quase nunca aparecem

    O inquérito documenta ainda duas assimetrias que raramente chegam à conversa pública portuguesa.

    Em Portugal, e ao contrário do que sucede na maioria dos países europeus, a participação dos homens foi superior à das mulheres: 45,5% contra 43,0%. Portugal está entre os seis países da União Europeia onde isso acontece, ao lado de Itália, Chipre, Chéquia, Eslováquia e Hungria. Nos restantes vinte e um, a relação inverte-se.

    E a situação perante o emprego separa ainda mais. Entre a população empregada, participaram 50,6%, valor bastante acima da média nacional de 44,2%. O contraste com quem está fora do emprego desmente uma ideia instalada: a de que a formação funciona sobretudo como instrumento de regresso ao mercado. Nos números, funciona sobretudo para quem já lá está, e reforça a posição de quem já a tem.

    O que teria de mudar no desenho

    Se o problema é de condições e não de vontade, então é resolúvel com desenho. Quatro consequências práticas, por ordem de dificuldade crescente.

    Captação não é comunicação. Anunciar melhor uma oferta desenhada para quem já se inscreve não altera quem se inscreve. Chegar a quem não está nas redes onde a oferta circula exige outros canais e, quase sempre, exige intermediários que já tenham essa relação estabelecida: autarquias, juntas de freguesia, empregadores de setores com baixa qualificação média, estruturas associativas locais. É trabalho de terreno e não de campanha.
    O formato tem de admitir entrada tardia. Percursos modulares, curtos, com certificação parcial e possibilidade de retomar depois de uma interrupção não são uma versão diluída do percurso longo. São o formato que torna possível começar a quem não consegue garantir doze meses de disponibilidade contínua. Quem desenha para o percurso ideal desenha para quem já tem condições ideais.
    O horário e o lugar decidem mais do que o conteúdo. Um programa excelente às dezanove horas no centro da cidade está fechado a quem faz turnos ou vive a quarenta minutos de transporte público. A qualidade pedagógica só começa a contar depois de a pessoa conseguir chegar, e a maior parte da desistência acontece antes da primeira sessão.
    A pergunta de desenho que vale mais do que qualquer inquérito de satisfação. Para quem é que este programa é fácil de começar? Se a resposta for «para quem já fez formação antes», o programa vai confirmar os 68,3% e não vai mexer nos 27,3%, por muito bom que seja o conteúdo e por muito alta que seja a avaliação final.

    O que isto significa, conforme quem lê

    Para quem desenha programas. Quem mais precisa é quem menos se inscreve, e isso é um problema de desenho e de captação, não de motivação de quem aprende. Um programa dirigido a escolaridade baixa não é o mesmo programa com outro preço: é outro produto, com outro formato, outro canal e outro ponto de entrada.
    Para quem contrata e decide planos internos. O plano de formação de uma organização tende a replicar a estrutura de qualificações que ela já tem. Vale a pena verificar quem participou no último ciclo, por nível de função, antes de concluir que a oferta interna é aberta a todos.
    Para quem define política. O instrumento universal produz efeito desigual, e o indicador de participação não distingue quem foi a uma sessão de quem concluiu um percurso. Uma meta expressa em participação pode ser cumprida sem que a estrutura de qualificações do país se altere.
    Leitura da casa

    A leitura da casa

    Portugal tem um indicador de participação abaixo da média europeia, mas o problema principal não está no valor agregado. Está na distribuição.

    Uma política que suba os 44,2% recrutando mais gente entre quem já participa cumpre a meta e não corrige nada. Uma política que mexa nos 27,3% é mais lenta, mais cara e mais difícil de mostrar num relatório anual, e é a única que altera a estrutura. As duas produzem a mesma linha no gráfico e não produzem o mesmo país.

    Há ainda uma consequência que atravessa toda a leitura e que vale a pena deixar dita. Um indicador com quatro anos, publicado de cinco em cinco, não serve para gerir. Serve para enquadrar. Quem gere precisa de medição própria, mais frequente e mais estreita, e quem usa o indicador nacional como substituto disso está a confundir o mapa com o instrumento de bordo.

    Esta é a coordenada de partida do Roteiro. As edições seguintes vão a outros indicadores do mesmo sistema, e todos serão apresentados como este: com a fonte, com a base de medição, e com o que o número não permite concluir.

    Fontes

    Instituto Nacional de Estatística, Inquérito à Educação e Formação de Adultos 2022, destaque de 22 de março de 2024. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Eurostat, Adult learning statistics, séries trng_aes_100 (Adult Education Survey) e trng_lfs_17 (Labour Force Survey), edição de 2026. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Comissão Europeia, Plano de Ação sobre o Pilar Europeu dos Direitos Sociais, 2021. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    PESSOAS 2030, Portugal caminha para as metas sociais europeias de 2030 com o contributo do PESSOAS 2030, 29 de maio de 2025. Consultado a 5 de agosto de 2026.

    Nota de origem

    Este artigo reúne e desenvolve três publicações da Advance Station no LinkedIn, entre 29 de abril e 14 de maio de 2026. O texto foi reescrito para leitura contínua, as fontes estão citadas por inteiro e dois valores foram corrigidos face às publicações originais.

    • 29 de abril de 2026 · Observatório AS, edição inaugural, sobre a participação dos adultos portugueses em formação.
    • 12 de maio de 2026 · Lente de Descoberta, sobre a formação contínua e a desigualdade de partida.
    • 14 de maio de 2026 · Observatório AS, sobre as fraturas da formação contínua.